Édouard Louis chama Elena Ferrante de 'ruim' e é criticado; entenda a nova treta literária

Francês afirmou que autora de 'A Amiga Genial' faz 'romance para adolescentes' e leitores reagiram: 'Apenas suco da pretensão literária vindo de alguém que não conseguiria escrever ficção'

5 mar 2026 - 17h26

Uma fala do escritor francês Édouard Louis gerou comoção entre comunidades de leitores nas redes sociais. Autor de livros como Quem Matou Meu Pai (Todavia) e O Fim de Eddy (Todavia), ele afirmou que a escritora italiana Elena Ferrante, autora de A Amiga Genial (Globo Livros), faz "romance para adolescente" e que os livros dela são "realmente ruins".

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O comentário foi feito em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Louis foi questionado sobre uma fala da crítica literária Aurora Bernardini que dizia que obras de Ferrante e da escritora francesa Annie Ernaux não poderiam ser consideradas literatura, pois privilegiavam o conteúdo à forma.

"Em primeiro lugar, essa é uma declaração pobre, porque Elena Ferrante e Annie Ernaux não têm nada a ver. Ernaux é uma grande escritora que reinventou a literatura, enquanto Ferrante está fazendo romance para adolescentes. Não é porque são produções voltadas ao âmbito pessoal que ambas as escritoras são a mesma coisa", disse o francês.

Édouard Louis criticou livros da escritora Elena Ferrante.
Édouard Louis criticou livros da escritora Elena Ferrante.
Foto: Arnaud Delrue/Divulgação e GloboLivros/Divulgação / Estadão

O autor continua, argumentando que não há problema em um livro priorizar conteúdo à forma, e volta citar a escritora italiana: "É mais uma vez um caso daquela polícia da literatura. Acredito que os livros de Elena Ferrante sejam realmente ruins, mas literatura ruim tem o direito de existir. Livros ruins não impedem a existência de livros bons."

Nas redes sociais, leitores repercutiram e criticaram o escritor: "Elena Ferrante escreve sobre vivências femininas como poucas conseguem. Ele dizer que as obras dela são 'romance para adolescentes' diz muito sobre ele. Tudo que é sobre mulheres e para mulheres é lido pelos homens como bobeira, diminuído a isso aí, portanto, não me surpreendo", escreveu uma usuária.

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"O Édouard Louis falar aquelas coisas da Elena Ferrante é apenas o suco da pretensão literária francesa vindo de alguém que não conseguiria escrever ficção", afirmou outro internauta.

Louis é um dos nomes da moda na autoficção, gênero que une elementos da ficção com eventos biográficos do autor. Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura e autora de livros como Os Anos (Fósforo) e O Acontecimento (Fósforo), é talvez a autora mais prestigiada dentro do gênero hoje.

Já Elena Ferrante - que ninguém sabe quem é na realidade; ela usa um pseudônimo - escreve romances. Fenômeno de vendas na Itália e no mundo, com obra adaptada para filme e série, é autora de livros como A Filha Perdida (Intrínseca) e Um Amor Incômodo (Intrínseca), mas seu trabalho de maior sucesso é a Tetralogia Napolitana, cujo primeiro volume, A Amiga Genial (Globo Livros), foi eleito o melhor livro do século 21 pelo The New York Times.

Élvio Cotrim, professor de Língua e Literatura Francesa na UFF, chegou a comentar a polêmica em uma coluna publicada no Substack. "Ferrante não compartilha com Ernaux a filiação da escrita autoficcional. A obra de Ferrante é, a priori, ficção, pode ser até considerada um grande romance de formação, uma saga familiar ou até mesmo uma obra de realismo social, mas, seguramente, não reivindica nenhuma categoria de verdade autobiográfica, dada o próprio mistério que envolve o CPF da escritora."

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Cotrim afirmou ainda que o adjetivo "ruim", usado pelo francês para descrever Ferrante, pertence à "categoria opinativa, pouco usual a Louis".

Nas outras redes, há quem tenha gostado da nova "treta" literária. "Me alegra o Édouard Louis falando mal da Elena Ferrante, pois sempre acompanhei os autores clássicos criticando uns aos outros em cartas. Bom viver isso na contemporaneidade, viva a tradição!", brincou um usuário.

Édouard Louis vem ao Brasil neste mês de março para participar da Mitsp, a 11º Mostra Internacional De Teatro De São Paulo, onde apresenta a peça Quem Matou Meu Pai, em que interpreta a si mesmo, e participa de rodas de conversa. Saiba mais aqui.

Veja a repercussão:

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