Diabetes e saúde dos pés: cuidados diários simples podem prevenir feridas, infecções e complicações graves
A rotina de cuidados com os pés em pessoas com diabetes deixou de ser apenas uma recomendação médica para se tornar uma medida de segurança diária. Veja cuidados simples na prevenção do quadro.
A rotina de cuidados com os pés em pessoas com diabetes deixou de ser apenas uma recomendação médica para se tornar uma medida de segurança diária. Afinal, especialistas em endocrinologia e angiologia apontam que a atenção preventiva reduz de forma importante o risco de úlceras, infecções e amputações, hoje ainda registradas em hospitais públicos e privados no Brasil. Ao mesmo tempo, orientações atualizadas da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e do Ministério da Saúde reforçam que medidas simples, feitas em casa, têm impacto direto na preservação da mobilidade e da qualidade de vida.
O ponto central desse cuidado está na combinação entre glicemia descontrolada, alterações nos nervos e prejuízo da circulação sanguínea. Na prática, isso significa que o excesso de açúcar no sangue pode comprometer a sensibilidade dos pés. Ao mesmo tempo, dificultar que o organismo cicatrize feridas. Assim, pequenas bolhas, calos ou cortes, que em outras pessoas seriam apenas incômodos passageiros, em quem tem diabetes podem progredir silenciosamente, sem dor, até quadros mais graves.
Como o diabetes afeta os nervos e a circulação dos pés?
Quando a glicose permanece elevada por meses ou anos, passa a agredir as fibras nervosas, principalmente nas extremidades, fenômeno conhecido como neuropatia periférica diabética. Assim, essa alteração reduz a capacidade de perceber dor, calor, frio e pressão, sobretudo na planta dos pés e nos dedos. Com o tempo, o pé deixa de "avisar" sobre um sapato apertado, uma pedrinha dentro do tênis ou uma queimadura provocada por água muito quente. Ou seja, isso favorece pequenas lesões sem que a pessoa note.
Paralelamente, o diabetes também compromete vasos sanguíneos de médio e pequeno calibre, prejudicando a circulação das pernas e dos pés. A chamada doença arterial periférica diminui a chegada de oxigênio e nutrientes aos tecidos, o que torna a cicatrização mais lenta e frágil. Portanto, a combinação de neuropatia e má circulação cria terreno para feridas que demoram a fechar, abrem novamente ou se infectam com facilidade, exigindo cuidados especializados e, em alguns casos, internação hospitalar.
Por que pequenas bolhas podem virar úlceras e infecções graves?
No pé diabético, uma bolha provocada por atrito do calçado, um corte discreto ao aparar as unhas ou uma rachadura no calcanhar não tratados podem evoluir para úlceras. Assim, sem dor para alertar, a pessoa continua caminhando sobre aquela região machucada, aumentando a pressão e a ruptura da pele. Com a pele aberta, bactérias encontram um ponto de entrada e podem desencadear infecções locais. Segundo relatos de serviços públicos de referência, elas ainda são causa frequente de atendimento de urgência.
Protocolos da SBD e do Ministério da Saúde indicam que, em presença de neuropatia e circulação comprometida, essas infecções podem se disseminar mais rapidamente, atingindo camadas profundas, tendões e até ossos (osteomielite). Nesses cenários, o tratamento tende a ser mais complexo. Afinal, exige antibióticos por períodos prolongados, curativos especializados e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos. Por esse motivo, diretrizes oficiais enfatizam a importância de detectar qualquer alteração nos pés o mais cedo possível, antes que a lesão se torne extensa.
Quais cuidados diários com os pés a SBD e o Ministério da Saúde recomendam?
As orientações atuais de cuidado com os pés em pessoas com diabetes seguem um padrão semelhante em materiais educativos da SBD, do Ministério da Saúde e de programas de atenção primária. A principal mensagem é que o exame e a proteção dos pés devem ser incorporados à rotina, como escovar os dentes ou medir a glicemia. O passo a passo abaixo resume práticas consideradas essenciais.
Passo a passo prático de cuidados diários
As recomendações podem ser organizadas em etapas simples, que ajudam a manter um padrão diário de vigilância e proteção dos pés:
- Inspeção visual completa
- Observar todos os dias a parte de cima, a planta, os calcanhares e entre os dedos.
- Usar um espelho para enxergar a sola dos pés ou pedir ajuda a outra pessoa, se necessário.
- Procurar sinais como vermelhidão, bolhas, cortes, rachaduras, calos escurecidos, unhas encravadas ou áreas mais quentes ou frias.
- Higiene cuidadosa
- Lavar os pés diariamente com água morna e sabonete neutro, sem esfregar com força.
- Checar a temperatura da água com o cotovelo ou termômetro, devido à possível perda de sensibilidade.
- Enxugar bem, especialmente entre os dedos, para reduzir a umidade e o risco de fungos.
- Hidratação adequada da pele
- Aplicar hidratante nas plantas e no dorso dos pés para evitar ressecamento e rachaduras.
- Evitar passar creme entre os dedos, pois o excesso de umidade nessa região favorece infecções fúngicas.
- Corte correto das unhas
- Cortar as unhas em linha reta, sem arredondar demais os cantos, reduzindo o risco de encravamento.
- Usar tesouras ou alicates bem limpos, preferencialmente em ambiente iluminado.
- Nos casos de dificuldade visual, mobilidade reduzida ou presença de deformidades, seguir a indicação da SBD e do Ministério da Saúde para corte por profissional capacitado, como podólogo treinado em pé diabético ou enfermeiro.
- Escolha de calçados apropriados
- Priorizar sapatos fechados, confortáveis, com espaço adequado para os dedos e sem costuras internas salientes.
- Verificar o interior do calçado antes de calçar, em busca de objetos, pregos, dobras ou partes desgastadas.
- Dar preferência a meias de algodão, sem costuras grossas ou elásticos apertados, trocando-as diariamente.
- Evitar andar descalço, inclusive dentro de casa, para diminuir o risco de cortes, perfurações ou queimaduras.
- Controle metabólico e acompanhamento regular
- Manter o acompanhamento com a equipe de saúde para ajustar tratamento do diabetes, pressão e colesterol, fatores diretamente ligados à circulação e ao risco de lesões.
- Realizar avaliação dos pés em consultas periódicas, incluindo testes de sensibilidade (monofilamento) e exame da circulação, conforme recomendado em protocolos da SBD.
Quando buscar ajuda profissional imediatamente?
Protocolos de atenção ao pé diabético orientam a procurar serviço de saúde assim que forem percebidos sinais como ferida que não melhora em poucos dias, secreção, odor forte, inchaço, mudança de cor da pele, áreas muito quentes ou frias, dor súbita (mesmo em quem já tinha sensibilidade reduzida) ou febre associada a lesão nos pés. A indicação é não aguardar a piora espontânea, pois intervenções precoces aumentam a chance de preservar o tecido saudável.
Nesse contexto, os cuidados com os pés em pessoas com diabetes funcionam como uma parceria entre rotina doméstica e acompanhamento profissional. A adoção diária de medidas simples, orientadas por diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes e do Ministério da Saúde, favorece a identificação rápida de alterações e contribui para reduzir o impacto das complicações, mantendo autonomia, mobilidade e segurança na vida cotidiana.
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