No processo de escrita do livro Malária, a escritora alemã Carmen Stephan enfrentava dúvidas. Devia mesmo contar a sua história com a doença? Conseguiria? Alguém leria isso? O ano era 2007, ela vivia no Rio de Janeiro e decidiu ir à praia espairecer. Abriu um jornal e lá estava um texto sobre O Médico Doente, livro em que o médico brasileiro Drauzio Varella narra sua experiência com a febre amarela.
"Para mim, foi uma coisa assim: 'ele fez, então é possível fazer'. Foi como uma permissão, uma porta que se abriu", lembra ela. Agora, quase 20 anos depois, Carmen e Drauzio se encontram em uma mesa da programação oficial da 24ª Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, nesta sexta-feira, 24. A conversa ocorre a partir das 10h, com mediação de Laura Capelhuchnik, e também será transmitida pelo YouTube da Flip.
Carmen e Drauzio terão muito em comum a que discutir. Ela contraiu malária em uma viagem pela Amazônia brasileira em 2003, uma experiência traumática que a mudou para sempre. Seu livro conta essa história a partir de uma perspectiva inusitada, pois é narrado pela "mosquita" anófeles que a picou (a transmissora da malária é sempre a fêmea).
Já o médico contraiu febre amarela no ano seguinte, também em viagem pela Amazônia, momento que também o marcou de forma permanente. Além disso, ele deve falar de seu livro mais recente, O Sentido das Águas: Histórias do Rio Negro, que acumula vivências de mais de 30 anos de viagens pela mesma região.
Para a alemã, o encontro será como a ponta final de uma jornada que começou no início do século, quando ela veio ao Brasil pela primeira vez ainda como jornalista para uma entrevista marcada com o grande Oscar Niemeyer (1907-2012).
Ficou tão encantada com o ambiente que o cercava e com a cidade do Rio de Janeiro que pediu um estágio no escritório do arquiteto e decidiu que passaria ao menos um ano no País. Desde então, Carmen não largou mais o Brasil - entre idas e vindas, morou dez anos no Rio e há três anos reside no sul da Bahia.
A narradora-mosquita de 'Malária'
Foi em uma das primeiras viagens ao País que Carmen contraiu malária. Ela tinha 29 anos, viajava com um namorado entre Manaus, Belém e o Marajó, mas os sintomas apareceram quando ela já estava em Caraíva (BA). Sentia dores de cabeça fortíssimas, náusea intensa, parecia que a doença lhe consumia por inteira.
Primeiro lhe disseram que estava com dengue, um diagnóstico errôneo bastante comum. Só dias depois veio a notícia de que era malária. Carmen quase morreu. Viveu dias de delírio, sem a certeza de que veria o outro lado. Mas viu, e nos anos que se seguiram a malária era um assunto difícil, uma memória que a escritora não gostava de acessar.
Ao mesmo tempo, ela sabia que tinha uma história ali, algo importante a ser dito. "Tem uma coisa muito forte [nessa experiência], muito existencial e essencial para todo mundo. Perguntas que toda pessoa tem que se questionar ao confrontar com a própria morte. Como a gente lida quando não temos mais controle?", explica.
Ela tentava escrever, mas tinha dificuldade em acessar as memórias, em colocar no papel a própria experiência. Até que veio a ideia: e se não fosse ela a narradora, mas sim o pequeno animal que transmitiu a doença? "Quando eu decidi escrever com esse narrador, abriu-se uma porta. Foi muito interessante porque lembrei muito bem de muitos detalhes. Percebi que não é uma memória, é uma coisa viva dentro de mim."
A narradora de Malária adquire uma conexão com sua protagonista, a própria Carmen, depois de picá-la. Tem acesso a suas memórias de infância, a seus sentimentos, medos. É sensível e, ao mesmo tempo, debochada. "Vocês acreditam que a pele de vocês os encerra, que ela é o fosso ao redor de sua carne. Entretanto, ela é a parte mais suscetível de vocês. Um pontinho vermelho e a morte entrou. Vocês não conhecem meu poder?", questiona já nas primeiras páginas do livro.
"Eu já sabia no início que não queria contar só uma história de uma pessoa doente. Queria ter mais camadas e o mosquito me deu essa oportunidade de ter uma visão e uma liberdade maior", diz a autora. A narradora-mosquita permitiu que ela explorasse muitas ligações: humano/natureza, médico/paciente e até humano/animal.
"Para mim, o livro é muito sobre essas relações e como estamos vivendo ela ou não. Nesse caso, a gente nem sabe, mas é relação muito íntima com o mosquito, porque ele pega seu sangue. Ao mesmo tempo, não temos acesso a isso, mas o livro dá essa oportunidade. É um encontro impossível, mas que acontece nesse livro", completa.
'Malária' demorou anos para chegar ao Brasil
Malária foi publicado na Alemanha em 2012. Chegou ao Brasil apenas neste ano, pela editora Tinta da China Brasil. É como se Carmen vivesse tudo pela terceira vez: "É muito interessante porque, de alguma forma, a experiência está evoluindo. Estou descobrindo coisas que, talvez, não tivesse visto quando o livro saiu."
Ela reconhece que é uma oportunidade bastante rara que um autor possa compreender tão bem suas próprias palavras reconstruídas em outro idioma - Carmen fala um ótimo português, vale notar - e diz ter se emocionado com certas partes da tradução de Claudia Abeling.
"Uma coisa que me tocou muito foi um momento [do livro] em que tenho uma lembrança da minha infância, do meu pai - que já faleceu também -, correndo na neve, sem sapato, sem meia. Isso é uma coisa da minha infância que a gente fez naquele momento", diz.
"E quando eu li isso em português, me tocou de uma forma tão inesperada. Pensei: 'como assim, de repente, a minha família está vindo comigo ao Brasil'. Eles vêm de um lugar da Baviera e de alguma forma, lendo essa memória, esse trecho em português, foi como se eles estivessem aqui comigo", continua.
Carmen havia sido convidada para a Flip anteriormente, em 2016, quando Malária ainda nem tinha editora no Brasil. Mas não pôde participar porque estava prestar a dar à luz sua filha, de dez anos. Estar na festa agora é quase uma forma de coroar este momento, de fortalecer essa conexão com o país que ela escolheu viver.