Em Kill Bill: The Whole Bloody Affair, Quentin Tarantino soma seus dois Kill Bill (2003) a um "capítulo perdido" agora feito em animação e rearranja algumas partes de modo a intensificar o suspense. Resultado: um épico de vingança de 4 horas e 13 minutos de lutas marciais, alternadas por algumas longas conversas - estas com diálogos afiados como as espadas Hattori Hanzo usadas na saga.
O díptico tornou-se um filme único, longo, curvilíneo e dotado de muita fluidez. Embalado pela riqueza das imagens e pela intensidade da música (bastante variada), quem o assiste não tem outro jeito senão deixar-se imergir no espetáculo cinematográfico, um show banhado em sangue quase do princípio ao fim.
Algumas pessoas podem se admirar de como Tarantino se mostra capaz de articular tanto cinema em torno de material cognitivo tão ralo. De fato, traduzido em sinopse linear, o filme parece coisa simples demais: a Noiva (Uma Thurman), grávida, é baleada no ensaio de seu casamento. Passa quatro anos em coma. Quando desperta, a Noiva revive para se vingar de seu inimigo, Bill (David Carradine), mas também dos seus asseclas - Vernita Green (Vivica A Fox), O Ren Ishii (Lucy Liu), Elle Driver (Daryl Hannah) e Budd (Michael Madsen).
História simples? Também seria simples a do Conde de Monte Cristo, talvez a mais popular das histórias de vingança da literatura de folhetim. Preso injustamente em uma masmorra, Edmond Dantès foge para se vingar de quem estragou sua vida mandando-o para a prisão às vésperas do casamento. Histórias despojadas, mas que continuam a encantar até hoje (uma versão recente do Conde de Monte Cristo, interpretado por Pierre Niney, fez grande sucesso na França).
Mas comparada à de Monte Cristo, a história da vingança da Noiva parece até mesmo simplória. Não se mete em nuances e surpresas romanescas de roteiro como a trama francesa criada por Alexandre Dumas.
Cineasta cinéfilo, Tarantino busca a ação muito mais pela imagem e movimento que pela engenharia do enredo. Nutre-se em outra parte, num extrato de influências de que se compõe a base desse filme - o western spaghetti de Sérgio Leone, filmes asiáticos de artes marciais, o grande cinema noir americano dos anos 1940, o cinema de gênero, exploitation, e assim por diante. Cinema fabricado de cinema, na cozinha estética pós-moderna na qual é temperada a receita cinematográfica de Tarantino.
Por que um novo 'Kill Bill'?
Mas por que Kill Bill foi feito em duas partes e, agora, mais de duas décadas depois, juntado em uma, e com alguns adicionais?
Ora, consta que, desde o início, Tarantino pensava a história em um único e longo filme. Chegou a apresentá-lo nesse formato no Festival de Cannes de 2004, e em mais algumas ocasiões pontuais. Mas nunca foi lançado assim no cinema e nem em mídias domésticas como o DVD.
A imposição de dividir a história em duas partes veio da Miramax, do então poderoso produtor Harvey Weinstein. Mas Tarantino sempre sonhou em lançá-la com o formato original e agora chegou a hora.
O sonho do director's cut, a "versão do diretor", é tão comum entre cineastas quanto difícil de realizar. A história do cinema é cheia dessas aspirações autorais frustradas, mas que às vezes se tornam possíveis em etapa posterior da carreira. Envolve mesmo alguns filmes considerados clássicos em seu formato comercial - e portanto, "imexíveis".
Francis Ford Coppola estendeu seu Apocalipse Now e lançou uma versão maior - com um episódio até então inédito - chamada de Apocalypse Now Redux. O mesmo Coppola mexeu na terceira (e menos estimada) parte de O Poderoso Chefão e mudou até mesmo seu final.
Filmes como Lola Montès, de Max Ophuls, e A Marca da Maldade, de Orson Welles, foram desfigurados pelos produtores, mas depois reconstituídos no que seria sua versão original - e ideal - pensada por seus autores.
Já Soberba (The Magnificent Ambersons), também de Welles, não teve a mesma sorte. Retalhado e mutilado pelos produtores enquanto Welles estava no Brasil tentando realizar seu inacabado It 's All True (É Tudo Verdade), permanece em sua forma "oficial". Welles jamais pôde recuperá-lo. Dizia que Soberba deveria ter sido seu melhor filme, e não aquele que o colocou na história do cinema, Cidadão Kane. Dizem que em algum lugar existiria uma cópia integral de Soberba. Até mesmo o Brasil já foi apontado como destino desse tesouro perdido. Mas até agora nada se pôde comprovar.
Tarantino tinha, portanto, todo o direito de mexer em seu filme e deixá-lo como foi pensado na origem.
O que mudou?
Cinéfilos fundamentalistas, que querem saber quais modificações fizeram Kill Bill voltar ao seu formato primeiro, devem assistir aos dois primeiros longas do díptico com caderneta de anotações na mão e confrontá-los com o atual.
Para quem não for tão detalhista, basta saber que há mudanças em algumas sequências pontuais e a introdução de um anime com cena adicional. A famosa luta da House of Blue Leaves, que era parcialmente em preto-e-branco, agora é em cores vívidas, e também ganha cenas descartadas na primeira montagem. O destino do bebê de Beatrix é postergado para aumentar o clima de suspense, etc.
Mais longo, e com mais fluência
Numa percepção geral, senti que o conjunto ganha em fluência em relação à versão anterior. De fato, foi pensado como um filme só e a unidade restabelecida lhe fez bem. É uma questão de forma. Ficou longo? Sim. Mas ninguém deve se assustar com a duração. Passa rápido. E há um intervalo para que o público possa se recuperar das duas primeiras horas iniciais para enfrentar as finais.
A violência poética de Tarantino
O que não muda é a centralidade da violência na poética tarantinesca. E, desta vez, protagonizada por uma mulher, embora ela também seja vítima de brutalidade equivalente. Em meio a tanta crueza, surgem momentos de ternura, embora raros, em que o talento de Uma Thurman torna críveis essas mudanças abruptas. No tempo atual, em que tudo é tomado de forma literal, talvez essa violência feminina provoque algum tipo de discussão ausente 22 anos atrás quando do lançamento de Kill Bill 1 e 2. Veremos.
Tarantino sempre se insurgiu contra críticos que apontavam excesso de violência em seus filmes. "Scorsese é violento em seus trabalhos e ninguém se queixa", diz. De fato, mas, em seus filmes, Tarantino não trabalha com o complexo culpa-catolicismo que dá profundidade a Scorsese. Sua violência é mais gráfica, lúdica, por assim dizer, um material de trabalho, uma tintura sobre a tela, uma camada a mais.
De qualquer forma, se expõe a críticas de estetização, naturalização, brincadeira com coisa séria, etc. Enfim, quem não quer se expor a críticas deve ficar em casa sem fazer nada. E mesmo assim…
Na expectativa de polêmicas hipotéticas, a estreia de Todo o Sangue Derramado tem sido um sucesso. O agregador de avaliações Rotten Tomatoes registra 100% de críticas positivas. No consenso do site, "Mesclando os dois volumes Kill Bill em um todo tão perfeito quanto a lâmina de uma espada Hattori Hanzo, este Bloody Affair finalmente mostra toda a grandeza da visão gonzo de Quentin Tarantino". Há já quem diga que esta seria a "obra-prima" do autor.
Pode ser uma reavaliação, mas há muito Tarantino deixou de ser considerado um exemplar um tanto folclórico do pós-modernismo cinematográfico. Se de fato apresenta características que levam a essa direção, como a cinefilia, os excessos de citações, a mescla de humor e terror, etc, poucos se negam a contestar a "autoria" de sua obra.
Nem mesmo a universidade tem negado a Tarantino esse status da autoralidade. Aqui mesmo no Brasil se publicam obras a respeito desse cineasta que teve sua principal fonte de educação cinematográfica na locadora de vídeos na qual trabalhou quando jovem.
Um desses livros é O Cinema de Quentin Tarantino (Papirus, 2010), de Mauro Baptista Vedia. Armado de arsenal teórico que vai da teoria da política dos autores à classificação do cinema de gênero norte-americano, Vedia produz uma obra capaz de esclarecer e enriquecer a leitura dos filmes de Tarantino. Sugere que a essência do seu cinema não deve ser buscada nos temas que aborda, mas na sofisticada mise-en-scène que põe em prática.
Tomando um conjunto que vai do do primeiro longa, Cães de Aluguel, a Pulp Fiction e Bastardos Inglórios, passando por Jackie Brown, Kill Bill 1 E 2, o autor destaca formas de representação que dominam essa cinematografia inventiva, como o realismo do cotidiano, a postura chocante e agressiva, o jogo, o gosto pela paródia e pela imitação crítica (à maneira do primeiro Godard, o de Acossado). Mas é também muito pessoal a maneira como Tarantino contamina explicitamente seu cinema com a indústria do entretenimento, dos filmes B de Hollywood, do rock, do pop e da literatura barata.
Essa mistura extravagante, posta na tela sem qualquer intelectualismo, mas com evidente talento e prazer, talvez seja responsável pelo prestígio que Tarantino continua a desfrutar entre cinéfilos e críticos de diferentes igrejas. Veremos se o público leigo embarca também nessa viagem