A Moranguete trai Bananilson com o Abacatudo e acaba sendo jogada na rua. Esse é um vídeo popular de um dos muitos perfis que têm feito as chamadas "novelinhas de IA" com personagens baseados em frutas, algo que se tornou febre nas redes sociais nas últimas semanas, mas que carrega tramas pesadas e que banalizam assuntos sérios.
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Por um lado, esses vídeos feitos com prompts de inteligência artificial mostram personagens que são frutas humanizadas, como um morango, uma pêra, uma banana e um abacate, mas o lado lúdico e que pode parecer infantil está apenas no visual.
As histórias contadas nesses vídeos, geralmente com cerca de um minuto, são divididas em várias partes e costumam conter conteúdos apelativos para tratar de assuntos como relacionamentos amorosos. É comum ver cenas de violência, agressão, ciúme excessivo e assédio, mas sem o devido aprofundamento em temas delicados.
Na opinião de especialistas, o consumo recorrente e sem os devidos questionamentos desse tipo de conteúdo pode ser prejudicial. "Essas novelinhas de IA mostram ciúme doentio, controle, brigas e até violência como se fosse algo normal ou romântico, sem explicar de verdade o que é abuso. Quando alguém assiste isso repetidamente, o cérebro começa a absorver essas ideias como se fossem comuns na vida real. Com o tempo, a pessoa pode achar que ‘ciúme é prova de amor’ ou que brigar feio é só ‘paixão’, e isso acaba moldando como ela reage em relacionamentos de verdade", diz André Sena Machado, doutor em Psicologia Clínica e Neurociências, em entrevista ao Terra.
O psicólogo explica que o cérebro aprende por repetição, então essas influências que histórias problemáticas podem causar dependem do quanto de tempo alguém passa assistindo a esses vídeos, da faixa etária do público e dos questionamentos que a pessoa faz enquanto consome aquele conteúdo.
"O que a gente consome não fica só no entretenimento, participa da construção emocional de quem estamos nos tornando", define a psicóloga Andréia Batista em entrevista ao Terra.
Para a psicóloga Andréia Batista, o problema encontrado nas novelinhas de frutas não são os temas abordados, mas a falta de aprofundamento, que faz com o que deveria ser um alerta se torne apenas mais uma forma de entretenimento. "O que a gente consome não fica só no entretenimento, participa da construção emocional de quem estamos nos tornando."
Por conta disso, o consumo desse tipo de vídeo por crianças e adolescentes pode ser um alerta vermelho, uma vez que esse público ainda está desenvolvendo senso crítico e a própria identidade. A psicóloga cita como exemplo jovens que atende em consultório com "dificuldade para reconhecer relações saudáveis porque internalizaram modelos distorcidos de vínculo e afeto a partir do que consomem."
Novelinhas de IA são para crianças e adolescentes?
Ainda que haja alguns exemplos de novelinhas de frutas com tramas educativas, como vídeos que ensinam sobre prevenção de ISTs, a maioria dos conteúdos gira em torno de tramas com ciúme excessivo, brigas e outros temas pesados, sempre contados por meio de uma animação e com personagens até um tanto infantis, o que pode levar o público mais jovem a ter dificuldade de identificar o que é saudável ou não em uma relação. "Pode fazer eles acharem que violência psicológica ou controle é algo comum e aceitável, o que afeta como eles vão se relacionar no futuro", diz André Sena.
Priscilla Montes, especialista em neuroeducação e desenvolvimento infantil, explica que crianças e adolescentes ainda estão em fase de desenvolvimento da área do cérebro responsável pelo julgamento crítico, por isso são mais sensíveis à identificação com personagens, além do fato de adolescência ser um período marcado pela busca de referências externas da própria identidade.
" O problema não é o contato pontual com temas difíceis, isso faz parte da vida. O risco está na repetição de narrativas distorcidas sem espaço para elaboração e orientação. Crianças e adolescentes ainda estão aprendendo a diferenciar intensidade emocional de vínculo saudável. Quando o conteúdo associa sofrimento, drama e instabilidade à ideia de amor, isso pode confundir profundamente essa construção", diz a educadora.
O tema se torna ainda mais delicado quando muitos dos vídeos contam com conteúdos de cunho sexual, o que pode gerar antecipação de etapas de desenvolvimento e até fazer com que adolescente associem sexo a violência.
Entretanto, os especialistas concordam que proibir crianças e adolescentes de assistir a esses vídeos não é o mais adequado, pois pode fazer com que eles fiquem com ainda mais vontade de consumir os conteúdos. Eles recomendam que responsáveis monitorem o que menores de idade de idade estão consumindo na internet, sempre perguntando o que eles entenderam da história, nomeando comportamentos inadequados e explicar a realidade por trás das histórias contadas.