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O mito da força de vontade — e por que algumas pessoas têm mais dificuldade para perder peso

Segundo especialistas, milhares de genes influenciam o peso corporal, o que faz com que a perda de peso não ocorra da mesma forma para todas as pessoas.

6 jan 2026 - 07h37
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A ideia de que a obesidade é apenas uma questão de força de vontade é defendida por muitas pessoas, inclusive por alguns profissionais de saúde
A ideia de que a obesidade é apenas uma questão de força de vontade é defendida por muitas pessoas, inclusive por alguns profissionais de saúde
Foto: BBC News Brasil

"Pessoas gordas só precisam de mais autocontrole." "É uma questão de responsabilidade pessoal." "É simples, basta comer menos."

Esses foram alguns dos 1.946 comentários publicados por leitores, abaixo de um artigo que escrevi em 2025 sobre injeções para perda de peso.

A ideia de que a obesidade é apenas uma questão de força de vontade é defendida por muitas pessoas, inclusive por alguns profissionais de saúde.

De acordo com um estudo realizado com pessoas do Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos, publicado na revista médica The Lancet, 8 em cada 10 pessoas afirmaram que a obesidade poderia ser totalmente impedida apenas por meio de escolhas de estilo de vida.

Mas Bini Suresh, nutricionista com 20 anos de experiência com pacientes obesos e com sobrepeso, diz ficar indignada com essa ideia.

Isso, acredita ela, é apenas uma fração do quadro completo.

"Vejo com frequência pacientes altamente motivados, bem informados e que se esforçam de forma consistente, mas ainda assim enfrentam dificuldades para controlar o peso", afirma.

"Termos como 'força de vontade' e 'autocontrole' são inadequados", concorda a médica Kim Boyd, diretora médica do Vigilantes do Peso. "Durante décadas, as pessoas ouviram que bastava comer menos e se exercitar mais para emagrecer… [Mas] a obesidade é muito mais complexa."

Ela e outros especialistas ouvidos pela reportagem apontam que há inúmeras razões pelas quais uma pessoa pode ser obesa; algumas ainda não totalmente compreendidas. O que já está claro, porém, é que não se trata de um jogo com condições iguais para todos.

O governo do Reino Unido recorreu à regulação para tentar enfrentar o problema.

A medida mais recente, a proibição de publicidade de alimentos não saudáveis (com alto teor de açúcar, sal ou gordura, por exemplo) na televisão antes das 21h e, de forma integral, em plataformas online, entrou em vigor nesta semana.

Ainda assim, muitos acreditam que isso não será suficiente para combater o que hoje é um problema de obesidade de grandes proporções no Reino Unido — um problema que afeta mais de 1 em cada 4 adultos.

Esperar que o controle e a manutenção do peso dependam exclusivamente de força de vontade é irrealista e injusto, afirma Bini Suresh, chefe do departamento de nutrição da Cleveland Clinic, em Londres
Esperar que o controle e a manutenção do peso dependam exclusivamente de força de vontade é irrealista e injusto, afirma Bini Suresh, chefe do departamento de nutrição da Cleveland Clinic, em Londres
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Uma batalha contra a biologia

"A quantidade de peso que as pessoas ganham é significativamente influenciada pelos genes, e esses genes são relevantes para todos", explica a professora Sadaf Farooqi, endocrinologista que trata pacientes com obesidade mórbida e distúrbios endócrinos e lidera o Estudo Genético da Obesidade, da Universidade de Cambridge (Reino Unido).

Ela afirma que determinados genes afetam os circuitos cerebrais que regulam a fome e a saciedade em resposta aos sinais enviados pelo estômago ao cérebro.

"Variantes ou alterações nesses genes são encontradas em pessoas com obesidade, o que faz com que sintam mais fome e tenham menor probabilidade de se sentirem saciadas após comer."

A obesidade pode levar a doenças cardíacas, derrame, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer
A obesidade pode levar a doenças cardíacas, derrame, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer
Foto: In Pictures via Getty Images / BBC News Brasil

Talvez o mais importante desses genes — ao menos entre os que são conhecidos até agora — seja o MC4R. Uma mutação nesse gene, que estimula a alimentação excessiva e reduz a sensação de saciedade, está presente em cerca de um quinto (20%) da população mundial.

"Outros genes afetam o metabolismo — a velocidade com que queimamos energia", acrescenta Farooqi, da Universidade de Cambridge.

"Isso significa que algumas pessoas ganham mais peso e armazenam mais gordura ao consumir a mesma quantidade de alimento do que outras, ou queimam menos calorias quando se exercitam."

Farooqi estima que provavelmente existam milhares de genes que influenciam o peso corporal e que apenas cerca de 30 a 40 deles são atualmente conhecidos em detalhe.

"É por isso que os medicamentos para perda de peso que estão chegando ao mercado são tão eficazes e tão importantes: eles ajudam a combater esse mecanismo", afirma.

A ciência por trás do efeito sanfona

Ainda assim, isso é apenas parte da história.

Andrew Jenkinson, cirurgião bariátrico e autor de Why We Eat Too Much (Por que Comemos Demais, em tradução livre), explica que cada pessoa tem um peso determinado que o cérebro reconhece ou considera ideal, independentemente de ser um peso saudável ou não.

Esse conceito é conhecido como teoria do set point.

"Esse [peso corporal determinado] é definido pela genética, mas também por outros fatores, como o ambiente alimentar, o nível de estresse e o padrão de sono", afirma.

Segundo a teoria, o peso corporal funciona como um termostato: o organismo tenta manter-se dentro dessa faixa determinada, considerada a ideal. Se o peso cai abaixo desse "ponto de ajuste" (set point), a fome aumenta e o metabolismo desacelera, da mesma forma que um termostato eleva a temperatura quando o ambiente esfria.

Uma vez estabelecido esse peso determinado, argumenta Jenkinson, é muito difícil alterá-lo apenas com força de vontade.

Isso também ajuda a explicar o chamado efeito sanfona das dietas. "Por exemplo, se você pesa cerca de 127 kg e o seu cérebro entende que esse é seu peso ideal, ao iniciar uma dieta de baixas calorias e perder cerca de 12 kg, a reação do seu corpo é exatamente a mesma de quando você passa fome", diz.

Algumas pessoas ganham mais peso e armazenam mais gordura ao consumir a mesma quantidade de alimento do que outras, disse Farooqi, que lidera o "Genetics of Obesity Study", sediado na University of Cambridge. Segundo ela, é provável que existam milhares de genes que influenciam o peso
Algumas pessoas ganham mais peso e armazenam mais gordura ao consumir a mesma quantidade de alimento do que outras, disse Farooqi, que lidera o "Genetics of Obesity Study", sediado na University of Cambridge. Segundo ela, é provável que existam milhares de genes que influenciam o peso
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Ela vai provocar uma reação de apetite voraz, comportamento de busca por comida e metabolismo lento", acrescenta. "Esses sinais de fome são extremamente fortes. São tão fortes quanto o sinal de sede, existem para nos ajudar a sobreviver. Um apetite voraz é algo realmente muito difícil de ignorar."

Quanto à base científica desse processo, Jenkinson aponta para o papel da leptina, um hormônio produzido pelas células de gordura. "Ela funciona como um sinal para o hipotálamo, a parte do cérebro que basicamente controla o ponto de ajuste do seu peso, para dizer quanta energia o corpo tem armazenada.

"O hipotálamo analisa o nível de leptina e, se parecer que estamos armazenando energia ou gordura em excesso, ele altera automaticamente nosso comportamento, reduzindo o apetite e aumentando o metabolismo."

Ao menos, é assim que a leptina deveria funcionar. Muitas vezes, ela falha, sobretudo no ambiente alimentar ocidental, explica ele.

Um relatório publicado no ano passado pela The Food Foundation também apontou que alimentos mais saudáveis custam mais do que o dobro por caloria em comparação aos menos saudáveis
Um relatório publicado no ano passado pela The Food Foundation também apontou que alimentos mais saudáveis custam mais do que o dobro por caloria em comparação aos menos saudáveis
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Isso ocorre porque o sinal da leptina compartilha uma via de sinalização com a insulina. "Portanto, se os níveis de insulina estão altos demais, isso acaba diluindo o sinal da leptina, e o cérebro deixa de perceber quanta gordura está armazenada."

A boa notícia é que esse ponto de ajuste não é fixo, ele pode se deslocar gradualmente por meio de mudanças sustentadas no estilo de vida, melhora do sono, redução do estresse e adoção de hábitos saudáveis de longo prazo.

Assim como ao reajustar um termostato, ajustes lentos e consistentes, ao longo do tempo, podem ajudar o corpo a aceitar uma nova faixa mais saudável.

Obesidade no Reino Unido: a tempestade perfeita

Nada disso explica sozinho o aumento da obesidade em países como o Reino Unido. Afinal, nossos genes e a constituição biológica do corpo humano não mudaram.

A proporção de adultos classificados como com sobrepeso ou obesidade aumentou de forma constante na última década. A análise de 2025 da Health Foundation, entidade filantrópica de serviços de saúde do Reino Unido, indica que mais de 60% dos adultos do Reino Unido agora se enquadram nessa categoria (incluindo cerca de 28% considerados obesos).

Parte disso se deve ao enorme volume e acessibilidade de alimentos de baixa qualidade e alto teor calórico, em especial os ultraprocessados. Somam-se a isso o marketing e a publicidade agressivos de fast food e bebidas açucaradas, o aumento do tamanho das porções e as oportunidades limitadas para a prática de atividades físicas (muitas vezes em razão do planejamento urbano ou da falta de tempo), e temos uma tempestade perfeita.

O governo introduziu uma proibição à publicidade de determinados alimentos não saudáveis na televisão antes das 21h, além de um banimento total das promoções online
O governo introduziu uma proibição à publicidade de determinados alimentos não saudáveis na televisão antes das 21h, além de um banimento total das promoções online
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"[Como resultado] nos tornamos uma população mais obesa e, claro, aqueles com maior propensão genética a ganhar peso acabaram ganhando", disse Farooqi, da Universidade de Cambridge.

Especialistas em saúde pública se referem a esse quadro como ambiente obesogênico, termo usado pela primeira vez nos anos 1990, quando pesquisadores passaram a relacionar o aumento das taxas de obesidade a fatores externos, como disponibilidade de alimentos, marketing e planejamento urbano.

Em conjunto, argumentam muitos especialistas, esses fatores criam estímulos e pressões constantes que levam a alimentação excessiva e ao sedentarismo, significando que até pessoas altamente motivadas têm dificuldade para manter um peso saudável.

Tudo isso também ajuda a explicar por que a força de vontade se tornou um termo cada vez mais carregado de significado.

O debate sobre responsabilidade individual

Sentada em seu escritório na Administração Municipal de Newcastle (Reino Unido), a diretora de saúde pública Alice Wiseman vê comida por todo lado. "Há cafeterias, padarias e restaurantes de comida para viagem. Você não consegue ir à escola ou ao trabalho sem passar por um lugar que venda comida."

"A visibilidade importa. Se você passa por muitos pontos de comida para viagem no caminho para o trabalho, é mais provável que compre algo. O corpo quase reage à comida ao seu redor", diz Wiseman.

Em Gateshead, onde ela também é diretora no sistema público de saúde, nenhuma autorização de planejamento urbano foi concedida para novos estabelecimentos de venda de comida para viagem desde 2015.

Mas no restante do país, o setor de fast food e de refeições para viagem continuou a crescer, movimenta mais de £ 23 bilhões por ano (cerca de R$ 145 bilhões).

E os gastos com publicidade de alimentos no Reino Unido são dominados por produtos ricos em gordura, sal e açúcar, como doces, bebidas açucaradas, fast food e lanchinhos, segundo o mais recente Ofcom Communications Market Report.

O setor de fast food e de refeições para viagem continuou a crescer, movimenta mais de £ 23 bilhões por ano (cerca de R$ 145 bilhões)
O setor de fast food e de refeições para viagem continuou a crescer, movimenta mais de £ 23 bilhões por ano (cerca de R$ 145 bilhões)
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas Wiseman, que é vice-presidente da Association of Directors of Public Health (Associação de Diretores do Sistema de Saúde Pública, em tradução livre), avalia que as novas medidas anunciadas para restringir a publicidade de junk food — ou, oficialmente, "less healthy food" (alimentos menos saudáveis, em tradução livre) — terão alcance limitado.

Um relatório publicado no ano passado pela The Food Foundation também apontou que alimentos mais saudáveis custam mais do que o dobro por caloria em comparação aos menos saudáveis.

"Em famílias onde o dinheiro é curto, é difícil arcar com uma alimentação saudável", diz Wiseman.

"Não estou dizendo que a responsabilidade individual não tenha um papel. Mas, quando se pensa bem, é preciso perguntar: o que mudou? Nós não perdemos força de vontade de repente."

A nutricionista Bini Suresh concorda. "Vivemos em um ambiente projetado para o consumo excessivo."

"A obesidade não é uma falha de caráter. É uma condição complexa e crônica, moldada pela biologia e por um ambiente altamente obesogênico. Força de vontade, por si só, não é suficiente, e enquadrar a perda de peso apenas como uma questão de disciplina causa danos."

No entanto, outros têm uma leitura diferente do termo "força de vontade".

O professor Keith Frayn, autor de A Calorie is a Calorie (Uma Caloria é uma Caloria, em tradução livre) concorda que muitas pessoas hoje com sobrepeso provavelmente não estariam nessa condição há 40 anos. "Foi o ambiente que mudou, não a força de vontade delas nem qualquer outra coisa", afirma.

Ele acrescenta: "Tenho receio de que descartar a 'força de vontade' torne fácil demais se resignar a um peso que talvez não seja o desejado ou o melhor para a saúde".

Frayn cita grandes bases de dados de pessoas que conseguiram perder peso e manter a redução, como o National Weight Control Registry, nos EUA, que reúne mais de 10 mil participantes. "Essas pessoas descrevem tanto a perda de peso quanto a manutenção do peso como 'difíceis', sendo o segundo ainda mais difícil do que o primeiro…".

"Eu diria que, se você dissesse a essas pessoas que força de vontade não tem nada a ver com isso, elas ficariam bastante ofendidas", diz Frayn.

'Não se legisla pessoas para a boa forma'

O debate mais amplo, naturalmente, é até que ponto o Estado deve assumir responsabilidade.

Wiseman avalia que a regulação é uma ferramenta importante no enfrentamento da obesidade argumentando que promoções como leve um, pague dois estimulam compras por impulso. Já Gareth Lyon, chefe da área de saúde e assistência social do think tank de direita (centro de estudos e debates) Policy Exchange, argumenta que mais legislação não é o caminho.

"Não se legisla pessoas para a boa forma", diz.

"As proibições e impostos sobre alimentos que as pessoas gostam de comer só tornam a vida mais difícil, menos prazerosa e mais cara, em um momento em que o Reino Unido já enfrenta dificuldades com o custo de vida."

Christopher Snowdon, diretor de economia do estilo de vida no Institute of Economic Affairs, outro think tank de direita, também considera que a obesidade é um "problema individual", e não de saúde pública.

"[A obesidade] decorre das escolhas feitas por esse indivíduo", argumenta. "Em última instância, não dá para ir muito além do indivíduo. Acho bastante bizarra a ideia de que seja responsabilidade do governo fazer as pessoas emagrecerem".

"Eu gostaria de ver uma avaliação independente e rigorosa dessas políticas e, se elas não estão funcionando, que sejam revogadas."

O debate mais amplo, naturalmente, é até que ponto o Estado deve assumir responsabilidade
O debate mais amplo, naturalmente, é até que ponto o Estado deve assumir responsabilidade
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Quanto à força de vontade, ela sempre desempenhará algum papel — o que varia é o tamanho desse papel na avaliação de especialistas.

Suresh avalia que a força de vontade é apenas uma parte de um quadro mais amplo. E que o primeiro passo é informar as pessoas sobre quais outros fatores estão em jogo.

"Essa perspectiva muda o foco de um julgamento moral sobre força de vontade para um sistema de apoio compassivo, baseado na ciência, que, em última instância, oferece melhores chances de sucesso no longo prazo."

Existem também maneiras de fortalecer a força de vontade, argumenta a psicóloga Eleanor Bryant, da Universidade de Bradford (Reino Unido). "Ela não é constante o tempo todo. É influenciada pelo seu humor, pelo nível de cansaço e, no caso da alimentação, pelo nível de fome que sente."

O que também importa é a forma como se pensa sobre isso. Existem dois tipos de força de vontade: flexível e rígida. Quem tem força de vontade rígida vê as coisas como preto no branco. "Se você cede à tentação, basicamente se entrega. Você come aquele biscoito e continua comendo."

Em termos psicológicos, isso é conhecido como alimentação desinibida. "Já a pessoa flexível diz: 'Ok, comi um biscoito… mas vou parar por aqui'", explica Bryant. "Não é preciso dizer que a flexibilidade é muito mais bem-sucedida."

Ela acrescenta: "Exercer força de vontade em relação à comida provavelmente é mais difícil do que em outras áreas [da vida]."

Suresh concorda, mas afirma que, quando as pessoas compreendem os limites da força de vontade, a capacidade de exercê-la tende, na prática, a se fortalecer.

"Quando esses pacientes entendem que sua dificuldade tem raízes biológicas, e não na falta de disciplina, e passam a contar com apoio baseado em nutrição estruturada, padrões regulares de alimentação, estratégias psicológicas e metas realistas, a relação deles com a comida melhora de forma significativa."

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