Ação da PF contra Wagner arranha estratégia eleitoral do Planalto

24 jun 2026 - 11h56

Especialistas afirmam que operação da PF que atingiu líder do governo Lula enfraqueceu estratégia eleitoral do Planalto contra Flávio Bolsonaro, que tentava colar escândalo do Banco Master apenas na direita.Um mês após o vazamento dos elos entre a família Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, a investigação do Banco Master atinge o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT), causando danos à estratégia do Planalto de associar a imagem de Vorcaro apenas com a direita.

Segundo a avaliação de cientistas políticos, as suspeitas contra o senador da Bahia equilibra o jogo de acusações no período eleitoral.

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Wagner foi alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, em 19 de junho, três dias após o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) ser condenado no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo crime de coação do processo.

A condenação deu continuidade ao desgaste vivido pela campanha do irmão de Eduardo, o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), mas acabou ofuscada pela operação contra um nome próximo ao presidente Lula.

Uma amostra pode ser observada em redes sociais e em grupos de mensagens. Dados da Palver, empresa de tecnologia que faz o monitoramento do ambiente digital, mostram que o nome de Jaques Wagner no dia da operação teve 213 menções a cada 100 mil mensagens.

No dia 16, data da condenação, o pico de menções a Eduardo Bolsonaro foi de 137 a cada 100 mil mensagens. "Tudo isso muda de figura. Eduardo teve 80% de menções negativas após ser condenado. Com a operação da PF, essa quantidade de menções negativas estava ligadas ao PT e ao governo", afirmou o co-fundador da Palver, Luis Fakhouri.

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De acordo com Fakhouri, o fato da condenação de Eduardo ser esperada, já que o processo estava em andamento, diminui a repercussão no ambiente digital. O vazamento dos áudios de Flávio com Vorcaro em maio, por exemplo, causou um impacto maior por até então os elos entre a família Bolsonaro e o dono do Banco Master não serem conhecidos.

Desde o vazamento, a campanha de Flávio lida com uma piora nas pesquisas eleitorais e uma sequência de notícias negativas contra o senador, como a imposição de novas tarifas do governo americano contra o Brasil uma semana após o encontro de Flávio com o presidente Donald Trump. Em contrapartida, os áudios das conversas com Vorcaro serviram para a campanha do presidente Lula (PT) associar a imagem de Flávio Bolsonaro e do seu entorno a Vorcaro.

Acusação de corrupção como arma de campanha

Segundo o diretor de análise política do instituto de pesquisa AtlasIntel, Yuri Sanches, a estratégia da campanha petista buscava o público mais sensível a casos de corrupção, que representa cerca de 15% do eleitorado. "Mas com investigações avançando e atingindo aliados do Lula, existe o potencial de equilibrar o jogo e fazer o governo frear a estratégia inicial de ligar Flávio a Vorcaro", declarou Sanches.

Para o cientista político Marco Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a operação contra o Jaques Wagner causa um efeito imediato, ao oferecer à oposição um argumento para reagir às críticas. "O jogo está empatado. Ninguém pode falar mal do outro. Não pode usar contra o outro aquilo que também tem", avaliou.

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Candidaturas favorecidas

Com as duas principais pré-candidaturas atingidas por elos com o escândalo do Banco Master, nomes menos vinculados à política tradicional tendem a se beneficiar.

No campo da direita, analistas e cientistas políticos avaliam que candidaturas como a do influenciador Renan Santos (Missão) podem aproveitar a brecha para atrair a parcela do eleitorado insatisfeito. "Quem mais tende a se beneficiar é quem se posiciona fora da polarização. O Renan tenta ocupar esse espaço, mas dificilmente se torna viável", afirmou Marco Carvalho.

O cenário é diferente para outras pré-candidaturas à presidência, como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), que não apresentaram melhora nas pesquisas de intenções de voto após o vazamento dos áudios de Flávio. A explicação está na proximidade do primeiro com o bolsonarismo e da antipatia que Caiado acumula em determinados setores da direita.

Para Sanches, do instituto AtlasIntel, o espaço de crescimento para as duas candidaturas é pequeno. "O ganho político de Zema e Caiado foi bem reduzido, quando não negativo. O Zema se prejudicou após o áudio de Flávio com Vorcaro, por causa da proximidade entre os dois. Já o Caiado não tem a simpatia do bolsonarismo, mas não consegue crescer muito com foco nisso, que também vai ser explorado por outras candidaturas", declarou.

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O analista acrescenta que o desafio de Renan Santos é, neste cenário, se comunicar com mais eleitores. "O desafio dele não é trivial. Renan conversa com jovens, a maioria homem, e que está insatisfeito com a polarização. É diferente do Caiado e do Zema, que conseguem se comunicar com uma fatia mais homogênea do eleitorado", declarou.

Narrativa de perseguição judicial

Enquanto a campanha do presidente Lula planeja como lidar com o caso Jaques Wagner, a campanha de Flávio Bolsonaro tende a reforçar a narrativa de perseguição judicial, adotada pelo bolsonarismo desde os julgamentos relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023. O discurso foi reproduzido por representantes após a decisão contra Eduardo no dia 16.

Condenado por prejudicar a Justiça ao buscar sanções contra ministros do STF junto ao governo americano, Eduardo declarou que não reconhece a decisão e voltou a denunciar o caso como perseguição. Apesar de a condenação o tirar da disputa eleitoral este ano, por causa da Lei da Ficha Limpa, ele afirma se manter candidato a suplente no Senado.

Para a cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a condenação ofereceu ao bolsonarismo um novo elemento para mobilizar sua base eleitoral, mas os efeitos fora desse grupo são incertos. Segundo ela, parte do eleitorado tende a enxergar as críticas ao Judiciário como legítimas, enquanto outra parcela interpreta o discurso como uma tentativa de deslegitimar instituições democráticas.

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"A capacidade da narrativa de perseguição ultrapassar a base bolsonarista dependerá menos do caso em si e mais da evolução de outros acontecimentos, inclusive investigações envolvendo figuras governistas, como Jaques Wagner, e da percepção pública sobre a imparcialidade das instituições ao longo dos próximos meses", afirmou a pesquisadora.

A narrativa pode se intensificar com o processo de extradição contra Eduardo, que reside nos Estados Unidos desde 2025. A expectativa é que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negue extraditar o terceiro filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, como fez antes com Allan dos Santos. O pedido ainda não foi feito aos EUA, mas deve ser encaminhado nos próximos meses.

No dia da condenação do ex-parlamentar, cerca de 60 mil grupos ligados à direita e monitorados pela Palver repercutiram a narrativa de perseguição. Uma pequena parcela voltou a criticar Eduardo por prejudicar a campanha do irmão à presidência, como já tinha sido observado quando o ex-deputado atuou por tarifas dos EUA contra o Brasil.

Na avaliação de Santana, a narrativa de perseguição se restringe hoje a grupos bolsonaristas, mas pode ser ampliada para eleitorados mais moderados. Representantes da direita, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), contribuem para isso, ao ampliar a mensagem de perseguição. O apoio do governo de Donald Trump à família Bolsonaro também pode favorecer essa percepção.

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"Mas há um limite importante, pois, uma parte do eleitorado pode interpretar apoio externo como validação das críticas ao Judiciário. Outra parte pode interpretar o mesmo fenômeno como tentativa indevida de influência estrangeira na política brasileira. Ou seja, o efeito eleitoral não é unidirecional", afirmou Santos.

Na avaliação dos especialistas, a investigação contra o líder do governo no Senado contribui para fortalecer esse discurso ao permitir que aliados de Bolsonaro argumentem que há problemas em ambos os campos políticos. Ainda assim, eles ponderam que a existência de investigações envolvendo governistas não elimina os efeitos políticos da condenação de Eduardo nem garante que a narrativa de perseguição consiga ampliar o apoio eleitoral ao bolsonarismo.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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