Kid Abelha anuncia turnê: 'Nossa química sempre foi cada um no seu quadrado', diz Paula Toller

Veja datas e cidades por onde a turnê 'Eu Tive um Sonho' vai passar a partir de junho. Em conversa com o 'Estadão', Paula, George Israel e Bruno Fortunato falam sobre expectativas de reencontrar o público juntos novamente depois de tanto tempo

15 abr 2026 - 14h47

Foi uma longa negociação até que o Kid Abelha aceitasse se reunir novamente, admite Paula Toller. A turnê pontual, batizada de Eu Tive Um Sonho, título de um dos hits da banda, vai colocar, a partir de junho, a vocalista ao lado de seus antigos companheiros de palco, o saxofonista George Israel e o guitarrista Bruno Fortunato, a formação mais longeva. Inicialmente, estão previstas dez apresentações [veja datas e locais mais abaixo], 13 anos depois de um término que, na época, eles definiram como "suave".

"O tempo nos ajudou [a aceitar]", afirma a cantora, sobre o convite - o Estadão tem a informação de que as primeiras tentativas do projeto começaram há pelo menos dois anos. A condução inicial foi feita pelo produtor Liminha, que esteve muito próximo do início do Kid, nos anos 1980, e, agora, vai fazer a direção musical da nova turnê. "Eu fiquei chocada. Nem pensava nessa possibilidade. Fui para casa pensar bastante", admite.

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Dois fatores ajudaram Paula a tomar a decisão pelo reencontro. O que a convenceu foi, sobretudo, o interesse no que ela chama de "garotada" no repertório do Kid. "Vejo nas redes sociais o pessoal tocando Nada Por Mim no violão, ou em teclado, no quarto", diz. A possibilidade do grupo se apresentar em grandes lugares - em São Paulo, o show será no Allianz Parque - também a animou.

Para a cantora, o repertório do grupo é um "patrimônio", e continua sendo regravado. Nos últimos dois anos, João Gomes transformou Nada Por Mim em piseiro. Jão e Duda Beat cantaram Como Eu Quero no Rock in Rio 2024. "Estava vendo na TV e fiquei super emocionada".

Além do público fiel dos anos 1980 e 1990 e dos que se aproximaram no segundo estouro do Kid, nos anos 2000, Paula acredita que a nova geração se conecta com o grupo por meio das mensagens que as letras trazem. "São músicas universais, contemporâneas. Falam de amor de maneira própria, e não sentimental demais. Com toques feministas, mas humanistas também. Isso interessa a eles", afirma.

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Músicas da turnê Eu Tive um Sonho

A turnê Eu Tive um Sonho deve privilegiar os hits - e banda tem muitos, entre eles, Fixação, Pintura Íntima, Grand Hotel, Te Amo Pra Sempre e Nada Sei, que ajudaram a moldar o pop rock brasileiro.

Os ensaios já começaram. Por ora, o roteiro tem cerca de 30 canções. A direção de arte ficará a cargo de Gringo Cardia e a codireção artística será de Paula, com realização da Live Nation e da Posto 9 Entretenimento. "Vai ter um mega palco. Somos pop raiz. E pop é mistura. É alegria e alto-astral", avalia Paula.

Em termos musicais, Paula afirma que a turnê terá um olhar para o "essencial" de cada composição. "Havia músicas de cinco minutos. Ou com três introduções". Outras, serão tocadas com os arranjos originais, porém com tratamento "mais power, com certo banho de loja, para ter maior impacto", explica a cantora. "Estamos curtindo como se estivéssemos criando novamente essas canções. Isso que é bom!". O trio será acompanhado por uma banda de apoio, que inclui bateria, baixo, mais uma guitarra, violões, teclado e sopros.

Os três juntos pelo Kid Abelha

O Kid Abelha marcou o pop rock brasileiro com hits como 'Fixação' e 'Nada Por Mim'
O Kid Abelha marcou o pop rock brasileiro com hits como 'Fixação' e 'Nada Por Mim'
Foto: Pedro Loreto/Divulgação / Estadão

A turnê precisa deixar os três integrantes confortáveis, e todos estão, à sua maneira - a reportagem do Estadão conversou com eles separadamente.

Paula ri quando é perguntada se a química entre eles voltou. "Nossa química sempre foi cada um no seu quadrado. O Bruno é super reservado. O George, o contrário, super solto. Eu faço o meio de campo. Sou disciplinada e focada, gosto de administrar", diz. "É legal tê-los novamente, em um projeto no qual não há necessidade de fazer disco. Gosto de trabalhar com quem tenho história", completa.

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George Israel achava "muito improvável" o reencontro do Kid Abelha, até receber o convite. "Nem contava com isso", afirma o músico, que se manteve em cena em diversos projetos. "O Kid sempre teve muitos assuntos. Andamos muito juntos, sempre olhando para frente. Mas achava que já tínhamos fechado um ciclo".

Para ele, o trio volta ao palco em um momento novo no show business brasileiro, no qual as plataformas digitais dão as cartas no mercado, mas, ao mesmo tempo, as turnês celebrativas como essa encontram cada vez mais adesões - antes deles, os Titãs fizeram um revival bem sucedido em 2023 e o Barão Vermelho, com a volta de Frejat, Dé Palmeira, Maurício Barros e Guto Goffi sobem ao palco a partir de abril.

"Vai aumentar o tamanho do coral [do público]. Vamos experimentar um sentimento inédito. É um show para o futuro, para aqueles que vão assistir pela primeira vez, com os pais. Será uma troca boa", diz Israel.

O Kid Abelha tem forte DNA de Israel. Foi ele que, com a saída de Leoni da banda, logo depois do segundo álbum, Educação Sentimental, de 1985, assumiu a maior parte das composições - sobretudo ao lado de Paula (juntos fizeram mais de 50) e, eventualmente, com Fortunato e outros parceiros. Logo de cara, emplacaram Amanhã é 23, em 1987. "Éramos uma banda independente no sentido do que fazer, mas com uma gravadora por trás. Tínhamos uma vida boa", resume.

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Israel define o auge do sucesso como "uma avalanche" em meio aos loucos anos 1980. "Trabalhávamos bastante. Eu estava na night, mas sempre meio pelo tangente. Meu interesse era pelas pessoas", comenta ele que é coautor de Brasil, com Cazuza e Nilo Romero. Ele brinca com o rótulo de "rock de bermuda", dado pela imprensa paulista a bandas como Kid Abelha e Blitz. "Era uma rixa saudável, desafiadora. Beatles versus Rolling Stones. Depois, isso foi quebrado. Apenas as estéticas eram diferentes. O Kid foi uma banda que chegou bem new wave e foi se abrindo".

O guitarrista Bruno Fortunato, a vocalista Paula Toller, e o saxofonista Jorge Israel, integrantes doKid Abelha, em foto de 1989
Foto: Alexandre Campbell/Estadão / Estadão

Para o guitarrista Bruno Fortunato, parecia que "havia algo no ar" sobre o retorno. Pessoas da vida cotidiana dele, que nunca haviam falado sobre a banda, o abordaram recentemente para lembrar do Kid. "Outro dia, o dono do mercadinho em que eu compro pão - e eu vou lá há anos - falou sobre o Kid", conta, achando engraçado. "Eu tinha a ilusão de que as pessoas nem me reconhecessem". Ele é de longe o mais discreto dos três - e o que se manteve fora dos holofotes desde que o grupo se desfez. Não tem nem redes sociais.

Os solos de guitarra de Fortunato que conquistaram o público - como os contidos em Eu Tive Um Sonho e Nada Tanto Assim - nunca mais foram ouvidos por seu criador. O músico diz que, nesse período todo, deve ter tocado, uma vez ou outra, algum trecho de alguma canção do Kid Abelha. "Foram tantos anos de trabalho que, realmente, não tenho interesse de participar de lives ou aceitar convites desse tipo. Mas não sou um ermitão", avisa.

Fortunato prefere falar sobre música. Afirma que ele, Paula e Israel têm referências bastante distintas. Ele lembra, por exemplo, do guitarrista Lanny Gordin (1951-2023) tocando no show Fatal de Gal Costa (1945-2022), espetáculo que ele, aos 15 anos, viu sete vezes. Ficou amigo de Lanny e via Gal pegar táxi perto de sua casa, em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro. Um ano antes do Fatal, presenciou Lanny, também com Gal, fazer o diabo com a guitarra no show Deixa Sangrar. Neste dia, o músico indiano Ravi Shankar (1920-2012) se apresentaria logo em seguida. Precisou pedir calma para o público em êxtase.

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Tudo isso para chegar no que ele construiu no Kid Abelha, com sua guitarra. "Lanny estava no auge. Colocava elementos da música instrumental com bom gosto absurdo e uma pegada roqueira. Isso me influenciou, além de Beatles, Jimi Hendrix e Rolling Stones", lembra. "Certa vez, um roadie veio me falar sobre a minha 'obra' com o Kid. Que isso! Não tem obra. Não tem essa pompa", afirma.

Fortunato encara tudo de maneira leve. "Para não ficar ansioso, estou adotando aquela ideia de que você não esquece como se anda de bicicleta. Não me cobro tanto para tocar de maneira impecável. Na última turnê [antes do fim], eu estava tocando muito bem. Agora, não sei. Estou aberto para aproveitar o momento", diz, resumindo o que essas turnês festivas proporcionam ao público também.

Datas já a anunciadas da turnê Eu Tive Um Sonho - Kid Abelha

  • 12 de junho, Farmasi Arena, RJ
  • 27 de junho, Allianz Parque, SP
  • 04 de julho, Arena MRV, BH
  • 11 de julho, Casa de Apostas Arena Fonte Nova, Salvador
  • 25 de julho, Arena BRB Mané Garrincha, Brasília
  • 08 de agosto, Classic Hall, Recife
  • 22 de agosto, Centro de Formação Olímpica - CFO, Fortaleza
  • 26 de setembro, Estádio Beira Rio, Porto Alegre
  • 10 de outubro, Pedreira Paulo Leminski, Curitiba
  • 17 de outubro, Arena Opus, Florianópolis
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