Criada no início do século 20 pelos trabalhadores das minas de ferro de Itabira, a Guinlagem do Camaco continua viva. O futuro, no entanto, é incerto com fim próximo da exploração do minério na região.Uma cidade, um poeta. O nome de Itabira é quase indissociável de Carlos Drummond de Andrade. O escritor, nascido em 1902, na cidade de 113 mil habitantes na Região Central de Minas Gerais, revolucionou a língua portuguesa ao virar de cabeça para baixo os formalismos da poesia vigente até então. Mas o que pouca gente sabe é que naquele mesmo local surgiu uma outra revolução linguística: a Guinlagem do Camaco.
O surgimento dessa linguagem "secreta" está diretamente ligado ao contexto da exploração do minério na região. Foi dentro das minas itabiranas, no começo do século 20, que os trabalhadores encontraram uma forma de se comunicar sem serem entendidos pelos patrões, em grande parte ingleses. Era também uma maneira de dar um troco nos donos das minas, que falavam no idioma materno quando não queriam ser compreendidos pelos empregados.
À primeira vista, as regras são simples. O princípio do Camaco é inverter os fonemas das sílabas das palavras, embaralhando os sons e tornando as frases praticamente incompreensíveis para quem está de fora. "Sovê lafa guinlagem", por exemplo, é "Você fala linguagem?". "Guinlagem do Camaco" é "Linguagem do Macaco". Assim, famosa introdução do poema E agora, José, de Drummond, viraria "E aroga, Sujé?".
Mas nem tudo é lógica. Algumas palavras mais curtas se transformam em vocábulos que fogem a essa regra. "Não" vira "ônis". "Qualquer", "ualquiquelque".
Essa é a magia da linguagem para o músico Rafael Formiga, um falante do Camaco. "As palavras criam um sentido dentro de um fonema pela inversão. E nos lugares onde você vai falar, mesmo com alguma diferença, todo mundo se entende. Tem uns detalhes muito ricos de linguagem e ao mesmo tempo quem vê de fora não entende e fica meio perdido, porque é normal que a gente procure regra", diz ele.
"Isso demonstra uma capacidade de construção e de resistência incrível", explica o historiador e museólogo Paulo Assuero, também falante do Camaco. "Eram recém-libertos, em grande parte analfabetos. E tinham que dar soluções de como dizer as coisas que eles queriam sem que os ingleses entendessem. Virou uma provocação, expandiu", complementa o professor, também residente em Itabira.
Das minas de ferro, o Camaco tomou as ruas. Virou a língua que os filhos falavam para conversar entre si, sem que os pais entendessem - ou a que os jovens usavam para fazer piada com forasteiros.
"Nos anos 1960, 1970, quando chegava o pessoal de fora, essa coisa de interior, a gente ficava fazendo gozação com eles. Não entendiam nada", brinca Assuero, que também já surpreendeu alguns alunos dentro de sala com a fluência na língua. "Dois deles estavam colando na prova em Guinlagem de Camaco e achando que eu não sabia de nada. Depois que acabou a prova, chamei eles e falei em Camaco. Tomaram o maior susto", diverte-se o professor.
A linguagem da resistência
Na casa de Mauro de Alvarenga, o Camaco já é uma tradição. "Meus pais falavam quando não queriam ser entendidos por mim e pelos meus irmãos - até que nós aprendemos. Mas eles tinham aprendido com meu avô, que era ferreiro e fazia peças para as locomotivas de mineração. Ele trouxe o Camaco para dentro de casa e foi passando de geração para geração", conta.
Nas mãos do cineasta Breno Alvarenga, filho de Mauro, a história da linguagem secreta da cidade de Drummond acabou virando tema do documentário Camaco (2022), premiado no Festival de Gramado nas categorias "Melhor Curta Júri da Crítica" e "Melhor Montagem". O filme reconstrói o caráter de resistência da linguagem entre os trabalhadores da mineração.
"O Camaco nasce de um contexto muito politizado, de muita resistência. Funcionava também como forma de organizar greves, pedir aumentos, sem que fossem boicotados desde o começo", explica Breno.
"Foi uma subcultura de sujeitos mais subalternizados, marginalizados e que por isso demorou muito a ser valorizado, porque a elite não vinha uma riqueza naquilo. Os pobres se comunicavam, mas os poderosos não entendiam. Isso é muito raro, porque geralmente a linguagem aparta as pessoas e são geralmente os mais ricos que conseguem acessar novas linguagens, não os mais pobres. Ela começa dessa inversão", ressalta o diretor de cinema itabirano.
De acordo com o linguista e pesquisador Geuderson Marchiori, que pesquisou o tema na sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o Camaco pode ser considerado uma linguagem secreta ou até mesmo um jargão técnico.
No entanto, segundo ele, que rastreou falantes até a década de 1920, há uma função similar à de um quilombo. "A linguagem possibilita a convergência dessas populações minorizadas, que utilizam o Camaco como um território de luta e resistência. Embora o senso comum aponte o quilombo como um local de negros escravizados em fuga, o quilombo é um local de reorganização, de segurança, onde essas populações puderam se libertar da exploração e se reorganizar para resistir", complementa.
Marchiori explica também que o termo "macaco" em "Guinlagem do Camaco" pode ter uma conotação racista, mas que há outras interpretações para o nome.
"Tem quem diga que o Camaco é a linguagem relacionada à esperteza que os macacos teriam, a esse jogo de cintura, a essa performance de pular de galho em galho sem ser apanhado, sem cair. Existe ainda uma possibilidade de relacionar o nome da linguagem aos pequenos heróis, que são os pequenos animais muito presentes nas narrativas de origem africana, que são sempre os bichos menores, vistos como mais fracos, que se sobressaem pela esperteza."
Drummond falava Camaco?
Apesar de terem surgido na mesma cidade e no mesmo período, Camaco e Drummond vinham de duas Itabiras diferentes. A linguagem, das minas e dos operários. O poeta, filho de fazendeiros, de uma parte da elite, mesmo que não ligado diretamente à atividade minerária. Talvez por isso, até hoje não foram encontradas citações do Camaco em crônicas ou poemas de Carlos Drummond de Andrade.
"Naquela Itabira, a linguagem do Camaco era muito desvalorizada. Na maioria das vezes, era falada por pessoas negras. Foi uma subcultura de sujeitos mais subalternizados, marginalizados e que por isso demorou muito a ser valorizado, porque a elite não via uma riqueza naquilo", diz Breno de Alvarenga.
Drummond também não ficou muito tempo em Itabira. Aos 18 anos, deixou definitivamente a cidade natal, mudando-se primeiro para Belo Horizonte e, depois, para o Rio. Mas, como ele mesmo dizia em entrevistas, aquele lugar estava sempre presente, como "uma fotografia na parede".
E agora, Itabira?
Atualmente, a cidade mineira - e mineradora - passa por uma crise existencial. Com mais de 80% da economia dependente da atividade, Itabira agora tem que lidar com o fim da exploração do minério cada vez mais perto. De acordo com as estimativas mais recentes, as minas da região serão paralisadas em 2052.
"Fica essa relação. A cidade depende da mineração, do PIB. Mas também de algo além disso, porque tudo acaba. E aí? E aroga, Sujé?", questiona o músico Rafael Formiga, citando o famoso poema de Drummond.
Para a musicista Nana Mendonça, que já trabalhou com oficinas voltadas à linguagem, a cidade precisa preservar o Camaco. "Hoje existem poucos falantes e, com o avanço tecnológico, as coisas vêm e vão embora muito rápido", diz ela. Em 2023, o município de Itabira registrou, em um decreto, a linguagem do Camaco como patrimônio cultural imaterial. No entanto, até agora, ainda não foram tomadas medidas concretas para a preservação.
Mas é justamente na capacidade de sobrevivência e expansão do Camaco que muitos moradores de Itabira veem uma saída para um futuro em que a cidade terá que se reinventar.
"Essa linguagem nos ensina sobre resistência. Ela é resistente ao boicote da elite em relação a ela e ela continua viva. E nos lembra que podemos resistir ao que a mineração nos apresenta hoje em dia. A mineração, claro, foi muito importante para Itabira, mas a gente fica com os prejuízos dela, com a degradação ambiental, com a poluição do ar, com a saúde precarizada por conta disso. Acho que a linguagem também pode nos lembrar com resistir, como podemos nos reinventar para o futuro aqui em Itabira", resume o cineasta Breno Alvarenga.
Segundo Geuderson Marchiori, a chave pode estar não só no Camaco, mas também no próprio Drummond. Ou seja, no potencial cultural de Itabira.
"A cidade continua exercitando a criatividade dela", afirma o linguista, que atesta: atualmente, o Camaco faz muito mais parte do dia a dia da cidade do que da própria mineração. "Os dados que consegui me mostraram que a Linguagem de Camaco é praticamente inexiste no contexto das minas e da atividade minerária. Uma mina, hoje, tem trabalhadores que não falam mais a linguagem - mas a cidade, sim", conclui.