A Copa do Mundo de 2026 termina com um gosto amargo na boca do torcedor brasileiro. E essa melancolia não tem relação com o título da Espanha ou com o vice-campeonato da Argentina. O verdadeiro motivo de luto é a iminente despedida do homem que, nos microfones, foi o nosso Pelé. Não estou falando de nenhum gênio com a bola nos pés; minhas palavras são de reverência absoluta a Galvão Bueno.
- Você já nos segue nas redes sociais? O Terra Esportes está presente no Tiktok, no Youtube e no Instagram. Tudo para te manter informado de um jeito diferente e divertido. Siga nosso perfil, curta e compartilhe!
Ainda que o narrador se recuse a fechar definitivamente as portas para o torneio, todos nós sabemos que, aos 75 anos, o cronômetro da história corre implacável. Da locução principal e do ritmo alucinante das cabines, ele já avisou que não vai continuar. É o fim de uma era.
O desfecho dessa história, embora estejamos afogados em gratidão por tantas emoções que Galvão nos vendeu ao longo de décadas, foi injusto. Definitivamente, o maior narrador da história da nossa televisão não merecia se aposentar das Copas carregando o fardo de um jejum histórico e de atuações tão vergonhosas e apáticas quanto as que a Seleção Brasileira entregou em 2026.
Galvão Bueno representa um estilo em extinção na comunicação brasileira. Em tempos de gritaria artificial e narradores histéricos que tentam vender um arremesso lateral como se fosse final de campeonato, Galvão sabe usar o silêncio e o ritmo. Ele entende que o futebol tem dinâmica. Sabe a hora exata de soltar o clássico "opa, opa, opa" quando um volante argentino entra por cima da bola, ditando a temperatura do jogo como ninguém.
Mais do que técnica, Galvão entende a alma de quem está no sofá.
Ele saboa perfeitamente que a esmagadora maioria dos brasileiros queria secar a Argentina na decisão contra a Espanha. Nos momentos finais da prorrogação, se você fechasse os olhos e apenas escutasse a transmissão, juraria que era o Brasil que estava em campo prestes a levantar a taça.
No fim das contas, o comentarista Mauro Beting tem toda a razão ao fazer um apelo público para que Galvão Bueno continue. O maior de todos merece um ato final muito mais feliz do que a ressaca deixada por Carlo Ancelotti. O futebol brasileiro precisa da voz de Galvão, ainda que a gente se irrite com seus discursos, erros ou broncas.
Galvão Bueno se tornou o nosso "Malvado Favorito". É a voz que embalou nossos maiores títulos, nossos piores traumas e os nossos domingos em família. É absolutamente impossível ficar indiferente à sua despedida. Sem ele, a partir de amanhã, a Copa do Mundo vai parecer um lugar muito mais silencioso e terrivelmente sem a mesma graça.