Poluição do ar pode agravar doença do olho seco; veja sintomas e como se proteger
Fumaça, poeira e gases poluentes podem prejudicar a lubrificação dos olhos; pesquisa identificou sinais da doença em 25% dos participantes
A poluição do ar pode causar irritação nos olhos e contribuir para o desenvolvimento ou agravamento da doença do olho seco. A exposição frequente à fumaça, poeira, fuligem e gases poluentes prejudica a proteção natural dos olhos, provocando sintomas como ardência, coceira, vermelhidão e sensibilidade à luz.
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Foi algo que a motorista por aplicativo Maíra Mendes, 34, sentiu na pele... ou melhor, nos olhos. Dirigindo todos os dias pelas ruas de São Paulo, ela notou, há pouco mais de três meses, que os olhos ficaram mais secos. A coceira era constante, e o incômodo também. "Parecia um cisco que não saía nunca. Coçava muito, ficava vermelho. Tinha passageiro que até perguntou se eu estava chorando, porque ficava muito esquisito", contou.
A motorista confessa que demorou para procurar atendimento médico. Mas, quando finalmente passou pelo oftalmologista, entendeu que o que tinha era mais comum do que parecia. "Ele falou que eu tinha a doença do olho seco. Aí eu respondi: 'nossa, mas na infância não tinha isso. Tem cura?'. O médico foi super paciente, perguntou se eu ficava muito tempo exposta a ar-condicionado ou mesmo à poluição da cidade. E explicou que, apesar do nome 'doença', é algo que pode acontecer com qualquer pessoa e que tem cura e que isso em cidades maiores é mais frequente", disse.
A médica oftalmologista Patrícia Mencaroni, da Lumini Oftalmologia, explica que, de fato, a poluição pode provocar inflamações e alterar o funcionamento das lágrimas, responsáveis por manter os olhos lubrificados e protegidos.
"Ele também acaba desestabilizando o filme lacrimal, que é aquela camadinha de lágrima que protege o nosso olho. Então o olho acaba secando mais rápido, ou até produzindo lágrimas de pior qualidade", afirma a médica, ao explicar os efeitos do ar poluído.
Isso acontece porque o olho possui uma fina camada de lágrimas que funciona como uma barreira de proteção. Quando essa camada perde a estabilidade, as lágrimas podem evaporar mais rapidamente, deixando a superfície ocular exposta à irritação.
Um estudo publicado em 2022 na revista Arquivos Brasileiros de Oftalmologia identificou sintomas graves ou diagnóstico anterior de olho seco em 24,4% dos 582 adultos entrevistados na zona leste de São Paulo. A proporção foi de 26,9% entre mulheres e 18,2% entre homens. Os pesquisadores, porém, não avaliaram diretamente a influência da poluição sobre os participantes.
A relação entre poluição e olho seco também aparece em estudos internacionais. Uma análise publicada em janeiro de 2026, com participação de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), reuniu pesquisas sobre os efeitos da poluição e das condições ambientais na saúde dos olhos.
Os resultados indicam que a exposição aos poluentes está associada a uma maior frequência de sintomas e alterações nas lágrimas. Os autores ressaltam, no entanto, que ainda são necessários mais estudos para determinar com precisão o quanto a poluição contribui para o surgimento da doença.
Quais são os sintomas do olho seco?
Segundo Patrícia, os sinais mais comuns são ardência, coceira, vermelhidão, sensação de areia nos olhos e incômodo com a claridade.
A doença não significa necessariamente que os olhos deixaram de produzir lágrimas. Em muitos casos, o organismo continua produzindo lágrimas, mas elas não conseguem manter a superfície dos olhos adequadamente protegida.
O problema também pode estar relacionado a outros fatores, como envelhecimento, alterações hormonais, uso prolongado de telas e permanência em ambientes com ar-condicionado.
As mulheres apresentam maior frequência da doença em diversos estudos. Uma das possíveis explicações está nas alterações hormonais, que podem influenciar a quantidade e a qualidade das lágrimas, especialmente em determinadas fases da vida, como a menopausa.
As mudanças hormonais e os cuidados necessários nessa fase também são abordados em uma reportagem sobre menopausa e saúde ocular.
Como proteger os olhos da poluição?
Reduzir o contato com a poluição é uma das principais recomendações, embora isso nem sempre seja possível para quem vive em grandes cidades.
Patrícia orienta adotar cuidados também dentro de casa e no ambiente de trabalho. Entre eles, reduzir o tempo diante das telas e evitar a exposição prolongada ao ar-condicionado, que diminui a umidade do ambiente.
"As telas também desestabilizam bastante o filme lacrimal, por a gente piscar menos", explica.
O uso de umidificadores pode ajudar em ambientes muito secos. Colírios lubrificantes, conhecidos como lágrimas artificiais, também são uma alternativa para aliviar o desconforto, desde que sejam adequados às necessidades de cada paciente.
"Hoje em dia existem muitos lubrificantes, principalmente sem conservantes, que podem ser usados", afirma a oftalmologista.
A médica alerta que os sintomas persistentes exigem atenção. Embora o ressecamento possa causar apenas desconforto em alguns casos, também existem situações em que a superfície dos olhos apresenta lesões que precisam de tratamento específico.
"Às vezes, está usando lubrificante ou tentando usar um umidificador, fazendo todas essas outras medidas, e isso não passa. Pode não ser um simples ressecamento do olho; já pode ter alguma gravidade maior, alguma lesão de córnea, algo mais sério a ser investigado", alerta.
Se a irritação continuar ou voltar com frequência, a recomendação é procurar um oftalmologista para identificar a causa e definir o tratamento adequado.
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