Ao menos 26 pacientes apresentaram complicações após passar por um mutirão oftalmológico em uma clínica particular em Irecê, a cerca de 500 KM de Salvador (BA). Segundo a Secretaria Estadual de Saúde (Sesab), os procedimentos foram realizados no Ceom Day Hospital. A Polícia Civil investiga uma morte relacionada ao tratamento. Vigilância encontrou ausência de monitoramento adequado de temperatura na geladeira onde o produto estava.
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Ao Terra, a pasta informou que os procedimentos de Terapia Antiangiogênica (TAG) — tratamento para impedir a formação de novos vasos sanguíneos anormais — foram realizados em 143 pacientes, entre os dias 28 de fevereiro e 1º de março, na unidade. O medicamento usado foi o Avastin (bevacizumabe), um agente biológico oncológico produzido pelo laboratório Roche.
Pouco depois, 26 pacientes relataram intercorrências como ardência e hiperemia ocular, dos quais 23 foram identificados como pacientes SUS, que haviam sido encaminhados pela regulação estadual.
Já a Polícia Civil aponta que oito denúncias foram registradas entre os dias 27 e 30 de março envolvendo pacientes com perda parcial ou total da visão após o tratamento. Além disso, a morte do paciente Gilberto Pereira Pontes, 72 anos, também é investigada no mesmo âmbito.
A 1ª Delegacia Territorial (DT/Irecê) é quem investiga o caso, realizando a colheira de depoimentos e diligências contínuas para esclarecer todos os fatos. Laudos periciais expedidos pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT) ajudarão na elucidação da causa do óbito.
Por sua vez, a Sesab adotou as seguintes providências:
- Suspensão imediata do encaminhamento de pacientes para o Ceom Day Hospital n
- Inspeção sanitária, na qual a Vigilância Sanitária estadual identificou não conformidades relativas ao armazenamento do medicamento Avastin, incluindo ausência de monitoramento adequado de temperatura na geladeira de acondicionamento do produto e despreparo da equipe quanto aos protocolos de controle de temperatura. O Órgão aguarda o resultado das análises laboratoriais dos produtos coletados durante a inspeção.
- Notificação das não conformidades
- Apuração técnica pela Diretoria de Controle das Ações e Serviços de Saúde, que instaurou diligências que incluem análise de prontuários e acompanhamento da evolução clínica dos casos
O que diz o hospital e a empresa que fabrica a medicação
Em nota à reportagem, a Hospital Ceom Irecê informou que realizou 643 procedimentos ambulatoriais e cirúrgicos na unidade de saúde, todos obedecendo critérios médicos pré-determinados pela literatura, com realização de exames prévios específicos. A unidade confirmou a identificação de ocorrências em 24 pacientes que realizaram a terapia antiangiogênica no acompanhamento pós-procedimento imediato, e afirmou que o número permanece sob monitoramento contínuo pela equipe assistencial.
“Desde a identificação dos casos, todos os pacientes permanecem em acompanhamento ativo, com assistência integral, incluindo avaliações especializadas, terapias medicamentosas e monitoramento evolutivo. Parte significativa dos pacientes já apresenta evolução clínica favorável, com melhora progressiva, conforme registros assistenciais mais recentes”, declarou a unidade (confira a nota na íntegra abaixo).
Quanto à morte de Gilberto Pereira Pontes, a assessoria do hospital afirma que não há nada que comprove o vínculo da morte com o tratamento. Em nota, alega que impossibilidade de individualizar informações médicas relativas a quaisquer pacientes em observância ao dever de sigilo profissional, conforme determinado pelo Conselho Federal de Medicina, bem como às normas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“Esclarece, ainda, que eventual análise técnica de caso envolvendo óbito depende do acesso à respectiva Declaração de Óbito, documento que, até o momento, não foi disponibilizado à instituição, sendo certo que sua apresentação somente pode ser realizada por familiares do paciente ou por quem detenha legitimidade legal para tanto”, descreve.
Ainda segundo a unidade, o que se pode afirmar, de forma objetiva, é que os procedimentos de terapia antiangiogênica realizados pela unidade “são indicados para pacientes acometidos por degeneração macular relacionada à idade (DMRI) ou retinopatia diabética (RD), sendo esta última associada ao diabetes, uma comorbidade relevante”, e que uma comissão específica para análise técnica foi instituída (confira abaixo na íntegra).
Já o laboratório Roche Farma Brasil declarou que tomou conhecimento dos relatos envolvendo o medicamento na cidade de Irecê (BA), e reforça que a segurança dos pacientes é sua prioridade absoluta. Além disso, a empresa diz que o Avastin tem aprovação regulatória da Anvisa desde 2002 e foi especificamente desenvolvido, estudado e formulado para tratar vários tipos de câncer.
“Avastin (bevacizumabe) não foi desenvolvido para uso oftalmológico injetável. Além disso, o uso off-label (fora de bula) de Avastin (bevacizumabe) nos olhos tem sido associado a eventos adversos, conforme indicado em bula. Até o momento, não foram detectados desvios de qualidade no processo de fabricação do produto que possam estar relacionados a este caso”, declarou.
A Roche ressalta ainda que a manutenção da segurança de medicamentos biológicos depende também do rigoroso cumprimento de protocolos de armazenamento e manuseio nas instituições de saúde, portanto, deve ser mantido em refrigerador, em temperatura de 2 a 8 ºC, protegido da luz até o momento da utilização.
“Depois de aberto, deve-se garantir a esterilidade da solução preparada. A Roche está acompanhando o caso de forma diligente e cooperando integralmente com a avaliação em andamento. Por fim, a Roche expressa sua sincera solidariedade aos pacientes e seus familiares e permanece à disposição para prestar todo esclarecimento e as informações técnicas necessárias durante este processo”, finaliza.
Confira o posicionamento completo do Hospital Ceom
“O Hospital CEOM Irecê informa a atualização dos dados referentes aos eventos adversos observados após procedimentos de terapia antiangiogênica realizados em pacientes acometidos por degeneração macular relacionada à idade (DMRI) ou por retinopatia diabética (RD), nos dias 28 de fevereiro e 1º de março de 2026.
No período, foram realizados 643 procedimentos ambulatoriais e cirúrgicos na unidade de saúde, todos obedecendo critérios médicos pré-determinados pela literatura, com realização de exames prévios específicos, tendo sido identificadas ocorrências em 24 pacientes que realizaram a terapia antiangiogênica no acompanhamento pós-procedimento imediato, número que permanece sob monitoramento contínuo pela equipe assistencial.
O tratamento com antiangiogênico (ou anti-VEGF) no olho é uma injeção intravítrea usada para bloquear o crescimento de vasos sanguíneos anormais e reduzir o vazamento de fluidos na retina. Ele é indicado para tratar doenças graves que causam inchaço na retina e perda de visão, como a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) forma úmida, edema macular diabético, retinopatia diabética proliferativa e oclusões vasculares da retina.
Por conta disto, desde a identificação dos casos, todos os pacientes permanecem em acompanhamento ativo, com assistência integral, incluindo avaliações especializadas, terapias medicamentosas e monitoramento evolutivo. Parte significativa dos pacientes já apresenta evolução clínica favorável, com melhora progressiva, conforme registros assistenciais mais recentes.
No âmbito institucional, o CEOM concluiu auditoria minuciosa de todos os prontuários relacionados aos atendimentos, com análise técnica detalhada dos registros clínicos, condutas adotadas e fluxos assistenciais. Como medida de transparência e respeito aos direitos dos pacientes, os prontuários já estão sendo organizados e disponibilizados aos interessados, garantindo pleno acesso às informações assistenciais.
Paralelamente, seguem em curso as apurações técnicas junto à Comissão de Controle de Infecção Hospitalar e aos órgãos de vigilância em saúde, bem como as diligências relacionadas à rastreabilidade de insumos. Com 24 anos de existência, tendo realizado mais de 25 mil procedimentos ao longo dos últimos quatro anos, o Hospital CEOM reafirma seu compromisso absoluto com a segurança do paciente, a transparência institucional e a condução rigorosa das medidas necessárias para completa elucidação dos fatos, permanecendo disposição dos pacientes, da sociedade e das autoridades competentes”.
“Por obrigação ética e legal, o CEOM informa a impossibilidade de individualizar informações médicas relativas a quaisquer pacientes, em observância ao dever de sigilo profissional, conforme determinado pelo Conselho Federal de Medicina, bem como às normas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Esclarece, ainda, que eventual análise técnica de caso envolvendo óbito depende do acesso à respectiva Declaração de Óbito, documento que, até o momento, não foi disponibilizado à instituição, sendo certo que sua apresentação somente pode ser realizada por familiares do paciente ou por quem detenha legitimidade legal para tanto.
O que se pode afirmar, de forma objetiva, é que os procedimentos de terapia antiangiogênica realizados pela unidade são indicados para pacientes acometidos por degeneração macular relacionada à idade (DMRI) ou retinopatia diabética (RD), sendo esta última associada ao diabetes, uma comorbidade relevante.
Desde a identificação dos casos, foi instituída comissão específica para análise técnica, tendo todos os pacientes sido convocados para acompanhamento ativo na unidade, com assistência integral e especializada, em nível ambulatorial e, quando indicado, por meio de intervenções adicionais, conforme critérios médicos individualizados definidos em cada avaliação.
O CEOM permanece à disposição para prestar esclarecimentos adicionais, com transparência e responsabilidade, contribuindo para a veiculação de informações precisas e de interesse público”.