Grandes tragédias costumam, quase por reflexo, alavancar os índices de audiência da televisão aberta. Junto com a comoção popular e a busca aflita por informações, contudo, vem à tona o pior lado, o sensacionalismo desmedido. As mais de 12 horas de cobertura em torno das buscas pelo cantor Rick escancararam, mais uma vez, a facilidade com que certos programas perdem completamente a mão.
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Dois episódios específicos, exibidos no SBT e na Record, sintetizam essa busca desesperada pelo Ibope a qualquer custo.
O pico de desrespeito ocorreu no SBT, sob o comando de Marcão do Povo no Primeiro Impacto. Em um momento da mais pura falta de noção, o apresentador decidiu ligar para o celular do cantor sertanejo ao vivo. Enquanto familiares, amigos e fãs viviam momentos de extrema dor e angústia aguardando notícias das equipes de resgate, o jornalista tentou emplacar um "milagre" no ar.
"Esse sentimento está dizendo para eu ligar para ele. Já imaginou se o Rick atende o telefone? Já parou para imaginar? Como o Brasil vai se alegrar", disse o apresentador antes de seguir com a ligação que, naturalmente, não foi atendida.
Não à toa, como revelou a Folha de S.Paulo nesta quarta-feira, 23, o apresentador foi repreendido pela emissora.
Na Record, a estratégia do Cidade Alerta preencheu o tempo de tela fabricando narrativas sem qualquer amparo nos fatos. Reinaldo Gottino recorreu à especulação pura.
O repórter André Azeredo entrevistou a perita Tatiane Almeida, que explicou que o helicóptero havia caído de bico e que três corpos estavam do lado de fora da aeronave. Questionada por Gottino se as vítimas poderiam ter sobrevivido ao impacto e tentado buscar ajuda, a perita foi cautelosa: pontuou apenas a localização dos corpos e frisou que qualquer hipótese dependia de análises periciais profundas.
Bastou a repórter devolver para o estúdio para que Gottino transformasse a prudência da especialista em um enredo dramático criado da própria cabeça.
“Ela trouxe uma informação nova e importante porque pelo que percebeu, pela forma que ela descreveu, helicóptero caiu de bico. Se tem três pessoas para fora do helicóptero, são pessoas que possivelmente sobreviveram e tentaram sair da aeronave em busca de ajuda, de socorro e não resistiram aos ferimentos”, disse o apresentador.
A perita jamais afirmou ou sugeriu que as vítimas deixaram a aeronave com vida. A ilação foi 100% fabricada pelo apresentador para injetar carga dramática na transmissão.
O sensacionalismo pode até entregar picos de audiência no minuto a minuto, mas custa caro à credibilidade do jornalismo e à dignidade das famílias atingidas. Dá resultado, sem dúvida. Mas vale a pena?