Descoberta de nova perereca em MG acende alerta ambiental

7 mar 2026 - 11h20

Anfíbio foi encontrado em apenas dois pontos no Cerrado de Minas Gerais. Descoberta mostra que mesmo em biomas bem estudados há formas de vida desconhecidas.Uma nova espécie de perereca descoberta no Cerrado do noroeste de Minas Gerais reforça o que a ciência já suspeita há anos: mesmo em biomas pressionados e relativamente estudados, ainda há formas de vida desconhecidas. Descrita na revista científica Zootaxa, a Ololygon paracatu foi registrada em apenas duas localidades no município de Paracatu (MG), e, segundo os estudos, pode existir exclusivamente naquela região.

De pequeno porte, os machos medem entre 20,4 e 28,2 milímetros, enquanto as fêmeas variam de 29,3 a 35,2 milímetros. A nova espécie apresenta diferenças morfológicas, acústicas e moleculares em relação a outras pererecas do mesmo gênero já conhecidas.

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Para chegar à conclusão de que o anfíbio é uma espécie que ainda não havia sido descrita, pesquisadores combinaram análises genéticas, comparações da estrutura corporal detalhadas e gravações de vocalizações. Esse último é um elemento central na identificação de anfíbios, já que o canto é um dos principais mecanismos de diferenciação entre as espécies.

Em seguida, esse material foi comparado com espécies já catalogadas em coleções biológicas de museus e universidades para verificar se o organismo já foi descrito anteriormente ou se apresenta características inéditas.

"Os trabalhos começaram em 2018 quando fui pesquisar anfíbios daquela região de Minas Gerais para a minha tese de doutorado. Após coletar algumas pererecas para o estudo, comecei a perceber que ela tinha características, principalmente de som, diferentes entre si e com o detalhamento vimos que havia uma espécie ainda não descrita", conta Daniele Carvalho, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN-ICMBio) e primeira autora do estudo.

Para que uma nova espécie seja reconhecida, as diferenças precisam ser consistentes e sustentadas por múltiplas evidências. No caso da Ololygon paracatu, os dados indicaram que se trata de uma linhagem evolutiva distinta dentro de um grupo de pererecas já conhecido. Só então os pesquisadores elaboram a descrição formal, publicada em revista especializada, tornando o nome válido para a comunidade científica.

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Por que a descoberta é importante

Segundo os pesquisadores, a descoberta destaca a importância da preservação ambiental. O rio Paracatu, onde as novas pererecas foram encontradas em suas cabeceiras, é um dos mais relevantes afluentes do Rio São Francisco no estado mineiro. O estudo demonstra que ainda há muita biodiversidade a ser descoberta no Cerrado e reforça a urgência da conservação do bioma.

"A presença dessa espécie na cabeceira do rio mostra que o local possui água de qualidade e isso evidencia o potencial de recuperação do rio, que em outros trechos é poluído e está ameaçado pela mineração e pelo desmatamento", explica Reuber Brandão, professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UNB).

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e abrange áreas como os estados de Goiás, Tocantins e o Distrito Federal, parte dos Estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí, Rondônia e São Paulo e também ocorre em áreas disjuntas ao norte nos estados do Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, e ao sul, em pequenas "ilhas" no Paraná.

Dados do Mapbiomas apontam que nos últimos 40 anos, o bioma perdeu 40,5 milhões de hectares, equivalentes a 28% de vegetação nativa.

Pererecas indicam qualidade do meio ambiente

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Há também implicações científicas mais amplas. Anfíbios são considerados bioindicadores sensíveis por terem pele permeável e ciclo de vida ligado à água, respondem rapidamente a mudanças ambientais e à presença de poluentes. O declínio dessas populações pode sinalizar desequilíbrios ecológicos que afetam outros organismos, inclusive os seres humanos.

"A presença dessas pererecas indica a qualidade ambiental do lugar, enquanto o entorno já está bastante degradado. Em outros rios próximos, a nova espécie já não foi encontrada, muito provavelmente devido à degradação ambiental. Isso nos mostra a necessidade de preservação dessas nascentes e do ambiente como um todo para que o local não sofra com a crise hídrica, que já assola diversos locais", acrescenta a pesquisadora.

Além disso, a biodiversidade é fonte potencial de compostos com aplicação médica. Substâncias produzidas na pele de anfíbios já demonstraram propriedades antibacterianas e antifúngicas em estudos laboratoriais.

A descoberta de uma nova espécie não garante, por si só, o desenvolvimento de medicamentos, mas amplia o repertório genético conhecido e, com ele, as possibilidades futuras de pesquisa. "Ainda é cedo para falar se essa nova espécie vai dar origem a algum fármaco, mas ela mostra o potencial do Cerrado em ampliar a biotecnologia", diz Brandão.

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Veneno de lagarto ajudou a criar o Ozempic

A utilização do meio animal como base para o surgimento de fármacos não é nova e pode ter diversas aplicabilidades nesse universo dos medicamentos. O Ozempic e outros fármacos com efeitos semelhantes, por exemplo, surgiram a partir do veneno da espécie Heloderma suspectum, conhecida como monstro-de-gila.

O pequeno lagarto, habita no sul dos Estados Unidos e norte do México, e se alimenta apenas quatro vezes ao ano, fato que despertou a curiosidade de cientistas que passaram a estudar como isso era possível.

Pesquisadores perceberam que essa habilidade é resultado de uma adaptação evolutiva, que ocorreu devido à baixa disponibilidade de comida na região. Após estudos, eles encontraram no veneno do réptil uma molécula chamada exentina-4, que fica armazenada na mandíbula do bicho.

Paralelamente a isso, outros pesquisadores já estudavam o hormônio GLP 1 que é produzido no intestino dos seres humanos e que libera para o cérebro a informação de saciedade. A grande questão é que esse hormônio dura poucos minutos no sangue e não chegava ao pâncreas, que é o órgão que inicia a produção de insulina assim que a glicose no sangue aumenta, levando a informação ao cérebro.

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Foi aí que os pesquisadores viram que a exentina-4, presente no veneno do monstro-de-gila, atua de forma similar ao GLP-1 e dura bem mais tempo no organismo.

A primeira grande aplicação prática da exendina-4 foi no desenvolvimento de um medicamento chamado Byetta (exenatida), usado para tratar diabetes tipo 2. Ele ajuda a reduzir os níveis de glicose e, com pequenas modificações, lançou as bases para outros compostos mais duradouros, como a semaglutida (princípio ativo do Ozempic e Wegovy).

No entanto, a exendina-4 é diferente do GLP-1. Enquanto o GLP-1 humano deixa o corpo rapidamente por meio de mecanismos de excreção natural, a exendina-4 permanece por mais tempo no organismo, o que faz com que seu efeito na regulação da glicose e, consequentemente na saciedade, seja mais duradouro. Foi essa descoberta que forneceu a base para o desenvolvimento de medicamentos que atuam como agonistas do receptor de GLP-1.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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