PM morta em SP: Justiça torna réu tenente-coronel investigado pelo crime, marido da vítima

Preso nesta quarta-feira no âmbito de uma investigação feita pela Corregedoria da Polícia Militar, Geraldo Leite Rosa Neto também foi indiciado pela Polícia Civil por feminicídio e fraude processual. Defesa alega que tenente-coronel colabora com as investigações e que mensagens entre o casal são 'descontextualizadas'

18 mar 2026 - 19h52
(atualizado às 20h55)

A 5ª Vara do Júri de São Paulo aceitou nesta quarta-feira, 18, a denúncia oferecida pelo Ministério Público contra o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, tornando-o réu, e decretou a prisão preventiva do policial militar.

Geraldo Neto, de 53 anos, é apontado como principal suspeito de matar a soldado da PM Gisele Santana Alves com um tiro na cabeça, dentro do apartamento do casal. Ele foi preso na manhã desta quarta-feira, a pedido da Justiça Militar, após investigação conduzida pela Corregedoria da PM. Geraldo Neto também foi indiciado pela Polícia Civil por feminicídio e fraude processual.

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Procurada, a defesa do policial afirmou estar "estarrecida" diante do "decreto dúplice de prisão do tenente-coronel pelos mesmos fatos, tanto perante a Justiça Militar quanto na Justiça comum".

Os advogados disseram ainda que Geraldo Neto tem colaborado com as investigações e destacaram que o réu forneceu seu endereço à Justiça, onde foi cumprido o mandado de prisão.

A defesa afirmou também que mensagens conflituosas entre o casal, reunidas no processo e que reforçam a tese de feminicídio, têm sido divulgadas de forma descontextualizada, ocasionando "exposição indevida" que atinge a "honra e dignidade" do tenente-coronel.

O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto foi preso nesta quarta-feira em um imóvel na cidade de São José dos Campos, interior de São Paulo
O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto foi preso nesta quarta-feira em um imóvel na cidade de São José dos Campos, interior de São Paulo
Foto: Reprodução TV Globo / Estadão

De acordo com as investigações e conforme a denúncia do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), o tenente-coronel mantinha uma relação abusiva e violenta com Gisele, que desejava se separar.

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Conforme descrito em decisão do Tribunal de Justiça Militar, durante uma discussão em 18 de fevereiro na residência do casal — um apartamento localizado no Brás, região central de São Paulo —, o tenente-coronel teria imobilizado Gisele por trás com a mão esquerda, segurado a região da mandíbula dela e, com a mão direita, efetuado um disparo contra a têmpora da vítima.

Além disso, segundo as autoridades, há indícios de que o tenente-coronel também teria alterado a cena do crime após o disparo para simular um suicídio.

De acordo com Geraldo Neto, a esposa atentou contra a própria vida enquanto ele estava no banho após uma conversa em que ele pedia a separação.

Indícios de feminicídio

Na denúncia apresentada à Justiça, as promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva apontam indícios de que a morte da soldado da PM Gisele Santana foi um feminicídio, e não um suicídio, como sustenta o tenente-coronel Geraldo Neto.

De acordo com o Ministério Público, o laudo necroscópico indica que o disparo na cabeça da vítima não foi feito com a arma encostada. A acusação também destaca que o policial militar já possuía histórico de violência contra a esposa e colegas de trabalho.

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As promotoras afirmam ainda que o tenente-coronel teria alterado a cena do crime após o disparo, realizado às 7h28, permanecendo no local por mais de 20 minutos antes de acionar socorro.

Segundo a denúncia, apenas por volta das 7h54 o militar abriu a porta do apartamento, passou a fazer ligações para a polícia, o Samu, seu superior hierárquico e amigos, e saiu para o corredor do prédio.

Imagens de câmeras de segurança registraram que, nesse momento, ele estava com o cabelo seco. Na sequência, ele retorna ao apartamento e molha o cabelo, em uma tentativa de sustentar a versão de que estaria tomando banho quando os fatos ocorreram. Às 8h02, novas imagens mostram o denunciado já com o cabelo molhado.

Para o Ministério Público, a sequência indica adulteração da cena do crime e a construção de uma versão incompatível com as evidências.

A denúncia também afirma que há provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria. Entre os elementos citados estão o laudo necroscópico, que aponta disparo à curta distância, mas não encostado; a reprodução simulada dos fatos, que descarta a hipótese de suicídio; e vestígios de sangue nas roupas do suspeito, apesar de ele afirmar que não se aproximou da vítima.

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"Tudo isso indica a adulteração do local do crime e criação de uma história pelo denunciado não condizente com a realidade", afirma o Ministério Público.

Mensagens no celular

Além disso, mensagens extraídas do celular do denunciado indicariam um relacionamento conturbado, marcado por violência e pelo desejo da vítima de se separar do marido. A denúncia também entende que essas conversas indicam que o desejo da separação não teria partido do tenente-coronel - mas, sim, da própria Gisele.

Abaixo, um trecho de um diálogo apresentado pelas promotoras e que aconteceu em 2 de fevereiro, poucos dias antes da morte de Gisele.

Geraldo: "Eu invisto todos os meses, 3 mil reais de aluguel, 2 mil reais de condomínio, 500 reais de água e luz, 500 reais de gás, fora as coisas que eu compro de mercado e todas as vezes que nós saímos eu pago tudo sozinho (...) e você investe quanto? Não tem dinheiro, blz. Investe amor, carinho, atenção, dedicação, sexo.... mas nem isso você faz".

Gisele então, responde: "Se você acha que só contribuindo com o dinheiro já está fazendo sua parte, ótimo, mas pra mim não é assim que funciona, nunca foi assim e não vai ser agora que vai mudar." (...) "por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final".

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A denúncia apresenta outras mensagens escritas por Geraldo a Gisele que descreveriam a forma como ele entende ser um relacionamento ideal: "Marido Provedor, esposa carinhosa e submissa. Não tem atrito", teria escrito o tenente-coronel, em mensagem juntada nos autos do processo.

Ele ainda teria enviado: "Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa - Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser". Segundo as promotoras, essas duas mensagens foram enviadas dois dias antes do crime.

"Tais mensagens, dentre tantas outras acostadas aos autos, revelam um comportamento machista, agressivo, possessivo, manipulador e autoritário", afirma o MP-SP. "Tais sinais evidenciam o perigo da liberdade do denunciado, que irá a todo custo tentar manipular a prova, alterar verdades, influenciar testemunhas, tudo para que sua versão dos fatos prevaleça".

A defesa de Geraldo Neto afirma que informações e interpretações da "vida privada" do tenente-coronel estão sendo divulgadas "por meio de conteúdos descontextualizados" e que atingem a honra e a dignidade do policial militar.

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"No momento oportuno, sua equipe jurídica (de Geraldo Neto) irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao tenente-coronel", afirmou a defesa.

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