'Um Triste e Belo Mundo' fala, com poesia, sobre amor e família em tempos de guerra

Longa-metragem libanês coloca um sopro de esperança, mesmo que nem sempre certa, em tempos de falência social

6 jul 2026 - 12h11

Como o amor pode florescer, e até salvar a vida de duas pessoas, num país em guerra? É essa a pergunta que parece perseguir o poético e inesperado Um Triste e Belo Mundo, longa-metragem libanês em cartaz nos cinemas. Dirigido por Cyril Aris, o filme acompanha um casal unido pelo destino: os dois nascem com um minuto de diferença, se apaixonam ainda crianças, se reencontram na vida adulta e seguem unidos pelo amor mesmo nos períodos em que se afastam. Parecem feitos um para o outro.

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O problema é que a guerra insiste em entrar pelas frestas desse amor. Assim como em Conclave, em que a realidade insiste em bater à porta da decisão de um novo papa, Um Triste e Belo Mundo também impõe a seus personagens uma realidade que tentam ignorar: as mortes, a violência, a insegurança, o bombardeio israelense. Para os dois, o Líbano precisa ser apenas o lar da família, nunca o campo de uma guerra. Ainda assim, as dores do conflito aparecem aqui e ali, mesmo quando evitadas.

Já na infância, os pais de Nino (Hasan Akil) morrem numa explosão, enquanto o pai de Yasmina (Mounia Akl) foge para a Alemanha. Isso, somado a outras decisões familiares, afasta os dois. Na vida adulta, novas dúvidas surgem a partir da instabilidade que a guerra impõe — da dificuldade de manter o restaurante que Nino comanda à dificuldade de levar o avô ao hospital, até questões mais delicadas, como a possibilidade de fugir como refugiados ou de ter filhos.

'Um Triste e Belo Mundo' é sobre o amor atravessado pela guerra
'Um Triste e Belo Mundo' é sobre o amor atravessado pela guerra
Foto: Pandora Filmes/Divulgação / Estadão

Cyril Aris, também responsável pelo belíssimo À Beira do Vulcão, não se interessa em mostrar a guerra, salvo em flashbacks esporádicos. Seu interesse está em entender o amor e a família em tempos de conflito — que não chegam a ser salvação, aliás, mas sim vítimas de um sistema que não se sustenta quando todos estão morrendo e se matando. Aris vai fundo nessa questão, mostrando que a violência da guerra vai além do que aparece no noticiário.

Aliás, lego engano pensar que Aris está simplesmente falando que o amor é a resposta, a solução, a salvação. Pelo contrário. O cineasta questiona, inclusive, se ainda existe amor.

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Aos poucos

Para isso funcionar, o cineasta libanês trabalha com cuidado os dois protagonistas. Nino e Yasmina são construídos pouco a pouco, com calma e atenção. Ele surge inicialmente como um homem desatento, atrapalhado e pouco comprometido — e de fato é tudo isso, mas não só isso. Ela, por sua vez, parece ser daquelas pessoas que vivem para o trabalho, incapazes de ir além do metro quadrado do escritório. Mas já no primeiro flashback da infância dos dois essa primeira impressão se desfaz. Eles podem até ser pessoas diferentes hoje, mas o sentimento entre eles já existiu — e talvez ainda exista.

Fotografia, cenário, elenco de apoio, design de produção: tudo amplifica as emoções num filme poético, que sabe costurar temporalidades, estilos e narrativas. As cartas que Yasmina lê em off — endereçadas ao tempo, à vida, a Deus, ao passado — aprofundam os personagens, enquanto os acontecimentos realistas (e até de realismo mágico) do cotidiano mantêm o longa com os pés no chão. Aris dosa bem, às vezes até bem demais, essa mistura de sentimentos, emoções e linguagens, quase no tom de um filme indie americano um tanto comportado e que contrasta bem com a realidade libanesa. É caos e delicadeza; barulho e silêncio; o amor entre os dois e a casa cheia.

Para o bem e para o mal, 'Um Triste e Belo Mundo' tem cara de filme indie americano
Foto: Pandora Filmes/Divulgação / Estadão

Por mais que Um Triste e Belo Mundo fale sobre o Líbano, o título não é gratuito. Fala de um mundo em que as pessoas duvidam se devem ter filhos, dadas as condições cada vez mais adversas da sociedade; fala de amor em tempos de conflito — seja ele bélico, político, social ou econômico; fala, enfim, da importância do amor, da rede de apoio e das boas relações. Um filme que merece ser visto, sentido e, sobretudo, refletido.

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