Hitchcock é desvendado em HQ biográfica que dialoga com a estética mórbida e voyeur do cineasta

Extensa HQ francesa sobre o renomado diretor de 'Psicose' e 'Um Corpo Que Cai', 'Alfred Hitchcock - O Mestre do Suspense' ganha edição no Brasil após ser indicada ao Prêmio Eisner, considerado o Oscar do gênero

20 abr 2026 - 05h40
(atualizado às 17h45)

Talvez não haja um cineasta tão visualmente apropriado para ser associado à linguagem dos quadrinhos quanto Alfred Hitchcock (1899-1980). Não apenas pelas tomadas inesquecíveis de seus clássicos da sétima arte, mas também pela silhueta inconfundível, o diretor britânico é tema de Alfred Hitchcock - O Mestre do Suspense, extensa HQ francesa que ganha edição no Brasil após ser indicada ao Prêmio Eisner, considerado o Oscar do gênero.

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Noël Simsolo, um cineasta com domínio do ofício, e Dominique Hé, um ilustrador talentoso, unem suas habilidades para conceber uma obra que se integra com propriedade ao cânone das biografias dedicadas ao diretor de Psicose (1960) e Os Pássaros (1963).

Na primeira metade das 312 páginas, os autores optam por deixar Hitchcock contar sua própria história durante uma longa conversa com o ator Cary Grant, astro de Intriga Internacional (1959). São reconstituídos episódios formativos de sua juventude, o casamento com Alma Reville e a ascensão de sua carreira, que começou a ganhar força com Chantagem e Confissão (1929), o primeiro filme sonoro realizado no Reino Unido.

A conversa com Grant, provida de ótimos diálogos, tem ares terapêuticos e ganha uma camada de tensão sexual quando a atriz Grace Kelly, de Disque M Para Matar (1954) e Janela Indiscreta (1954), surge para enriquecer a conversa. Hitchcock tinha fascínio por mulheres loiras e, com isso, elas tornaram-se uma marca registrada de sua filmografia, representando um ideal de beleza fria, elegante e misteriosa. "Minhas fantasias alimentam minhas obras!", ele diz.

HQ biográfica abre as cortinas para as fantasias do diretor Alfred Hitchcock, de filmes como 'Psicose'
HQ biográfica abre as cortinas para as fantasias do diretor Alfred Hitchcock, de filmes como 'Psicose'
Foto: Cyberpulp/Divulgação / Estadão

Bastidores e frustração com o Oscar

Há cenas de bastidores saborosas, como em Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940), seu primeiro trabalho em Hollywood, no qual Laurence Olivier, lenda do teatro britânico, reclama do "amadorismo insuportável" da colega Joan Fontaine. Ou então a fúria do realizador ao saber que Vera Miles desistira de gravar Um Corpo Que Cai (1958) após engravidar, sendo substituída por Kim Novak, por quem ele não tinha a mesma predileção.

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Com o perturbador Psicose, inspirado pela história do serial killer Ed Gein, Hitchcock enfrentou a rejeição da Paramount Pictures e precisou financiar o longa-metragem por conta própria. Produzido com um orçamento de cerca de US$ 800 mil, o filme arrecadou aproximadamente US$ 13 milhões. Ainda assim, nem o maior sucesso de sua carreira lhe rendeu um Oscar - uma frustração que o acompanhou ao longo de toda a vida em relação à Academia, historicamente avessa ao terror.

Manipulador de emoções, ele era capaz de criar experiências angustiantes que mantinham o público constantemente em expectativa. "Digamos que sou um artista que pinta sempre a mesma flor, mas cada vez um pouco melhor", reconhece Hitchcock em certo momento, ao ser acusado de repetir a si mesmo. Muitas das declarações foram retiradas de várias entrevistas concedidas ao longo da vida dele.

Os desenhos em preto e branco apostam no forte contraste entre luz e sombra, enquanto a composição das páginas privilegia enquadramentos que simulam planos cinematográficos, com closes intensos e ângulos que sugerem tensão. Logo, o resultado é um trabalho que dialoga diretamente com a estética hitchcockiana, equilibrando suspense, voyeurismo e morbidez.

Capa de 'Alfred Hitchcock – O Mestre do Suspense', HQ feita pelos franceses Noël Simsolo e Dominique Hé
Foto: Cyberpulp/Divulgação / Estadão

Alfred Hitchcock - O Mestre do Suspense

  • Autores: Noël Simsolo e Dominique Hé
  • Tradução: Mario Luiz C. Barroso
  • Editora: Cyperpulp (312 págs.; R$ 149)
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