O medo da escassez: como Resident Evil 2 ensinou a economizar tudo

Quando sobreviver era contar balas, não matar zumbis

22 jan 2026 - 11h39
O medo da escassez: como Resident Evil 2 ensinou a economizar tudo
O medo da escassez: como Resident Evil 2 ensinou a economizar tudo
Foto: Divulgação/Capcom

Antes de Resident Evil virar sinônimo de ação cinematográfica, explosões exageradas e protagonistas que pareciam mais preparados do que um exército, houve um tempo em que sobreviver significava contar balas. E nenhum jogo fez isso tão bem — e de forma tão cruel — quanto Resident Evil 2.

Lançado em 1998, o clássico da Capcom não apenas redefiniu o survival horror, como também educou uma geração inteira de jogadores a lidar com um sentimento raramente explorado até então: o medo da escassez. Em RE2, não era o zumbi à sua frente que mais assustava, mas a dúvida silenciosa que vinha logo depois: vale a pena gastar munição nisso?

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Cada bala é uma decisão moral

Desde os primeiros corredores da delegacia de Raccoon City, o jogo deixa claro que você não está no controle da situação. Munição é limitada, sprays de cura são raros e o baú mágico — embora salvador — não resolve tudo. O jogador aprende rápido que atirar em tudo o que se mexe é o caminho mais curto para o fracasso.

Assim, RE2 transforma cada confronto em um dilema. Derrubar um zumbi pode ser necessário agora, mas e depois? Aquela espingarda salvadora usada por impulso pode fazer falta quando o jogo resolver apertar o cerco. Economizar não é apenas uma estratégia: é uma filosofia de sobrevivência.

A genialidade de Resident Evil 2 está em como ele ensina sem explicar. O mapa da delegacia é um labirinto hostil, cheio de atalhos que só fazem sentido depois de muito sofrimento. Zumbis não desaparecem — eles permanecem ali, como uma cobrança constante das decisões que você tomou antes.

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Esse design reforça a paranoia. Voltar por um corredor conhecido nunca é totalmente seguro, e o jogo te obriga a pensar no longo prazo. Gastar recursos agora pode tornar o futuro simplesmente inviável. É um aprendizado quase traumático, que muitos jogadores carregam até hoje.

O remake e a escassez como legado

O Resident Evil 2 Remake, lançado em 2019, prova que essa lição envelheceu bem. Mesmo com gráficos modernos e controles atualizados, o coração do jogo permaneceu o mesmo. A escassez continua ditando o ritmo, e o medo não vem apenas dos monstros, mas da incerteza.

O que muda é a forma como o jogo comunica esse desespero. A câmera sobre o ombro aproxima o jogador da ameaça, transforma cada corredor em um espaço claustrofóbico e torna qualquer erro mais íntimo. Ver a munição acabando no canto da tela, ouvir o clique seco da arma sem balas e perceber que não há para onde correr reforça a sensação de vulnerabilidade. O remake não suaviza a escassez — ele a torna mais física, mais presente, quase palpável.

Mr. X, inclusive, é a personificação perfeita desse conceito: um inimigo que não pode ser derrotado, apenas evitado. Ele não consome munição, mas consome algo talvez mais valioso — tempo e planejamento. E, indiretamente, faz você gastar recursos que jurou guardar.

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O modo The 4th Survivor funciona quase como a tese final de Resident Evil 2 sobre escassez. Ali, não há tempo para exploração cuidadosa nem espaço para erros prolongados: cada bala, cada cura e cada segundo contam. Controlando Hunk em uma rota direta pela cidade infestada, o jogador é colocado em uma corrida desesperada contra o inevitável, onde a eficiência substitui a cautela e o desperdício é punido sem piedade.

Uma lição que moldou o jogador

Resident Evil 2 não ensinou apenas a sobreviver em Raccoon City. Ele moldou um tipo de jogador mais cauteloso, atento e estratégico. Depois dele, nunca mais confiamos totalmente em cofres cheios, nem em salas aparentemente seguras. Aprendemos a guardar “para depois”, mesmo sem saber quando esse depois vai chegar.

No fim das contas, o verdadeiro terror de RE2 não é a morte. É a sensação de perceber que você pode ter usado demais — e agora talvez não tenha o suficiente para continuar.

E essa é uma lição que poucos jogos conseguiram ensinar com tanta elegância, e crueldade.

Fonte: Game On
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