Cidadão francês retirado de navio atingido por surto de hantavírus apresentou sintomas ao ser repatriado
Informação foi compartilhada pelo primeiro-ministro francês, Sebastián Lecornu, que também afirmou que todos os cinco passageiros desembarcados e levados à França seriam "imediatamente colocados em isolamento rigoroso até segunda ordem".
Um passageiro do navio de cruzeiro atingido por um surto de hantavírus, que aportou neste domingo (10/5) nas Ilhas Canárias, apresentou sintomas da doença enquanto era repatriado para a França.
O primeiro-ministro francês, Sebastián Lecornu, informou que um dos cinco cidadãos do país desembarcados do MV Hondius desenvolveu sintomas durante um voo fretado de Tenerife para Paris.
Por conta disso, todos os cinco foram "imediatamente colocados em isolamento rigoroso até segunda ordem".
Eles estão entre os mais de 90 turistas que foram retirados do navio holandês no domingo depois de a embarcação ancorar perto de Tenerife antes do amanhecer.
Três passageiros morreram após viajarem no navio, dois dos quais tiveram a infecção pelo vírus confirmada.
Mais cedo, a ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, havia afirmado que a operação de desembarque prosseguia "normalmente" e que todos os passageiros a bordo do MV Hondius permaneciam assintomáticos.
O Hondius atracou no porto de Granadilla antes do amanhecer de domingo, um mês após a morte do primeiro passageiro a bordo.
O desembarque começou por volta das 5h30 da manhã (horário de Brasília), segundo o Ministério da Saúde local. Algumas horas antes, equipes médicas entraram no navio para verificar se os passageiros apresentavam sintomas.
Ao redor da embarcação, era possível ver barcos da polícia militar em patrulha e uma grande operação em andamento em terra para ajudar os mais de 100 passageiros e tripulantes a desembarcar.
Eles foram divididos em grupos por nacionalidade e transportados para a costa em pequenas embarcações.
De lá, aviões fretados partiram da pista do aeroporto local para repatriá-los a seus países de origem.
Antes de embarcarem nas aeronaves, os passageiros tiveram que vestir trajes de proteção especiais e passaram por outros procedimentos de segurança.
O primeiro grupo autorizado a desembarcar tinha 14 cidadãos espanhóis, que foram transportados para Madri e cumprem quarentena obrigatória em um hospital militar.
Não está claro por quanto tempo ficarão em isolamento — o vírus tem um período de incubação de até nove semanas.
Voos para cidadãos turcos, irlandeses e americanos também estão programados para este domingo.
O último está previsto para segunda-feira, com destino à Austrália. Não há registro de brasileiros entre os passageiros.
Preparativos da operação
Foram feitos preparativos meticulosos para receber o navio, que não teve permissão para atracar na costa: um perímetro de segurança de uma milha náutica foi imposto ao redor da embarcação enquanto ela se aproximava da ilha.
Dezenas de especialistas em terapia intensiva estavam de prontidão no hospital Candelaria, em Tenerife, caso algum passageiro apresentasse sintomas graves durante a transferência.
Uma unidade de isolamento tinha sido preparada com um leito totalmente equipado para lidar com doenças infecciosas, com kit de teste e ventilador.
"Estamos absolutamente prontos", disse o médico-chefe da terapia intensiva, Mar Martin, na unidade, onde um grande número de trajes de proteção, máscaras e luvas já estava estocado para a equipe.
"Nunca vimos [hantavírus] antes — mas é um vírus, com algumas complicações, assim como lidamos todos os dias. Estamos totalmente treinados para isso."
A complexa operação para impedir a propagação da rara cepa deste vírus foi descrita pela ministra da Saúde da Espanha como "sem precedentes".
No sábado, ela enfatizou que o risco de contágio para a população em geral era baixo.
"Acreditamos que o alarmismo, a desinformação e a confusão são contrários aos princípios básicos da preservação da saúde pública."
As medidas de segurança no porto, uma instalação industrial no sul de Tenerife, aumentaram consideravelmente no sábado. A polícia militar espanhola e as equipes de resposta a desastres montaram grandes tendas de recepção e o acesso à orla está restrito.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, que foi a Tenerife para supervisionar o desembarque, elogiou as autoridades pela sua "resposta sólida e eficaz" ao surto.
A principal hipótese das autoridades é que ele tenha começado com dois passageiros que estiveram em um aterro sanitário no extremo sul da Argentina para observação de pássaros.
O vírus é transportado por roedores e é raro que seja transmitido entre pessoas.
Uma das vítimas é uma mulher holandesa que desembarcou do MV Hondius durante sua escala na ilha de Santa Helena, no dia 24 de abril.
Ela compartilhava a cabine com seu marido, que também estava a bordo e morreu antes dela.
Em uma carta aberta, o diretor-geral da OMS tentou tranquilizar os moradores de Tenerife, que estavam apreensivos com a chegada da embarcação.
"A sua preocupação é legítima, devido à experiência com a covid: esse trauma ainda está nas nossas mentes", reconheceu, acrescentando que o risco de contágio mais amplo é agora baixo "devido à forma como o vírus funciona e à forma como o governo espanhol se preparou para evitar qualquer problema".
Quando o desembarque nas Ilhas Canárias foi anunciado, parte da população local reagiu com revolta.
Na sexta-feira (08/05), um grupo de trabalhadores portuários se reuniu em frente ao Parlamento local em um protesto ruidoso. Eles estavam preocupados com o fato de as medidas de segurança não serem suficientemente rigorosas.
Na noite de sábado, todos os planos cuidadosamente elaborados foram brevemente lançados ao caos quando o presidente das Ilhas Canárias, Fernando Clavijo, disse que se recusaria a permitir a entrada do navio no porto, pois o desembarque não poderia ser feito em um único dia. O governo central em Madri teve que intervir.
Clavijo então afirmou na TV que um rato portador do hantavírus poderia "escapar do navio no meio da noite e colocar em risco a população das Ilhas Canárias".
O secretário de saúde teve que vir a público e insistir que tal cenário "não representava um risco".
Mas de forma geral, as pessoas na ilha parecem tranquilas com o baixo risco.
"O vírus é perigoso, claro. Mas dizem que é preciso ter contato muito próximo para contraí-lo", disse-me uma mulher chamada Jennifer, enquanto caminhava com seu filho em Santa Cruz, capital de Tenerife.
"Se formos cuidadosos, esperamos que não seja muito sério."
Nem todos desembarcarão em Tenerife: cerca de 30 tripulantes permanecerão a bordo para levar o navio de cruzeiro de volta à Holanda.
Mas para a maioria, finalmente há um fim à vista para as semanas de medo e incerteza no mar.
Agora começam as longas semanas de quarentena.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.