Em 1984, Gilberto Gil escreveu que é preciso deixar o tempo transcorrer e transformar. Os Gilsons aprenderam a lição dentro de casa. O trio formado por Fran, José Gil e João Gil atravessa a dor da perda de Preta Gil no álbum Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão, um trabalho mais introspectivo e reflexivo, sem perder o swing solar característico do grupo. "Um respiro para todos nós", define Fran.
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Lançado no início do mês, o novo álbum é o sucessor do estreante Pra Gente Acordar (2022). De cara, a diferença entre os dois projetos é nítida. Na capa do primeiro disco, o trio aparece em cores claras, cercado por um céu azul. Na contramão, o lançamento é mais sóbrio. Em tons de preto e dourado, a foto dos três dá lugar a um desenho que remete a uma árvore da vida ou até mesmo a uma placenta.
Em entrevista ao Terra, os Gilsons falaram sobre o processo criativo do novo álbum em meio ao luto da perda de Preta Gil, em julho de 2025. O grupo ainda revelou detalhes do projeto, que contou com a participação de nomes como Arnaldo Antunes e Caetano Veloso em duas das dez faixas.
'Contempla a novidade, mas resgata o que o Gilsons sempre foi'
Para José Gil, baterista e produtor da banda, o Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão expande a sonoridade dos Gilsons, enquanto tenta manter a essência que alçou o grupo ao sucesso.
"A gente tinha a preocupação de não alienar tanto o público que a gente já tinha construído, que escuta muito, que vai aos shows. Conseguimos dar um passo a mais em relação às produções, aos beats eletrônicos que ficam muito na minha mão em relação à criação, junto com o violão muito característico do Fran e as harmonias do João", explica.
Na rotina dos Gilsons não existe essa ideia de que trabalhar com a família não dá certo. Filho e netos de Gilberto Gil, os três integrantes se sentem cada vez mais afinados em estúdio, como conta José.
"Cada vez mais convivendo juntos em estúdio, cada vez se conhecendo mais, o processo também fica facilitado. Estamos felizes com o resultado dessa nova sonoridade. Contempla a novidade, mas também resgata o que o Gilsons sempre foi", define.
Processo criativo em meio à perda
A frase que dá nome ao álbum é extensa em tamanho e em significado. Quase como um mantra, Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão ganha um outro contorno após a perda de Preta Gil, em julho de 2025, aos 50 anos, vítima de câncer. Foi ela, inclusive, quem batizou a banda em referência ao patriarca da família.
Filho único da cantora, Fran conta que a ideia do nome do novo projeto veio da empresária Andrea Franco, e se conectou perfeitamente com o momento pessoal difícil do grupo. "A gente começou o disco logo depois que minha mãe faleceu, então foi um processo que colaborou muito para essa cura que a gente tem vivido", diz o vocalista.
Para os Gilsons, mergulhar na arte em meio ao luto foi, de alguma maneira, uma forma “terapêutica” de lidar com a dor. "Assim que começamos o disco, ainda tinha uma turnê acontecendo. Tiveram momentos ainda de estrada onde fomos nos fortalecendo enquanto grupo, trio, família", relembra.
"Quando precisamos encarar tudo que vivemos no ano passado, por estarmos ali nessa construção de cuidado, nos fortalecemos muito. O disco naturalmente também nasce muito desse lugar, bebe dessa fonte do que estava acontecendo. Então as canções são o processo dessa energia. Gilsons se tornou um respiro para todos nós e o disco foi essa potência", complementa.
'Me conecto muito com a minha mãe'
Diferente do álbum de estreia, o Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão é recheado de feats especiais, como Arnaldo Antunes, Narcizinho (Olodum), Julia Mestre e a multi-instrumentista Sona Jobarteh.
A escolha foi consciente, como revela João Gil. "No primeiro disco a gente optou por não ter nenhum feat. Queríamos realmente solidificar o nosso trabalho como trio e garantir essa nossa identidade no disco de agora. Então, para essa nova fase, a gente se permitiu ter esses convidados", argumenta.
Parceiro de composições do patriarca da família Gil, Caetano Veloso também colaborou no novo álbum, cantando a faixa Minha Flor ao lado dos filhos Moreno e Tom Veloso.
Em uma letra que fala sobre a saudade e o exercício de deixar ir, a gravação traz a intimidade e a cumplicidade na dor de fora para dentro do estúdio de gravação. "Minha flor/ uma onda carregou/ para o alto mar/ Yemanjá/ meu presente aceitou/ na maré levou", diz a letra assinada por João e Arnaldo Antunes.
Segundo Fran, a sinergia entre os Gil e os Veloso é nítida na gravação. "Ainda mais nesse momento todo da minha mãe. É muito claro esse vínculo de família. Eu e Moreno, a gente tem essa coisa de primos. Então, o Caetano é um tio e Tom acaba também sendo uma espécie de primo", explica.
Para além da velha amizade entre os compositores baianos, as famílias também compartilham laços sanguíneos. Mãe de Preta Gil, Sandra Gadelha é irmã de Dedé Gadelha, ex-esposa de Caetano e mãe de Moreno Veloso.
"A gente cresceu juntos, se fortaleceu nesse momento. Foi muito bom estarmos no estúdio juntos, falarmos da vida, de tudo. A música amarra muito bem esse encontro e começou a fazer um sentido muito específico. Eu me conecto muito com a minha mãe através dela. Nos dias de estúdio, no processo todo, eu já ia comentando isso. Para mim ficou uma coisa muito clara, muito pessoal", conta.
Turnê internacional confirmada
Com o novo álbum, os Gilsons também anunciaram uma turnê mundial que inclui países como Portugal, Austrália, Alemanha, Dinamarca e Argentina em mais de 30 datas confirmadas. Para João Gil, o próximo desafio é pensar em como traduzir toda a força do novo álbum para o palco.
"O show tem uma característica de ter uma sonoridade um pouco diferente do que são as gravações, mas ao mesmo tempo também sempre transmitindo a energia. Queremos manter essa 'onda' do show, ainda continuar tendo essa vibe que a gente gosta, mas ao mesmo tempo evoluir", pondera.
Para as novas apresentações, os Gilsons ainda estão em processo de escolher o setlist e a 'cara' da apresentação em termos visuais.
"Tudo está sendo pensado. A gente teve a sorte de fazer o show do 'Pra Gente Acordar' durante três anos, conseguimos rodar o mundo todo com ele. Agora, a gente quer entregar uma coisa nova, estamos justamente nesse processo pra chegar nesse lugar novo e bonito. Estamos super empolgados", garantiu João.
Tracklist
1. Visão
2. Semeia
3. Zumbido
4. Desejo
5. Bem Me Quer feat Narcizinho
6. Minha Flor feat Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso
7. Beijo na Boca
8. Vai Chover feat Arnaldo Antunes
9. Nó na Nuca feat Julia Mestre
10. Se a Vida Pede feat Sona Jobarteh