A mulher que descobriu câncer no cérebro depois que mala caiu na sua cabeça
Lauren Macpherson estava voltando para casa depois de um festival em Londres quando sua vida mudou para sempre
Lauren Macpherson tinha acabado de passar o feriado em um festival de música em Londres quando um acidente incomum no trem de volta terminou com a descoberta de que ela talvez tivesse apenas uma década de vida.
A viagem foi planejada como a "primeira de muitas" celebrações para a jovem de 29 anos: ela havia acabado de ser promovida no trabalho e comprado sua primeira casa com o namorado, Zak.
Mas, quando uma mala de 16 kg caiu do compartimento superior e atingiu sua cabeça durante o trajeto de volta para Cardiff, no País de Gales, o incidente acabou levando à descoberta de um câncer cerebral terminal.
Depois de ser retirada do trem e levada ao hospital para fazer uma tomografia a fim de verificar se não havia fraturado a coluna, os médicos identificaram uma sombra em seu cérebro.
"É como se o chão simplesmente desaparecesse sob seus pés. Você não sabe o que fazer, é horrível", disse Macpherson, que foi informada de que pode viver entre 10 e 12 anos.
O impacto da mala causou muito inchaço, por isso Macpherson foi retirada do trem ainda na cidade de Swindon para fazer os primeiros exames.
Dois dias depois, já em Cardiff, fez uma ressonância magnética, que indicou que se tratava provavelmente de um tumor no cérebro.
Macpherson disse que, no ano anterior ao acidente, vinha enfrentando sintomas de desregulação emocional e fadiga extrema, mas que isso havia sido atribuído a hormônios ou a um transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ainda não diagnosticado.
Ela contou que procurou seu clínico geral três vezes para fazer diferentes exames, pois também estava tendo problemas intestinais e desmaios.
A fadiga era tão intensa que Macpherson precisou reduzir para meio período sua jornada de trabalho como técnica em cardiografia, para conseguir conciliar o emprego com os estudos de mestrado.
Quando os médicos falaram da sombra vista na tomografia, Macpherson disse que "soube na hora".
"Existe um instinto dentro de você e, quando você vem se sentindo mal, tudo simplesmente passa a fazer sentido", acrescentou.
"É quase como um alívio. Você pensa que está ficando louca, com todas essas coisas dando errado. Para ser sincera, eu era bastante ingênua… Eu estava preocupada, mas naquele momento não estava com medo."
"Eu não pensei que fosse incurável. Apenas pensei: 'Eles encontraram, agora podem tirar'."
A consulta seguinte com o especialista ocorreu um mês depois, quando a gravidade do diagnóstico ficou clara.
Os médicos suspeitavam que ela tivesse glioblastoma, um tumor de crescimento rápido que poderia significar apenas dois anos de vida.
"Não esperávamos isso de jeito nenhum. Então a ficha caiu e é quando você pensa: 'Meu Deus, pode ser que eu tenha só dois anos'."
Macpherson foi informada de que precisaria passar por uma cirurgia para retirar o tumor, mas a espera pelo procedimento no NHS (sistema público de saúde britânico) levaria cerca de quatro meses.
Em vez disso, ela entrou em contato com uma clínica privada usando o plano de saúde de Zak, o que reduziu o tempo de espera para três semanas.
Um porta-voz do serviço público de saúde disse que os pacientes são avaliados "de acordo com a sua necessidade clínica" e que os casos de câncer são priorizados para "garantir que recebam cirurgia e tratamento o mais rapidamente possível".
E acrescentou: "No caso de Macpherson, isso teria sido organizado logo após ela ser considerada apta e concluir os exames pré-operatórios. No entanto, Macpherson acabou decidindo buscar tratamento de forma privada."
Macpherson descreveu ter ficado em choque após o diagnóstico, com um "instinto de sobrevivência" entrando em ação.
Ela passou por uma cirurgia no cérebro no fim de outubro, que conseguiu remover cerca de 80% do tumor.
Uma biópsia confirmou então que ela tinha um oligodendroglioma de grau 2, um tumor cerebral raro, de crescimento rápido e incurável, mas ainda em estágio inicial.
"Foi quase como se alguém tivesse me dado um cérebro novo. Foi muito estranho, nada fazia sentido, eu não me sentia eu mesma", disse Macpherson.
Como o tumor estava localizado no córtex da fala do cérebro, Macpherson ficou semanas sem conseguir falar após a cirurgia e perdeu grande parte de suas funções cognitivas.
A recuperação levou tempo, e houve dias em que ela teve náuseas e vertigem.
"Eu subestimei o quão difícil seria o primeiro mês. Eu só queria começar a me sentir bem."
Querendo conversar com outras pessoas que passam pela mesma experiência, Macpherson criou uma página no Instagram para aumentar a conscientização e documentar sua jornada.
"Você só quer falar com outras pessoas e ver como elas estão lidando com isso e como se sentem", disse.
Foi por meio dessas conexões que ela descobriu o vorasidenibe, um tratamento menos agressivo usado em pacientes que não precisam de quimioterapia ou radioterapia imediatamente após a cirurgia.
O medicamento foi aprovado pelas diretrizes do Scottish Medicines Consortium para uso no NHS da Escócia, mas isso ainda não acontece no País de Gales, Inglaterra e Irlanda do Norte, algo que Macpherson vem fazendo campanha para mudar.
O governo galês afirmou que se baseia nas recomendações independentes do Instituto Nacional para Saúde e Cuidado de Excelência (NICE, na sigla em inglês) para garantir que o custo dos tratamentos oferecidos rotineiramente aos pacientes no País de Gales esteja "em equilíbrio com seus benefícios".
"Embora as evidências de estudos indiquem que o medicamento pode retardar a progressão do câncer, não há provas claras de que ele ajude as pessoas a viver mais", afirmou um comunicado.
O texto acrescenta que o NICE recomendou provisoriamente que o vorasidenibe não seja disponibilizado no NHS, mas que a orientação final deve ser publicada ainda este ano.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aprovou em agosto de 2025 o uso de vorasidenibe para uso e venda no Brasil, medicamento que foi desenvolvido como terapia para tratar pacientes com astrocitoma e oligodendroglioma (como o de Macpherson), dois tipos de tumor cerebral.
Macpherson precisará fazer exames a cada três meses para monitorar o tumor e está passando por um tratamento de fertilidade antes de iniciar o uso do vorasidenibe, que receberá por meio de um doador privado.
"A medicina está avançando em um ritmo que nunca vimos antes, a inteligência artificial está tomando conta de tudo, como sabemos, então tenho muita esperança nesse sentido."
Mas ela admitiu que há "momentos com a família em que você desaba e mal consegue respirar".
"Tudo isso tem sido difícil para mim… mas para a família, quase foi ainda mais difícil", disse Macpherson.
"Acho que todo mundo sempre diz 'eu queria que fosse comigo, não com você', mas eu realmente via isso neles, constantemente a dor nos olhos, porque queriam que fosse com eles e não comigo."
"Foi muito, muito difícil. Eu não desejaria isso a ninguém, ter que lidar com algo assim", concluiu.
Os tumores cerebrais são a principal causa de morte por câncer entre pessoas com menos de 40 anos no País de Gales, segundo a organização Brain Tumour Research.
A instituição afirma que a doença recebeu apenas 1% dos investimentos em pesquisa sobre câncer no Reino Unido desde 2002.