Morre Carlos Adão, artista conhecido por pichar seu nome pelos muros de SP

Economista aposentado alegava ter feito mais de 100 mil intervenções na paisagem urbana de cidades brasileiras; ele tinha 71 anos e deixa cinco filhos

8 ago 2026 - 21h35

Carlos Adão, aposentado conhecido por pintar seu nome em diversas ruas da grande São Paulo nas últimas décadas, morreu aos 71 anos de idade neste sábado, 8. Apesar de rechaçar a alcunha de pichador ou grafiteiro, ficou marcado pelas artes feitas em paredes e muros visíveis ao público, muitas vezes sem autorização.

A informação foi confirmada pelo vereador Carlinhos do Leme (MDB), presidente da Câmara de Taboão da Serra, cidade onde o artista viveu seus últimos anos.

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Em nota, destacou que Carlos Adão foi "uma figura que marcou a história da cidade" e teve o nome "espalhado por muros, ruas, estradas e tantos outros lugares, tornando-se uma marca que atravessou gerações e muita gente reconhecia imediatamente por onde passava."

Carlos Adão em foto de 27 de outubro de 2010, quando realizou sua primeira exposição de arte, no espaço Kabul, na Consolação; ele morreu em 8 de agosto de 2026.
Carlos Adão em foto de 27 de outubro de 2010, quando realizou sua primeira exposição de arte, no espaço Kabul, na Consolação; ele morreu em 8 de agosto de 2026.
Foto: Sérgio Neves/Estadão / Estadão

Carlos Alberto Adão nasceu em 18 de outubro de 1954 no bairro do Butantã, em São Paulo. Teria começado com o hábito de pintar seu nome por volta de 1992 - por vezes, acompanhado de complementos como "Carlos Adão é amor" ou "Carlos Adão é penetrante".

"Na verdade, o Carlos Adão que escrevo não sou eu, mas uma marca. Quando digo que Carlos Adão é filosofia, não estou falando de mim mesmo. Falo da marca. E as pessoas tendem a associar várias outras coisas boas a essa marca. Isso é arte pura, é revolução", defendia, em entrevista ao Estadão, em outubro de 2010.

Em 2006, conheceu o grafiteiro Mundano, e outros artistas de rua, que mudaram sua percepção. "Eles gostavam do meu trabalho, me procuraram e me incentivaram a fazer desenhos também, além das frases", relatava.

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Carlos Adão segura quadro com seu nome em foto de 2010. Aposentado, conhecido por pintar seu nome por paredes da grande São Paulo, morreu em 8 de agosto de 2026.
Foto: Sérgio Neves/Estadão / Estadão

Carlos Adão alegava ter feito mais de 100 mil intervenções com seu nome em centenas de cidades brasileiras. "Eu sou igual a matador de aluguel, que conta os assassinatos fazendo marquinha no cabo da arma. Não perco a conta de jeito nenhum", brincava em conversa com o Estadão, em dezembro.

Sua favorita era uma na travessa de pedestres entre a avenida Nove de Julho e a rua Pamplona, no bairro do Jardins. "É uma cena muito urbana, que é a cara da cidade. É uma sintonia de vida diferente, que só tem aqui", dizia.

Pichação feita em 2009 foi considerada a favorita por Carlos Adão, que morreu em 8 de agosto de 2026.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Sua primeira exposição, Carlos Adão É Arte ocorreu entre outubro e novembro de 2010, no espaço Kabul, na Consolação, do qual Mundano era curador.

Ele defendia que o aposentado tinha como grande trunfo a curiosidade das pessoas, pois "sempre escolheu locais mais visíveis, nas esquinas, na altura dos olhos de quem passa."

Em entrevista à Folha de S. Paulo à época, Mundano opinava: "Apesar de tomar o espaço urbano de forma ilegal e buscar 'ibope', ambas características relacionadas à pichação e ao grafite, a intervenção dele não se enquadra em nenhuma delas."

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Carlos Adão explicava a intenção de sua arte: "Quis criar uma televisão primitiva. Pensei no sujeito dentro do ônibus indo trabalhar e vendo meu nome em cada quarteirão, formando uma sequência."

Carlos Adão é grafiteiro ou pichador?

Em entrevista a Danilo Gentili no The Noite, em 2015, o artista respondeu à pergunta: "Você é grafiteiro ou pichador?": "Eu fico 'no meio'. O pichador e o grafiteiro têm uma batida diferente da minha. Ficam presos, no instante, ali. Eu não, eu faço o preto, e depois faço o verde. Duas batidas no mesmo lugar, não posso errar."

Carlos Adão apareceu também em diversas outras produções audiovisuais, como o programa A Liga, da Band, em reportagem de 2014, e no documentário Os 3 Atos de Carlos Adão (2018), de Diego Navarro e Francisco Franco.

Carlos Adão tentou entrar para a política

O artista chegou a disputar cargos em algumas eleições. Em 2006, por exemplo, candidatou-se a deputado federal pelo PT do B. Com o número 7010, chegou a pichar em pontos da cidade "Carlos Adão: A seleção de 70 foi 10". Concorreu pela última vez no pleito de 2022.

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