Por Tem Que Ver*
Bicampeão mundial em 1930 e 1950 - esta última, no episódio que ficaria conhecido como Maracanazo -, o Uruguai chegou à América do Norte com a incrível marca de 15 Copas do Mundo da FIFA disputadas, a quinta vez consecutiva desde 2010, na África do Sul, quando o país alcançou a semifinal de forma inesperada, tendo como protagonistas Edinson Cavani e Luis Suárez.
A Celeste Olímpica, alcunha do selecionado uruguaio, classificou-se para a Copa de 2026 com um desempenho irregular nas Eliminatórias da Conmebol, sob o comando de "El Loco" Marcelo Bielsa, treinador bastante experiente mas cujos métodos à beira do gramado são considerados controversos e geralmente são contestados por torcedores e pela mídia especializada em futebol. Num grupo com Espanha, Arábia Saudita e Cabo Verde, o Uruguai marcou apenas dois pontos e deu ao torneio ainda na fase de grupos.
A chegada do cinema ao Uruguai ocorreu em 18 de julho de 1898, no Salón Rouge, um popular cabaré local. O empresário local Félix Oliver comprou o primeiro filme, câmera e projetor do país diretamente dos irmãos Lumière, permitindo a ele produzir o curta Corrida de Bicicletas no Velódromo de Arroyo Seco, o segundo filme produzido na América Latina. No período inicial da sétima arte em terras uruguaias, a maioria dos filmes comerciais exibidos eram produções argentinas. Assim, a primeira obra de ficção nacional, Pervanche, foi realizada em 1919, com direção de León Ibáñez. Por sua vez, em 1923, foi lançado Almas do Litoral, de Juan Antonio Borges, considerado o primeiro longa-metragem uruguaio.
Das décadas de 1930 a 1950, a produção cinematográfica uruguaia desenvolveu-se um pouco mais, com destaque para os documentários. Mas para se ter ideia da dificuldade de se fazer cinema nos pampas austrais, a primeira produção em cores seroa feita apenas em 1973, A Família Peculiar de Maribel, um fracasso dirigido por Jorge Fornio e Raúl Quintín. Nos dias atuais, a modesta indústria cinematográfica uruguaia consegue produzir de quatro a seis filmes por ano, participando, ainda que esporadicamente, de festivais internacionais.
Para representar o Uruguai na Copa do Mundo de Cinema, nada mais justo do que trazer uma obra ganhadora do Prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes: a comédia sombria Whisky, de 2004, dirigida por Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. Muitos, inclusive, o consideram o melhor filme latino-americano do ínicio do século XXI A premissa narrativa do longa é simples: Jacobo (Andres Pazos), o proprietário de uma decadente fábrica de meias em Montevidéu, descobre que seu irmão mais bem-sucedido, Herman (Jorge Bolani), virá visitá-lo após anos de afastamento. Para manter as aparências e preencher um hiato existencial, Jacobo contrata sua funcionária mais fiel, Marta (Mirella Pascual), para fingir ser sua esposa durante os dias da visita.
Whisky ancora-se na estética minimalista, opera sob a lógica do humor seco, impassível, em que o riso nasce do absurdo do cotidiano e da solenidade com que as personagens encaram a sua própria estagnação. O título faz referência à palavra que os fotógrafos uruguaios pedem para as pessoas dizerem para simular um sorriso (o equivalente ao nosso "Olha o passarinho!"). É a síntese perfeita do filme: a performance forçada da felicidade tomando como base a melancolia crônica. Ademais, ele capta com precisão o ethos uruguaio da virada do milênio: o país vinha de uma severa crise econômica e carregava um sentimento de nostalgia por um passado próspero que já não existia mais. Jacobo representa o Uruguai analógico, cinzento e burocrático, apegado a uma fábrica que produz meias que ninguém parece comprar. Herman, vivendo no Brasil, representa a modernidade, a flexibilidade econômica e o dinamismo. No choque sutil entre os dois irmãos, o filme traça uma alegoria brilhante sobre a identidade nacional, o envelhecimento e o isolamento geográfico e cultural.
*Texto publicado originalmente no portal Tem Que Ver Cinema