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'Sobrevivi ao 11 de Setembro porque cheguei mais tarde ao trabalho': sobrevivente relembra os ataques

Hans Gernot Schenk trabalhava havia mais de um ano nas Torres Gêmeas quando ocorreram os atentados. Naquele dia, chegou um pouco mais tarde ao escritório e isso, provavelmente, o salvou. Mas os ataques marcaram sua vida.

11 set 2026 - 06h40
(atualizado às 10h40)
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Resumo
O colombiano-alemão Hans Schenk sobreviveu aos ataques de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center devido a um atraso de dez minutos no trajeto ao trabalho. Ele presenciou as explosões nas Torres Gêmeas antes de conseguir fugir pelo metrô, mas perdeu dois colegas de escritório na tragédia. Profundamente abalado pela perda e pela falta de sensibilidade de seus empregadores, Hans deixou Nova York e passou a enfrentar severos traumas psicológicos, crises físicas e a culpa do sobrevivente.
Hans Gernot Schenk trabalhava em uma empresa alemã de logística internacional em 2001. Seu escritório ficava no 32º andar da Torre Norte, no World Trade Center
Hans Gernot Schenk trabalhava em uma empresa alemã de logística internacional em 2001. Seu escritório ficava no 32º andar da Torre Norte, no World Trade Center
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

Uma pequena chave de bronze, um cartão de acesso eletrônico, um celular Nokia.

Esses são alguns dos objetos que, há 25 anos, faziam parte da vida cotidiana do colombiano-alemão Hans Gernot Schenk, que hoje tem 55 anos.

São reminiscências daquele 11 de setembro de 2001, o dia do ataque às Torres Gêmeas em que perdeu amigos e no qual alguns de seus sonhos literalmente desabaram.

Hans trabalhava havia mais de um ano nas Torres Gêmeas, no World Trade Center (WTC), em Nova York, quando dois aviões colidiram contra os edifícios emblemáticos durante uma série de ataques coordenados do grupo extremista islâmico Al Qaeda.

Naquele dia, ele chegou um pouco mais tarde do que alguns de seus colegas e provavelmente por isso se salvou. Mas os ataques marcaram sua vida.

A seguir, o relato em primeira pessoa do que viveu no 11 de Setembro, dos dias seguintes e uma reflexão sobre o acaso de ter sobrevivido.

Hans ainda conserva os objetos que faziam parte de seu dia a dia quando trabalhava nas Torres Gêmeas em 2001
Hans ainda conserva os objetos que faziam parte de seu dia a dia quando trabalhava nas Torres Gêmeas em 2001
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

Um jantar que mudou minha vida

"Poucos dias antes de 11 de setembro, minha empresa havia nos enviado um comunicado chamando a atenção para os atrasos e pedindo que chegássemos ao trabalho, no máximo, às 9h.

O fato de não ter dormido em casa na noite anterior mudou meu destino. Talvez isso tenha feito com que eu chegasse ao trabalho cerca de 10 minutos mais tarde do que teria chegado normalmente.

Ao analisar o tempo, os minutos e os impactos dos aviões, sei que isso teve influência no desfecho.

Hoje, a cada ano que passa, a cada 11 de setembro, a pessoa com quem eu estava me relacionando naquela época me envia uma mensagem e me cumprimenta, porque ele entende que foi justamente o fato de termos saído para jantar e passado aquela noite juntos que fez com que eu não chegasse mais cedo ao escritório.

É uma conexão que se manteve durante todos esses anos, embora não tenhamos nos visto por muitos anos depois de 11 de setembro de 2001.

Foi somente em 2012 ou 2013 que nos reencontramos e pudemos conversar sobre o que aconteceu.

Cartão de Hans que lhe dava acesso ao seu escritório no World Trade Center
Cartão de Hans que lhe dava acesso ao seu escritório no World Trade Center
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

O 11 de Setembro

Naquele dia, acordei muito cedo porque, antes de ir para o escritório, precisava passar em casa para me trocar. Tomei banho, me vesti e corri para o metrô. Pensei, surpreso: "Uau, vou chegar no horário, mais cedo do que de costume".

Ao chegar, desci do trem. Caminhei por baixo das Torres, onde havia um centro comercial com um restaurante onde eu sempre almoçava.

Estava a cerca de 25 metros das portas giratórias que davam acesso ao saguão do edifício da Torre 1, onde eu trabalhava, a Torre Norte, quando vi pessoas correndo em pânico na minha direção.

O que mais me impactou foi ver as mulheres correndo com seus vestidos e suas bolsas. A imagem é muito forte. Pensei que algo muito grave devia ter acontecido para que as pessoas corressem daquela maneira.

Quando viu as pessoas correndo, Hans soube que algo muito grave devia ter acontecido
Quando viu as pessoas correndo, Hans soube que algo muito grave devia ter acontecido
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Então, naquele instante, procurei a rua.

Não consigo me lembrar exatamente quanto tempo passou. Ao sair, olhei para cima e vi a fumaça. Era uma fumaça preta. No entanto, como estava lá no alto, não compreendi a dimensão do que estava vendo.

Não imaginei muita coisa. Não tive muito tempo para pensar.

Fiquei ali parado, olhando para cima, exatamente entre as torres. As pessoas começaram a sair e a praça começou a se encher.

Um avião sobre a minha cabeça

Estive analisando os mapas e agora, tantos anos depois, entendo que eu não estava parado onde sempre pensei que estivesse.

Eu não vi o segundo avião se chocar, simplesmente vi a explosão que surgiu do outro lado do edifício e que me pegou completamente desprevenido.

Essa explosão passou por cima da minha cabeça.

Houve uma nuvem negra e vermelha gigantesca. Muitas coisas começaram a voar, muitos papéis e objetos.

Foi tanta coisa caindo, o impacto foi tão grande, a explosão tão forte e o barulho tão estrondoso que minha única reação imediata foi de sobrevivência, de proteger a cabeça e correr.

E então corri me afastando dali, entrei por uma escadaria que devia ficar muito perto de uma das estações de metrô sob as torres.

Estava em tal estado de alerta que desci em uma velocidade absurda e, sem pensar, saltei a catraca para entrar no metrô. Parecia um ginasta profissional. É algo que ficou para sempre na minha memória.

Hans estava em uma pequena praça entre as Torres Gêmeas às 9h03 quando o segundo avião atingiu a Torre Sul. O momento foi registrado nesta foto.
Hans estava em uma pequena praça entre as Torres Gêmeas às 9h03 quando o segundo avião atingiu a Torre Sul. O momento foi registrado nesta foto.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Cheguei à plataforma do metrô e me surpreendi ao ver que ela estava vazia. Só havia uma senhora.

Ela me perguntou o que aconteceu, e eu disse a ela para não sair para a rua, porque havia bombas.

Dentro do metrô, parecia que as pessoas não sabiam o que estava acontecendo do lado de fora. Não comentei nada, apenas estava nesse enorme estado de alerta em que não conseguia pensar.

Decidi descer algumas estações adiante, na Canal Street.

As pessoas estavam entrando no trem em massa. Tive que me desviar delas para conseguir sair do trem, da plataforma e da estação.

Eu queria sair, mas vi as pessoas entrando em quantidade tão grande que, obviamente, parei.

Vi duas jovens, que deviam ter menos de 20 anos. Elas estavam chorando. Perguntei o que aconteceu, e uma delas me disse que aviões acabaram de atingir as Torres Gêmeas.

Hans Gernot Schenk com a cidade ao fundo, onde se veem as Torres Gêmeas
Hans Gernot Schenk com a cidade ao fundo, onde se veem as Torres Gêmeas
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

Apesar de ter visto a explosão e fugido do local, fiquei completamente surpreso porque não conseguia entender o que estava acontecendo.

"Que tipo de aviões?", perguntei. Elas responderam que eram aviões comerciais, "de passageiros". Ao ouvir isso, voltei para as plataformas, não saí para a rua. Entrei em outro metrô e fui para casa.

Comecei a ligar do meu celular para pessoas do escritório. Não consegui encontrá-las, a rede telefônica estava fora do ar. Não havia como fazer ligações.

Uma piada de mau gosto

Quando cheguei em casa, meu colega de apartamento estava assistindo à televisão e ficou surpreso ao me ver. Ficamos os dois diante da TV, em pé, em estado de choque.

Alguns minutos depois, a primeira Torre desabou.

Era a segunda Torre atingida. Não era o meu edifício, mas sim a Torre 2. Foi algo extremamente chocante e impactante para mim.

Meu colega de apartamento me disse: "Eu vou embora daqui" e me convidou a ir com ele.

Poucos minutos depois, a segunda torre desabou. Vi as duas desabarem ao vivo pela televisão.

Não consegui considerar a ideia de ir embora, nem a ideia de ter perdido de tudo: o escritório, o trabalho.

Meu colega fez uma piada depois que as torres desabaram: "Bom, você não precisa mais voltar ao trabalho. De qualquer forma, você não estava tão feliz lá".

Era uma situação surreal. Ficou para sempre na minha memória.

Depois disso, não saí mais durante o restante do dia. Fiquei no apartamento assistindo à televisão.

Meus pensamentos se voltaram para coisas simples: minha mesa, o espaço onde eu trabalhava, onde eu me sentava. Aquilo já não existia mais. Eu não sabia o que tinha acontecido com meus colegas. Não consegui me comunicar com ninguém.

Escritório 3271, Torre Norte

Eu trabalhava para uma empresa alemã de logística internacional.

Tinha estudado Geografia Humana, Economia e Logística na Alemanha e, além disso, falava alemão, inglês e espanhol. Consegui um estágio com eles enquanto estudava na Universidade de Nova York.

Ao concluir os estudos, me ofereceram um emprego no World Trade Center como gerente regional de vendas em Nova York.

Cartão de visitas de Hans com o endereço do escritório no World Trade Center
Cartão de visitas de Hans com o endereço do escritório no World Trade Center
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil
Hans gostava muito de trabalhar no setor de transporte em Nova York. Frequentemente participava de eventos com seus colegas
Hans gostava muito de trabalhar no setor de transporte em Nova York. Frequentemente participava de eventos com seus colegas
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

Eu não conseguia acreditar! Estava em choque. Desde pequeno, eu amava aquelas Torres porque adoro arranha-céus. Quando era criança, olhava para elas, procurava por elas, observava fascinado as fotos das "torres mais altas do mundo".

Eu havia saído da Colômbia para estudar na Alemanha e finalmente tinha chegado a Nova York, a cidade onde eu mais queria viver. Era um sonho.

Nas Torres Gêmeas havia escritórios muito grandes, com 200, 300 funcionários ocupando vários andares. O nosso era relativamente pequeno em comparação com outros do World Trade Center. Éramos cerca de 25 pessoas.

O escritório ficava no 32º andar. Era o 3271. Ainda tenho o cartão com o endereço.

Era um escritório típico de Nova York. Não tinha nada de luxuoso, mas era bom.

Fiz várias amizades. Saíamos juntos, curtíamos a happy hour, saíamos para almoçar ou íamos ao (complexo de bares e restaurantes) Windows of the World, que ficava nos andares 106 e 107, no topo da Torre 1.

Lembro que frequentemente fazíamos exercícios de evacuação. Isso foi implementado por causa do ataque ao World Trade Center em 1993.

Os simulados aconteciam de repente. Todos nós ficávamos um pouco incomodados. Tínhamos que deixar o computador e o que estivéssemos fazendo e formar uma fila no corredor, ao lado da parede da escadaria, mas nesses simulados nunca chegamos a descer pelas escadas, que eram muito estreitas.

Em 2001, haviam se passado apenas oito anos desde aquela bomba de 1993, e ainda existia essa consciência de que poderia haver um atentado. Por isso achei que as explosões tinham sido causadas por bombas.

O dia seguinte

O dia seguinte também foi surreal.

Acordei, tomei banho e pensei: "O que eu faço?". Realmente não sabia o que fazer. Tinha dúvidas se saía ou ficava em casa. Mas, no fim, saí.

O dia estava tão bonito e ensolarado quanto o anterior. Sei que havia fumaça, mas o vento a levou em outra direção, então ela não era visível da minha casa.

Hans também conserva o celular que tinha em 2001
Hans também conserva o celular que tinha em 2001
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

Eram 9h ou 10h da manhã. A cidade estava completamente deserta. Decidi ir doar sangue em um local que ficava a alguns quarteirões da minha casa. Ao chegar, li as regras. Não pude doar sangue porque sou gay.

Decidi então caminhar em direção às torres para tentar entender o que havia acontecido.

Caminhei cerca de 40 quarteirões a partir da Rua 57. Lembro que fui descendo, descendo e descendo.

Cheguei à Canal Street. Ali já havia barricadas da polícia. Não era possível passar.

Não sei se era a fumaça ou a poeira, mas não se podia ver muito. Havia um ambiente completamente cinzento.

Eu não conseguia ligar para ninguém, os telefones ainda não funcionavam. Então caminhei até a casa de uma grande amiga. Cheguei, toquei a campainha, subi e, obviamente, houve a alegria de me ver, de nos vermos.

Inga e Eddie

Os dias seguintes não são muito claros para mim.

No fim de semana, alguns de nós do escritório conseguimos entrar em contato.

A informação que recebemos foi para nos reunirmos no escritório que ficava perto do aeroporto JFK. Todos nos cumprimentamos, observamos quem chegava e percebemos que duas pessoas estavam faltando.

Uma delas era minha chefe quando fiz meu estágio, que foi quem me treinou. Chamava-se Ingeborg Joseph. Nós a chamávamos de Inga.

Ela era muito, muito peculiar e divertida; sua mesa estava cheia de pastas. Era uma pessoa muito querida. Tinha muito carinho por mim.

Inga sobreviveu ao 11 de Setembro, mas sofreu queimaduras e ficou internada em um hospital por várias semanas até falecer.

Acredito que ela provavelmente estava chegando ao saguão, ou seja, vários metros à minha frente, diante do elevador, quando o primeiro avião atingiu o prédio. A explosão percorreu os poços dos elevadores e atingiu o saguão do edifício.

Ingeborg Joseph é um dos cerca de 3 mil nomes registrados no memorial às vítimas da tragédia do 11 de Setembro, localizado no lugar onde ficavam as Torres Gêmeas
Ingeborg Joseph é um dos cerca de 3 mil nomes registrados no memorial às vítimas da tragédia do 11 de Setembro, localizado no lugar onde ficavam as Torres Gêmeas
Foto: BBC Mundo / BBC News Brasil

Foio precisamente por isso que as pessoas saíam correndo em pânico quando eu estava entrando no edifício.

Nunca pudemos visitá-la no hospital. Não nos deixaram.

O outro colega que morreu foi Eddie Reyes, um porto-riquenho. Estava havia duas semanas na empresa. Encontraram sua identificação em um dos elevadores.

Minha vida depois do 11 de Setembro

O 11 de Setembro abalou os alicerces do que era a minha vida e do que talvez ela pudesse ter sido.

Minha cidade favorita era Nova York. Meus edifícios favoritos eram as Torres Gêmeas. Eu queria ficar em Nova York, queria viver aquela experiência, dar continuidade a ela. Mas a empresa para a qual eu trabalhava lidou com a situação de uma maneira muito estranha.

Os executivos da empresa, incluindo o presidente, não entenderam o impacto do evento porque não estavam em Nova York no dia dos atentados.

Aos 30 anos, Hans Gernot Schenk vivia o sonho de morar em Nova York e trabalhar nas Torres Gêmeas, edifícios que o fascinavam desde a infância
Aos 30 anos, Hans Gernot Schenk vivia o sonho de morar em Nova York e trabalhar nas Torres Gêmeas, edifícios que o fascinavam desde a infância
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A orientação foi continuar trabalhando como se nada tivesse acontecido. A empresa não entendeu o estado de choque em que estávamos nem o luto.

Em novembro daquele ano, pedi demissão e, em dezembro de 2001, voltei a morar na Alemanha.

Fogos de artifício, aviões e carros

Eu me lembro muito bem do Ano-Novo. A comemoração foi muito estranha. Fui com amigos assistir aos fogos de artifício em Berlim. A sensação foi tão horrível que não comentei com ninguém, mas apenas ouvir as explosões dos fogos era algo tão intenso que eu sequer conseguia olhar para cima. Eu tremia.

Foi a primeira vez que percebi que os atentados tinham tido um efeito psicológico e físico muito forte sobre mim.

Outra coisa que notei foi o nervosismo e a tensão ao viajar de avião. Um voo transatlântico era uma tortura.

Andar de carro, no banco do passageiro, também se tornou muito estressante. Eu fazia o movimento de estar freando como se fosse o motorista.

Em outubro de 2002, viajei para Nova York, no meu aniversário. Foi um mês muito frio. Peguei uma gripe muito, muito forte, como nunca tinha tido antes. E, quando voltei para Berlim, tive uma crise de psoríase, uma condição autoimune que eu não sabia que tinha.

Praticamente todo o meu corpo, exceto as mãos e o rosto, ficou coberto de lesões. Era impressionante. Sem dúvida havia uma relação psicológica com os acontecimentos de 11 de setembro. Esse tipo de condição autoimune pode ser desencadeado pelo estresse quando as defesas do organismo diminuem.

Foi uma época terrível para mim. Eu tinha um novo emprego em uma empresa que se revelou caótica e foi tão difícil lidar com essa crise severa de psoríase que decidi pedir demissão.

Acho que foi aí que percebi que não tinha processado o que aconteceu em 2001.

Hans morou por um semestre recentemente em Nova York. Da esquina de seu apartamento, podia ver o One World Trade Center, o novo edifício do WTC, mais conhecido como Freedom Tower
Hans morou por um semestre recentemente em Nova York. Da esquina de seu apartamento, podia ver o One World Trade Center, o novo edifício do WTC, mais conhecido como Freedom Tower
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

Começou o documentário e eu me joguei no chão do cinema

Em uma das muitas tentativas de compreender tudo aquilo, eu assistia aos documentários sobre o 11 de Setembro que iam surgindo.

Em 2004, quando morava no Rio de Janeiro, decidi ir sozinho ao cinema para assistir a Fahrenheit 9/11 [o documentário de Michael Moore].

Havia apenas uma pessoa sentada cerca de 20 fileiras à minha frente. Eu me sentei em uma das fileiras de trás, perto da parede do fundo.

Hans Gernot Schenk vive atualmente em Miami. É consultor em alianças estratégicas e desenvolvimento de negócios internacionais
Hans Gernot Schenk vive atualmente em Miami. É consultor em alianças estratégicas e desenvolvimento de negócios internacionais
Foto: Hans Gernot Schenk / BBC News Brasil

Eu não estava estressado nem inquieto; estava completamente desprevenido e não percebi que o filme já havia começado porque a tela estava preta, com alguns ruídos ao fundo.

Era uma gravação com áudios do 11 de setembro.

Ao ouvir o som correspondente ao impacto do segundo avião, eu literalmente me joguei no chão entre as poltronas do cinema.

Foi a explosão que vivi naquele dia entre as torres.

Acho que meu cérebro deve ter reconhecido aquela explosão em um nível do qual eu mesmo não tinha consciência, porque o fato de eu ter me jogado no chão dessa maneira, sem racionalizar, em uma fração de milissegundo, deve ter sido uma regressão.

Culpa do sobrevivente

A questão da culpa é muito forte. Eu me sinto sortudo, mas às vezes me sinto culpado porque, apesar de ter vivido experiências tão complicadas, tão difíceis, a vida me deu presentes e continua me apresentando oportunidades.

Tenho momentos de extrema felicidade, de gratidão e de otimismo. E às vezes sinto que isso não é justo. Por que eu sim e por que os outros não?"

Este artigo foi publicado originalmente pela BBC News Mundo, o serviço de notícias da BBC em espanhol, em 9 de setembro de 2021 e atualizado por ocasião do 25º aniversário do 11 de Setembro.

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