Talvez não haja um cineasta tão visualmente apropriado para ser associado à linguagem dos quadrinhos quanto Alfred Hitchcock (1899-1980). Não apenas pelas tomadas inesquecíveis de seus clássicos da sétima arte, mas também pela silhueta inconfundível, o diretor britânico é tema de Alfred Hitchcock - O Mestre do Suspense, extensa HQ francesa que ganha edição no Brasil após ser indicada ao Prêmio Eisner, considerado o Oscar do gênero.
Noël Simsolo, um cineasta com domínio do ofício, e Dominique Hé, um ilustrador talentoso, unem suas habilidades para conceber uma obra que se integra com propriedade ao cânone das biografias dedicadas ao diretor de Psicose (1960) e Os Pássaros (1963).
Na primeira metade das 312 páginas, os autores optam por deixar Hitchcock contar sua própria história durante uma longa conversa com o ator Cary Grant, astro de Intriga Internacional (1959). São reconstituídos episódios formativos de sua juventude, o casamento com Alma Reville e a ascensão de sua carreira, que começou a ganhar força com Chantagem e Confissão (1929), o primeiro filme sonoro realizado no Reino Unido.
A conversa com Grant, provida de ótimos diálogos, tem ares terapêuticos e ganha uma camada de tensão sexual quando a atriz Grace Kelly, de Disque M Para Matar (1954) e Janela Indiscreta (1954), surge para enriquecer a conversa. Hitchcock tinha fascínio por mulheres loiras e, com isso, elas tornaram-se uma marca registrada de sua filmografia, representando um ideal de beleza fria, elegante e misteriosa. "Minhas fantasias alimentam minhas obras!", ele diz.
Bastidores e frustração com o Oscar
Há cenas de bastidores saborosas, como em Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940), seu primeiro trabalho em Hollywood, no qual Sir Laurence Olivier, lenda do teatro britânico, reclama do "amadorismo insuportável" da colega Joan Fontaine. Ou então a fúria do realizador ao saber que Vera Miles desistira de gravar Um Corpo Que Cai (1958) após engravidar, sendo substituída por Kim Novak, por quem ele não tinha a mesma predileção.
Com o perturbador Psicose, inspirado pela história do serial killer Ed Gein, Hitchcock enfrentou a rejeição da Paramount Pictures e precisou financiar o longa-metragem por conta própria. Produzido com um orçamento de cerca de US$ 800 mil, o filme arrecadou aproximadamente US$ 13 milhões. Ainda assim, nem o maior sucesso de sua carreira lhe rendeu um Oscar - uma frustração que o acompanhou ao longo de toda a vida em relação à Academia, historicamente avessa ao terror.
Manipulador de emoções, ele era capaz de criar experiências angustiantes que mantinham o público constantemente em expectativa. "Digamos que sou um artista que pinta sempre a mesma flor, mas cada vez um pouco melhor", reconhece Hitchcock em certo momento, ao ser acusado de repetir a si mesmo. Muitas das declarações foram retiradas de várias entrevistas concedidas ao longo da vida dele.
Os desenhos em preto e branco apostam no forte contraste entre luz e sombra, enquanto a composição das páginas privilegia enquadramentos que simulam planos cinematográficos, com closes intensos e ângulos que sugerem tensão. Logo, o resultado é um trabalho que dialoga diretamente com a estética hitchcockiana, equilibrando suspense, voyeurismo e morbidez.
Alfred Hitchcock - O Mestre do Suspense
- Autores: Noël Simsolo e Dominique Hé
- Tradução: Mario Luiz C. Barroso
- Editora: Cyperpulp (312 págs.; R$ 149)