*Atenção: este texto aborda temas delicados.
Se a adaptação televisiva de The Boys chocou o público com suas cenas de violência e de cunho sexual, os quadrinhos lançados pela Dynamite desde 2006 podem ser definidos como uma grande coletânea de páginas perturbadoras. Escrita por Garth Ennis e com arte de Darick Robertson, as HQs são bem mais explícitas que sua contraparte televisiva, com alguns momentos infames que jamais poderiam ser adaptados de forma exata em live-action.
Ainda que mantenha a premissa básica de um grupo de humanos prejudicados pela Vought e seus "super-heróis", a série de Eric Kripke tomou a decisão de abrandar um pouco os quadros mais problemáticos do gibi assinado por Ennis e Robertson, cuja crítica às histórias de heróis testou todos os limites da mídia.
Diferenças básicas
Ao contrário da série do Prime Video, o grupo liderado por Billy Bruto nas HQs é, de fato, financiado pelo governo dos Estados Unidos, e não apenas um disfarce do justiceiro para recrutar Hughie e conseguir informações. Agentes da CIA, os Boys usam o Composto V, que serve para dar poderes aos "supers" quando são apenas recém-nascidos, para adquirir poderes de forma temporária, aumentando suas chances no confronto contra os vilões.
Vivido por Karl Urban na série, o Bruto dos quadrinhos não tem o mesmo apego por seus colegas de equipe, com sua vingança contra o Capitão Pátria controlando cada uma de ações, que se tornam cada vez mais inescrupulosas à medida que a HQ avança.
Os "supers" dos gibis também são bem piores que os da televisão. Seus atos violentos e vidas indiscretas são regados a drogas, crimes sexuais e orgias constantes, que são mostrados em cada detalhe na arte de Robertson.
Ennis, aclamado por trabalhos em O Justiceiro e Hitman, destila toda a sua desilusão com o mercado de super-heróis na revista, usando o chamado "shock value" ("valor de choque", em português) para tecer críticas ao corporativismo e o domínio das grandes empresas sobre a cultura do mundo ocidental.
Assim, muitos momentos das HQs foram deixados de fora da adaptação, seja para que a série pudesse ser produzida ou apenas por bom senso. A seguir, você confere 10 momentos perturbadores dos gibis que não foram levados ao live-action:
Origem do apelido de Leitinho
Colega e segundo no comando de Bruto, Leitinho ("Mother's Milk", ou "Leite Materno", no original) tem seu apelido explicado em uma das edições de The Boys. Diferentemente do resto do grupo, ele não consegue poderes através do Composto V, e sim do leite produzido por sua mãe. Após trabalhar por anos na Vought, a mulher teve a fórmula acidentalmente irradiada em seu corpo. Como consequência, seu segundo filho nasceu frágil e doente, mas conseguia forças sempre que era amamentado.
O leite infectado por Composto V lhe dava poderes, mas deixou seu corpo imune à fórmula original. Por isso, Leitinho precisa sempre andar com uma garrafa de leite de sua mãe para conseguir poderes antes de enfrentar algum "super". Quando esse estoque acaba, ele precisa ir direto à fonte, sendo amamentado como um bebê, por mais que isso o perturbe.
O grande choque da história, no entanto, acontece quando Hughie vai à casa de Leitinho e ouve a mãe do amigo chamando por ele no porão. O rapaz desce as escadas para investigar e encontra a mulher, que, deformada pela exposição ao Composto V, o amamenta à força, em uma das páginas mais perturbadoras da HQ.
Em entrevistas recentes, Laz Alonso, que vive Leitinho na série televisiva, disse ter pedido a Kripke para explicar o apelido de seu personagem na quinta temporada, dando a entender que sua vontade pode ter sido realizada. Considerando as diferenças e os limites traçados pela série, no entanto, é de se imaginar que a adaptação deste momento tomará licenças criativas nesta explicação.
A família de Leitinho
Falando em Leitinho, sua vida familiar é ainda pior do que na série. Se a esposa e a filha ainda mantêm contato e respeito por ele após as missões com os Boys na TV, as HQs trazem uma dinâmica desumana de vingança mútua entre os ex-cônjuges.
O ápice dessa inimizade acontece quando Leitinho descobre que a ex, Monique, forçou a filha a atuar ao seu lado em um filme adulto como forma de provocá-lo. Acontece que a garota tem apenas 12 anos, mas o Composto V que infectou o DNA da família a faz parecer mais velha, com Monique enganando os produtores dizendo que ela era maior de idade.
Após descobrir os atos de Monique, Bruto decide se vingar pessoalmente da ex do amigo, arrastando-a pelos cabelos, antes de agredi-la.
Jack de Júpiter
Sátira do Caçador de Marte da DC Comics, Jack de Júpiter foi um dos membros dos Sete capaz de ficar indestrutível ao falar a palavra "Carpo". Apesar de ser um dos membros mais controlados do supergrupo, ele era viciado em sexo e, quando uma prostituta com quem ele havia se relacionado é morta, ele acaba cruzando o caminho dos Boys mesmo não sendo o culpado.
Quando suas preferências sexuais são expostas pelos "mocinhos" na mídia através de fotos e vídeos, Jack decide se vingar dos Boys, especialmente Bruto, e mata Terror, o cachorro do líder. Billy, é claro, decide se vingar, seguindo o "super" a um bordel e matando-o com várias facadas, enquanto segura seu pescoço para impedi-lo de falar sua palavra mágica.
Sim, The Boys já teve muitas cenas chocantes ao longo dos últimos sete anos, mas qualquer produtor e roteirista de Hollywood sabe que matar um pet é um limite que o público geral rejeita veementemente, embora aceite que pessoas sejam brutalizadas em outras cenas.
11 de setembro em The Boys
Quando as HQs de The Boys estavam sendo publicadas, o atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 ainda estava fresco na cabeça do público. Ennis e Roberts, no entanto, viram no ataque terrorista uma trama perfeita para mostrar as ações desastrosas dos Sete e da Vought em seu mundo fictício.
Aqui, o exército norte-americano consegue interceptar dois dos aviões desviados para o ataque, com os Sete indo atrás do terceiro. O grupo, no entanto, faz tudo errado, causando um massacre na aeronave antes mesmo de ela atingir seu destino, com vários membros da equipe morrendo no processo.
Assim como a versão da série, o Capitão Pátria do gibi percebe que não tem mais como salvar os civis e abandona o avião, que cai, não nas Torres Gêmeas, mas na Ponte do Brooklyn em plena hora do rush, aumentando ainda mais o número de mortos do atentado real.
Apesar da violência e do humor tradicional da HQ, esta edição em particular de The Boys tem uma reflexão tocante sobre a vida dos sobreviventes dos atentados de 2001, com Ennis focando no trauma que se seguiu ao ataque e à forma como o governo dos EUA usou a tragédia como motivação para a invasão ao Iraque nos anos 2000.
O destino de Maeve
Assim como na série, a Rainha Maeve, sátira da Mulher-Maravilha, começou sua carreira como super-heroína de forma idealista. Seu tempo com a Vought e os Sete, no entanto, a deixaram desiludida, com ela eventualmente se tornando informante para Bruto e plantando escutas por todo o quartel-general dos "supers".
Após a chegada de Luz-Estrela, Maeve até recupera um pouco de seu antigo senso de justiça, aceitando trabalhar para impedir o golpe de estado do Capitão Pátria.
Quando o grande vilão confronta ela e Luz-Estrela, Maeve joga a amiga pela janela para salvá-la e decide atacar o Capitão Pátria sozinha, mesmo sabendo que não tem chances de sobreviver.
Sua morte não é mostrada na íntegra, mas o resultado é perturbador: após derrotar Maeve, o Capitão Pátria a decapita com as próprias mãos e joga sua cabeça pela janela para que Luz-Estrela saiba sobre a morte da amiga antes mesmo de conseguir chegar ao chão.
Os G-Men
Se os Sete já são horripilantes, os G-Men, versão dos X-Men da Marvel em The Boys, são ainda piores. Criados e liderados por John Godolkin, o grupo é formado por adolescentes adotados e treinados pelo magnata, tal qual Charles Xavier acolheu e educou Ciclope e companhia.
A diferença é que Godolkin é infinitamente mais cruel: em vez de recrutar seus aprendizes, ele os sequestra, atraindo-os com brinquedos e doces. Uma vez que os prende, ele usa de abusos sexuais e violência como técnica de lavagem cerebral, transformando-os em seguidores fieis e traumatizados.
Não bastasse, Godolkin os cria sob um dogma racista e homofóbico, criando vários sub-grupos de G-Men que acabam descontando seus traumas em minorias de forma extremamente violenta.
A morte do grupo também não é nada bonita de se ver, com a Vought, vendo que Godolkin não serve mais aos interesses de seus acionistas, usando toda a sua força paramilitar para eliminá-los de forma sangrenta, despedaçando-os com balas de alto calibre e incendiando-os no jardim da mansão em que viviam.
Tudo sobre Black Noir
Favorito dos fãs na série, o Black Noir tem uma história completamente diferente nos quadrinhos. Se Kripke e o Prime Video o transformaram em uma figura trágica na terceira temporada, Ennis e Robertson fizeram dele o grande gatilho para toda a história de The Boys.
Na versão original, Noir é, na realidade, um clone quase perfeito do Capitão Pátria, criado pela Vought como uma arma para combater seu principal "herói" caso ele se vire contra a empresa.
Acontece que, passar anos perto do Capitão sem permissão para atacá-lo o deixou louco, com Noir decidindo incriminar o colega de Sete para, enfim, ter aval para destruí-lo.
Disfarçado como Capitão Pátria, Noir abusa de Becky, esposa de Bruto, massacra milhares de inocentes e até canibaliza bebês, registrando tudo em fotos e vídeos para que o próprio Pátria acredite que está enlouquecendo.
Além de influenciar o Capitão Pátria a tomar medidas extremas em sua busca por mais poder, Noir também colocou Bruto em rota de colisão com a Vought, causando todos os eventos dos quadrinhos, culminando em um confronto na casa branca em que ele e Capitão Pátria acabam morrendo.
Becca e Ryan
O destino de Becca (Shantel VanSanten) já é trágico o bastante na série, sendo estuprada por Capitão Pátria (Antony Starr) e morrendo pelas mãos do próprio filho, Ryan (Cameron Crovetti) logo após ser libertada de anos de cativeiro por parte da Vought. Nas HQs, a história piora — e muito.
Após ser atacada por Noir (disfarçado como Capitão Pátria), Becky (seu nome nos quadrinhos) entra em profunda depressão, se afastando de Bruto. Eventualmente, ele acorda na cama dos dois de madrugada e encontra seu corpo perfurado e o quarto cheio de sangue, enquanto um bebê com os olhos brilhando e o cordão umbilical ainda atrelado à mãe flutua.
Assustado, Bruto ataca o bebê e o mata. É esse evento que desencadeia sua jornada de vingança contra a Vought e o Capitão Pátria e o deixa cada vez mais impiedoso.
O verdadeiro Soldier Boy
"Super-herói" original da Vought após os eventos da Segunda Guerra Mundial na série, o Soldier Boy das HQs não tem nada a ver com a versão de Jensen Ackles. Em vez de respeitável e poderoso soldado, o Soldier Boy do gibi é um rapaz medroso e puxa-saco, que sonha em deixar seu grupo, o Revanche, para se juntar aos Sete. Para isso, ele se submete a seguidas humilhações do Capitão Pátria, incluindo favores sexuais sob a promessa de uma promoção.
Confrontado por Bruto, que acaba com o restante do Revanche, Soldier Boy começa a tremer de medo do "mocinho", inclusive urinando nas calças ao perceber que será sua próxima vítima. Após uma vida sendo subjugado pela Vought e outros "supers", ele morre de forma dolorosa nas mãos dos Boys, que o torturaram e interrogaram antes de descartar seu corpo.
Os Boys atacam 'Shazam'
Lançada em 2019 como parte da divulgação da série, The Boys: Querida Becky serve como epílogo da HQ original e traz à tona ainda mais eventos violentos que cercaram a vida de Bruto e companhia. Um destes eventos é quando eles atacam um "super" de dez anos, criado como sátira de Billy Batson/Shazam.
Assim como a versão original da DC, o garoto é capaz de se transformar num adulto superpoderoso ao proferir uma palavra mágica, mas, em vez de salvar as pessoas, ele usa essa transformação para cometer crimes sexuais. Eventualmente, ele é encurralado em sua forma infantil pelos Boys em um banheiro, com os "mocinhos" cortando sua língua e espancando-o, antes de deixá-lo ensanguentado para ser encontrado pela Vought.
HQ e série
No Brasil, as HQs de The Boys são publicadas pela Devir e podem ser encontradas em diversas lojas do setor.
A adaptação televisiva de The Boys atualmente está em sua quinta e última temporada, com novos episódios sendo disponibilizados toda quarta-feira. Assim como a série original, os derivados Gen-V e The Boys: Diabolical estão disponíveis para streaming no Prime Video.