Todos os anos, centenas de novos romances são publicados no Brasil em uma estimativa conservadora. Dar conta de identificar padrões, continuidades e rupturas em um universo tão vasto seria um esforço hercúleo. Pois é esse o tamanho da empreitada em que Regina Dalcastagnè, professora de literatura brasileira na Universidade de Brasília, se lançou com Uma História da Literatura Brasileira Contemporânea: A Narrativa, publicado pela editora Todavia.
A despeito do que o título do livro sugere, o trabalho de Dalcastagnè é menos uma descrição de lançamentos, tendências e escolas literárias organizada cronologicamente e mais um mosaico de afinidades temáticas dos livros que compõem o panorama dos últimos 50 anos na literatura brasileira. Ou, como ela prefere definir, uma constelação: por mais que as estrelas não estejam verdadeiramente próximas entre si, de um determinado ponto de vista elas parecem formar um conjunto e esse desenho é útil para a produção do conhecimento.
Ao optar por uma abordagem que privilegia percursos com base em assuntos em comum, o livro é capaz de mapear como discussões relevantes foram retratadas pela literatura em um país que se urbanizou, se redemocratizou e passou por mudanças de ordem social, econômica, religiosa e demográfica, mas manteve abertas chagas como o racismo, a misoginia, a homofobia e a xenofobia.
Dessa forma, Dalcastagnè revela como a literatura tratou dos espaços rural e urbano, dos fluxos migratórios e imigratórios, de questões históricas, políticas, familiares e íntimas, sem a obrigação de um relato cronológico ou enciclopédico que poderia ser maçante.
O esforço de aproximação entre obras e personagens permite que a professora compare autorias consagradas como Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, José J. Veiga, João Ubaldo Ribeiro e Lygia Fagundes Telles a nomes contemporâneos e até menos conhecidos, aplainando distâncias muitas vezes criadas por dinâmicas mercadológicas do meio editorial em prol de uma compreensão holística da produção literária nacional.
Com a quantidade de livros mencionados, o aspecto que acaba por ficar em segundo plano é a análise estética. Com exceção de alguns percursos que tratam de representação, há menos discussão de caráter formal do que se poderia esperar de uma obra crítica, até pela impossibilidade de se aprofundar em detalhes estilísticos de tantos títulos.
Escrito em grande parte durante o período de restrições sociais da pandemia de covid-19, o trabalho acabou por fomentar o surgimento de outros espaços de atuação crítica. Dalcastagnè contou com o apoio de pesquisadores, leitores e entusiastas para reunir, pelas redes sociais, indicações de livros sobre temas específicos que pudessem enriquecer o panorama de seu estudo.
A comunidade formada em torno desse esforço coletivo deu origem ao projeto Praça Clóvis, um repositório online colaborativo de resenhas de livros contemporâneos brasileiros. Dessa forma, mesmo com o trabalho concluído e publicado, a empreitada de preservar a memória da literatura nacional segue viva digitalmente.
Leia a seguir trechos da entrevista da professora Regina Dalcastagnè ao Estadão:
Dado ser humanamente impossível ler ou até tomar conhecimento de todos os livros publicados nos últimos 50 anos, como foi a seleção de obras analisadas? Houve algum critério de impacto midiático?
Sempre que discuto o campo literário brasileiro, discuto a importância das grandes editoras. Tem um questionamento no livro do que elas publicam, mas não há dúvida de que elas fazem com que os livros cheguem a mais lugares, mais mãos. Elas têm um trabalho com imprensa, possibilitam traduções, participação em feiras. Esses são livros importantes por serem validados pelas editoras.
A questão é buscar além. Quando faço seleções por temas, não é que eu escape, mas fica mais fácil puxar algumas coisas que ficaram esquecidas. Um bocado do trabalho é também trazer obras que estão sendo esquecidas, mesmo publicadas por autores relevantes, grandes editoras. Eu, que tenho contato diário com jovens de graduação de letras, posso citar nomes como Antonio Callado, João Ubaldo Ribeiro, Osman Lins, Hilda Hilst e as pessoas não sabem quem são. Até por conta da mídia, corremos atrás do que acabou de sair, mas aos poucos vai se perdendo o que foi produzido ali atrás, autores que trabalharam 20, 30, até 60 anos pensando o país, pensando formas de estruturar o texto.
Escrevi durante a pandemia. Tenho muitos livros em casa e na UnB, mas o Facebook, as redes sociais me ajudaram muito. Lá tem muita gente interessada em literatura. Na pandemia, com todo mundo em casa cansado de fazer pão, eu colocava uns pedidos, "o que vocês lembram de literatura que trata desse assunto?", e recebia 50, 80, 300 respostas. E vinham sugestões maravilhosas. O pessoal seguia para ver a lista dos outros. Foi uma estratégia interessante para ir além de lembrar dos nomes na mídia, isso deu uma enriquecida.
Como você imagina que seu livro se relacionará com a eventual formação de um cânone?
Como ele traz muitos autores, mais de 500, não tem a intenção de canonizar alguém. É claro que existem os citados e os que aparecem em vários capítulos. Tem autores muito importantes para pensar essa literatura. Carolina Maria de Jesus aparece muito por ser uma voz nova trazendo informações diferentes de outro grupo, mas também Sérgio Sant'Anna, que traz questões de linguagem, coloca em questão a própria escrita, é um autor muito político. Ou um João Ubaldo Ribeiro, completamente diferente, revisitando a história, aquele tom de deboche, trazendo múltiplas vozes dentro do texto, sem ser sisudo, sem ter uma voz que seja a voz da verdade, sem romantizar a fala do outro. Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector com longa trajetória focando especialmente na questão das mulheres, acho que são coisas importantes de fato.
Não estou tirando essa discussão do nada, eu edito uma revista [Estudos de Literatura Contemporânea Brasileira, da UnB] sobre literatura contemporânea brasileira, muitas questões já estão espalhadas em artigos, capítulos de livros, há um volume extraordinário de discussões. O que me propus a fazer foi reunir isso que fica muito espalhado. Comecei a trabalhar com literatura brasileira com 20 anos de idade, era jornalista na parte de resenhas. Muitas dessas obras eu venho acompanhando no tempo em que elas foram sendo lançadas. Muitas foram retrabalhadas em aulas, escrevendo e fazendo mais de 100 orientações.
Ao fazer seu recorte, o que você aproveitou e o que rejeitou da maneira como foi organizado outro livro importante para se pensar a produção nacional, 'Formação da Literatura Brasileira', de Antonio Candido?
É um livro importante com esse tom mais de história, mas que não trabalha tanto com os temas. O recorte que fiz é muito temático. É o que me pareceu importante nesses textos e que eram discussões importantes para a sociedade brasileira também. É como a metáfora da constelação: ela parece um agrupamento de estrelas, mas elas não estão realmente próximas, depende do meu ponto de vista. O olhar humano faz escolhas. Meu livro tentou ser isso, pegar um conjunto muito grande, fazer um recorte, assumidamente o meu recorte, mas são escolhas pessoais, não tem como fugir disso.
Outros autores poderiam fazer um recorte muito mais historiográfico, sociológico, psicanalítico. São áreas que não trabalho. O pé na sociologia tem muito a ver com a forma como Antonio Candido trabalha. Meus recortes são muito diferentes porque sou uma mulher escrevendo hoje e não nos anos 1950. Nossa constelação vai mudando também. A ideia da constelação é que, mesmo sendo arbitrária, imaginária, ela é útil para a agricultura, a navegação, o calendário. Espero que essa constelação seja útil para outras pessoas em seus estudos.
Você analisa com grande profundidade os temas mais tratados pela literatura brasileira contemporânea, mas não se detém sobre os estilos dos autores. Por quê?
Deixei a parte do estilo mais para alguns capítulos como o da representação. Falo muito nesse livro como professora. Eu insisto que a forma dá conteúdo e o conteúdo dá uma forma. Quando falo que um livro é mais rápido ou com diálogos, não estou indo para minúcias. Talvez não tenha tido interesse em detalhar isso indo para a teoria literária, minha ideia era muito mais fazer um livro que desse conta dessa história. Quando a gente fala só de um livro, é possível falar das questões da linguagem, se deter em mais detalhes. A pretensão desse trabalho foi outra, ser panorâmico. Espero que seja usado em sala de aula, pois é informativo, os professores podem optar por usar um capítulo ou outro, tem o objetivo de atrair jovens para obras esquecidas. Acho útil essa metodologia de aproximação para sala de aula, prefiro do que ir com um único livro. A ideia do livro é ser um grande convite para ler literatura brasileira.
Além de identificar temas comuns na literatura, seu livro identifica lacunas, temas pouco trabalhados por escritores. Como você enxerga os livros que tratam das exceções?
Em um conjunto tão grande, é representativo. Você percebe algumas ausências, como os temas do carnaval e do futebol, que aparecem, mas muito menos do que a relevância que isso tem para a sociedade brasileira. Quem chama muito a atenção para a ausência de carnaval, praia e futebol é o Sérgio Sant'Anna, que diz que, num calor de 40 graus, o intelectual brasileiro entra no teatro para ver uma peça russa em que as pessoas vestem capote.
O seu livro caracteriza a literatura contemporânea brasileira como 'uma literatura majoritariamente produzida por autores urbanos de classe média, dirigida a leitores urbanos de classe média'. Os recentes movimentos identitários, que invalidam a literatura sem lugar de fala, tendem a tornar ainda mais homogênea a literatura brasileira?
Acho que sim. Como estamos com tudo tão acelerado, esquecemos do passado, da história, do que a gente viveu. Estamos vivendo tempos tão acelerados que alguns desses problemas, talvez em 5 ou 10 anos, sejam suplantados. No momento em que eu fecho o texto, esses grupos identitários querem controlar cada vez mais as narrativas e acho isso arriscado. Por mais que ache importante a literatura que fala sobre o país, sobre a realidade, não acho que isso possa entrar numa camisa de força. Negros só podem falar sobre negros, se um branco falar ele está invadindo o espaço do outro. Negros, quando escrevem, devem escrever sobre racismo. Por que um negro não pode escrever ficção especulativa? Quando uma pessoa negra vai fazer uma tese, tem que ser sobre autoria negra, por que não pode falar sobre Shakespeare?
Por outro lado, não adianta vir com a discussão de valorizar a forma, a linguagem, de que tratar de questão social é má literatura. Devemos ter uma literatura plural que a gente possa ler a partir de qualquer lugar, experiências diversas construídas de formas diversas também. Vejo até uma certa sisudez que a gente tem. Claro que são assuntos sérios, mas também se pode tratar assuntos sérios com riso e deboche. Sinto que nesse momento os autores estão meio presos, porque há um discurso pedindo esse tipo de obra. Quanto mais variada for a literatura brasileira, melhor.
Uma História da Literatura Brasileira Contemporânea: A Narrativa
- Autora: Regina Dalcastagné
- Editora: Todavia (608 págs.; R$ 189,90; R$ 79,90 o e-book)