Em março de 2026, Chase Infiniti subiu ao palco do Dolby Theatre em Los Angeles com a equipe de Uma Batalha Após a Outra, que havia acabado de receber o Oscar de Melhor Filme. O longa foi sua estreia no cinema. Tinha 25 anos, menos de dois anos de carreira e já dividia a tela com Leonardo DiCaprio. Poucos meses depois, essa mesma jovem no topo do mundo estava em Toronto interpretando o seu oposto perfeito, Agnes MacKenzie. Uma garota que nunca andou sozinha numa rua, que nunca escolheu o que comer, e que nem sabe o seu verdadeiro nome.
Agnes é o centro de Os Testamentos — Das Filhas de Gilead, série que estreou no Disney+ em abril e chega ao fim nesta quarta-feira, 27, com o episódio final. É a continuação de O Conto da Aia, adaptação da obra de Margaret Atwood que se tornou um fenômeno cultural a partir de 2017 e encerrou sua sexta e última temporada em maio de 2025 — mas com menos fanfarra do que em seus anos de ouro.
O título é baseado no romance homônimo que Atwood publicou em 2019, mais de três décadas após o original. Os Testamentos se passa quatro anos depois dos eventos finais da franquia e acompanha as meninas criadas dentro do regime de teocracia cristã totalitária e militarizada, que não conhecem outro mundo e que estão prestes a ser entregues como esposas a Comandantes poderosos.
Para o espectador de O Conto da Aia, Agnes é um rosto familiar: é Hannah, a filha mais velha de June Osborne (Elisabeth Moss), sequestrada por Gilead quando ainda era criança. Agora adolescente, ela frequenta a escola de elite comandada pela Tia Lydia (Ann Dowd, retornando ao papel que lhe rendeu o Emmy). Não sabe quem é sua mãe biológica. Não sabe que June lidera a resistência no Canadá. E não sabe que a nova colega Daisy (Lucy Halliday), uma canadense recém-chegada, é na verdade uma espiã infiltrada pelo Mayday, o movimento clandestino que opera contra o regime de Gilead de dentro e de fora de suas fronteiras.
Para Chase Infiniti, a entrada nesse universo foi tranquila. "Consegui esse trabalho cerca de cinco meses depois de terminar as filmagens de Uma Batalha Após a Outra. Não sei se minha vida tinha mudado muito entre os dois projetos, porque eu ainda não estava no olho público da mesma forma que estou agora", disse ela em entrevista ao Estadão.
Há nela algo que o sucesso ainda não apagou. Uma espécie de espanto genuíno diante de tudo que está acontecendo. É exatamente essa qualidade que o showrunner Bruce Miller buscava para Agnes. Ele a escolheu após vê-la em Acima de Qualquer Suspeita, minissérie da Apple TV estrelada por Jake Gyllenhaal. "Era o mesmo com Elisabeth Moss: não é volatilidade, é imprevisibilidade", disse ele à revista The Hollywood Reporter. A própria Elisabeth, produtora executiva da nova série, também aprovou a escolha.
Uma Gilead de cores pastel, mas de horrores ainda reais
Apesar da inspiração e similaridades, Os Testamentos não é como O Conto da Aia. A série original afogava o espectador num mundo de vermelho e cinza, narrado pelos olhos de uma mulher adulta tentando sobreviver. A nova aposta em uniformes lilases, corredores claros e tardes de chá. Segundo Bruce Miller, o tom é o de Meninas Malvadas crescendo em Gilead.
A estética mais leve, porém, não suaviza o conteúdo. O derivado não desvia de temas como abuso sexual de menores, casamentos forçados na adolescência e controle absoluto sobre o corpo feminino. O penúltimo episódio, exibido na semana passada, gerou enorme repercussão com uma cena de violência extrema praticada por uma das jovens personagens.
É esse peso que Chase Infiniti diz ter encarado de forma inspiradora. "Me sinto muito apoiada por todo o elenco e pela equipe. Acho que fui muito inspirada pela força que essas garotas têm, de uma forma diferente daquela em que Willa me inspirou", disse. "Essas personagens não têm voz nem direitos, e você vê como elas enfrentam os poderes superiores. Isso é algo que achei muito inspirador, desde o primeiro roteiro que li."
Chase tinha apenas 17 anos quando O Conto da Aia estreou. Na época, achou pesado demais. Hoje, no entanto, não consegue mais separar a ficção do noticiário. "Quando Margaret Atwood criou esse mundo, os temas presentes naquela história e em Os Testamentos infelizmente ainda acontecem no mundo inteiro", afirmou ela. "Acho essa a parte mais preocupante. O fato de isso acontecer há tanto tempo na história, o fato de ela ter se baseado em fatos históricos com os quais não aprendemos e para os quais ainda não abrimos os olhos."
Essa consciência estava presente no set todos os dias. "Se essa série puder chocar as pessoas, fazê-las repensar suas opiniões e posturas, e encorajá-las a encontrar sua voz e lutar contra os poderes superiores de qualquer forma possível, essa seria a maior mensagem que poderíamos deixar. Foi algo em que pensamos muito no set."
Com 45 milhões de horas assistidas pelo mundo e renovação confirmada ainda antes do final do primeiro ano, Os Testamentos já garantiu seu lugar como uma das grandes apostas do Hulu, plataforma que exibe a produção fora do Brasil, para os próximos anos.
Quando estreia a segunda temporada de 'Os Testamentos'
A segunda temporada não tem data prevista, mas o elenco principal deve retornar, incluindo Ann Dowd, cuja Tia Lydia ganhou uma dimensão inédita nesta temporada, revelando sua história antes de Gilead e sua relação ambígua com o poder que ajudou a construir.
Para Chase Infiniti, o desejo para Agnes na próxima temporada é claro e pessoal. "A coisa que mais gostaria que acontecesse é que Agnes descobrisse a verdade sobre June. Isso, acima de tudo, é o que quero ver".