Por que a Europa está ficando tão quente

28 jun 2026 - 17h56
(atualizado às 18h07)

Continente sofre com calor extremo que tem quebrado recordes e provocado mortes. Por que essa parte do planeta está aquecendo duas vezes mais rápido que a média global?Grande parte da Europa Ocidental está enfrentando uma intensa onda de calor, com temperaturasexcepcionalmente altas e seguidos recordes.

Temperaturas têm batido recordes no continente
Temperaturas têm batido recordes no continente
Foto: DW / Deutsche Welle

Esse clima atípico para esta época do ano é resultado de uma "cúpula de calor". Esse forte sistema atmosférico de alta pressão, originário do norte da África e de deslocamento lento, está retendo o ar quente sobre a Europa, funcionando como a tampa de uma panela com água fervendo.

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Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, esses sistemas meteorológicos tornaram-se mais frequentes na Europa nos últimos 25 anos, contribuindo para ondas de calor mais frequentes e intensas.

"Temperaturas dessa magnitude já foram consideradas excepcionais até mesmo no auge do verão", afirmou Friederike Otto, professora de ciência do clima no Imperial College London. "Esse calor recorde traz claramente a assinatura das mudanças climáticas."

Europa aquece duas vezes mais rápido

Ainda é cedo para determinar exatamente quanto desse evento extremo de calor foi intensificado pelo efeito estufa causado pelas emissões de combustíveis fósseis.

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No entanto, análises anteriores de mais de meia dúzia de ondas de calor ocorridas na Europa desde 2003, conduzidas por cientistas climáticos da organização britânica World Weather Attribution - da qual Otto é cofundadora -, mostram que esses eventos extremos se tornaram muito mais prováveis e mais intensos devido às mudanças climáticas causadas pela ação humana.

O mais recente relatório Estado Europeu do Clima, divulgado em abril, observou que pelo menos 95% do continente registrou temperaturas anuais acima da média em 2025. Ondas de calor intensas, com temperaturas acima de 30 °C, foram sentidas até mesmo ao norte do Círculo Polar Ártico, e a temperatura da superfície do mar atingiu o nível mais alto já registrado.

"A Europa é o continente que mais aquece no mundo, e os impactos já são severos", afirmou Florian Pappenberger, diretor do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, uma das instituições responsáveis pelo relatório.

De fato, a Europa está aquecendo duas vezes mais rápido que a média global. A temperatura média no continente aumentou 2,5 °C em comparação com os níveis pré-industriais do final do século 19. No mundo como um todo, os pesquisadores registraram um aumento médio de 1,4 °C.

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Por que está ficando tão quente?

Esse aquecimento acelerado ocorre, em parte, devido à localização geográfica da Europa. O continente está conectado ao Ártico, a única outra região do planeta que está aquecendo ainda mais rapidamente.

O aumento médio da temperatura nas proximidades do Polo Norte já ultrapassou 3,3 °C, segundo dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus. Isso acontece, em parte, porque o Oceano Ártico, cada vez mais livre de gelo e mais escuro, absorve mais luz solar do que o gelo, que a reflete.

Esse processo, conhecido como efeito albedo, também ocorre em diversas regiões da Europa. Áreas que costumavam permanecer congeladas durante todo o ano ou até o fim do verão, como as regiões de alta altitude dos Alpes, estão cada vez mais sem neve. Como o solo escuro reflete menos radiação solar de volta ao espaço, o aquecimento se acelera.

Mudanças nos ventos alteram padrões climáticos

Os cientistas também relacionam o aquecimento europeu às mudanças nos ventos da corrente de jato, um corredor de ventos em alta altitude que se desloca do oeste em direção à Europa.

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Esses ventos, anteriormente relativamente estáveis, também vêm sendo afetados pelas mudanças climáticas, gerando padrões meteorológicos mais extremos e persistentes.

Um estudo de 2022 liderado por Efi Rousi, então pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Pesquisa sobre Impactos Climáticos de Potsdam, na Alemanha, constatou que os períodos em que a corrente de jato se divide em dois ramos têm se tornado mais frequentes. Isso resulta em mais ondas de calor na Europa, especialmente na parte ocidental do continente.

"Nessa região, que coincide com a saída da trajetória das tempestades vindas do Atlântico Norte para a Europa, os sistemas meteorológicos normalmente se originam no Atlântico e, portanto, exercem um efeito de resfriamento", explicou Rousi na época. "Quando ocorrem estados de dupla corrente de jato, esses sistemas são desviados para o norte, e ondas de calor persistentes podem se desenvolver sobre a Europa Ocidental."

Ar mais limpo também contribui para aquecimento

Paradoxalmente, os esforços para resolver outro problema ambiental parecem ter contribuído para o aumento das temperaturas na Europa.

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O relatório Estado Europeu do Clima 2025 destacou que regulamentações mais rigorosas sobre qualidade do ar, implementadas desde a década de 1980, reduziram a poluição atmosférica, mas também contribuíram para temperaturas mais elevadas.

Antes da entrada em vigor dessas normas, pequenas partículas refletoras de sulfato e nitrato presentes nos gases emitidos por veículos e chaminés industriais ajudavam indiretamente a resfriar o continente ao refletirem parte da luz solar de volta ao espaço, compensando parcialmente o aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa.

No entanto, os cientistas do clima enfatizam que isso não significa que o mundo deva abandonar os esforços para reduzir as emissões.

Urgência em limitar aquecimento global

A necessidade de conter o aquecimento global foi destacada em um novo relatório divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), da ONU, e pelo Met Office do Reino Unido.

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O estudo prevê temperaturas médias globais próximas de níveis recordes nos próximos cinco anos e afirma ser provável que o mundo registre um novo ano mais quente da história antes de 2031.

"A tarefa à nossa frente é clara", declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, no início deste mês, ao defender ações para minimizar o aumento da temperatura e "construir um futuro mais seguro, mais justo e mais resiliente para todos".

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