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Mara: o segredo da lebre gigante que só existe na Argentina

Descubra por que o mara, espécie de lebre exclusiva da Argentina, não existe em outros países e como seu habitat moldou essa distribuição

15 jan 2026 - 15h01
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O mara, também conhecido como lebre-patagonia ou lebre-da-Patagônia, chama atenção por ser um roedor de aparência semelhante à de uma lebre, mas que só ocorre em áreas naturais da Argentina. A presença dessa espécie em um único país intriga curiosos e pesquisadores, que buscam entender por que esse animal não se distribui naturalmente por outros territórios da América do Sul ou de outros continentes.

Para compreender essa distribuição restrita, é necessário observar a história evolutiva do mara, as características dos ambientes argentinos onde ele vive e a forma como essa espécie se adaptou a condições muito específicas. Fatores como clima, vegetação, predadores e até a ação humana ajudaram a moldar essa realidade e explicam por que o mara permanece um símbolo da fauna local.

O que é o mara e por que ele é tão associado à Argentina?

O mara (Dolichotis patagonum) é um roedor de médio porte, pertencente à família dos caviídeos, a mesma dos porquinhos-da-índia e da capivara. Embora seja chamado de "lebre", não é um lagomorfo, mas sua postura, patas longas e forma de correr lembram bastante as lebres verdadeiras. Essa semelhança física é resultado de um processo chamado convergência evolutiva, em que espécies diferentes desenvolvem traços parecidos por viverem em ambientes semelhantes.

Na natureza, o mara ocorre principalmente em regiões abertas e semiáridas da Argentina, sobretudo na Patagônia e em áreas de estepe e arbustos baixos. Ele se desloca com facilidade em terrenos planos, vive em casais monogâmicos e costuma utilizar tocas compartilhadas para abrigar os filhotes. Esse conjunto de comportamentos está diretamente associado às condições específicas dos ambientes argentinos.

Clima frio, vegetação de estepe e grandes campos abertos criaram o ambiente ideal para a sobrevivência do mara na Patagônia argentina – depositphotos.com / RudiErnst
Clima frio, vegetação de estepe e grandes campos abertos criaram o ambiente ideal para a sobrevivência do mara na Patagônia argentina – depositphotos.com / RudiErnst
Foto: Giro 10

Por que o mara só existe na Argentina?

Em termos evolutivos, os ancestrais do mara se diversificaram na América do Sul há milhões de anos, em um cenário em que o continente ainda era relativamente isolado. Esse isolamento favoreceu o surgimento de espécies endêmicas, ou seja, que existem apenas em determinada região, como é o caso do mara na Argentina.

Do ponto de vista ambiental, o mara é altamente adaptado a campos abertos, frios e secos, com vegetação rasteira e arbustos esparsos. A combinação de clima semiárido, solos específicos e tipos de plantas da Patagônia e de outras áreas áridas argentinas não se repete com a mesma configuração em países vizinhos. Embora algumas regiões do Chile, Uruguai ou sul do Brasil apresentem semelhanças, não reproduzem integralmente o conjunto de fatores que favoreceu a evolução e a sobrevivência do mara em território argentino.

Além disso, existem barreiras naturais importantes, como cordilheiras, grandes rios, áreas densamente florestadas e zonas agrícolas intensas, que dificultam a expansão natural da espécie. O mara não é um animal migratório de longa distância e não possui capacidade de voo ou de dispersão em grandes áreas, o que limita seu avanço para além dos ambientes onde se originou e se especializou.

O ambiente argentino é único para o mara?

O ambiente argentino onde o mara vive não é totalmente exclusivo em termos globais, mas reúne uma combinação rara de elementos. A Patagônia argentina, por exemplo, apresenta:

  • Invernos frios e ventosos, com verões relativamente secos.
  • Vegetação de estepe, composta por gramíneas baixas e arbustos dispersos.
  • Grandes extensões contínuas de áreas abertas, com pouca cobertura florestal.
  • Solos que favorecem a construção de tocas e abrigos.

Essa configuração cria um cenário onde o mara consegue se deslocar rapidamente, detectar predadores a distância e encontrar alimento suficiente. Em florestas fechadas, por exemplo, esse tipo de estratégia seria menos eficiente. Já em áreas muito úmidas ou tropicais, a estrutura corporal e o comportamento do mara não seriam tão adequados, o que reduz suas chances de se estabelecer em outros biomas sul-americanos.

Outro ponto relevante é a interação com outros animais. Em regiões argentinas onde o mara ocorre, há uma composição particular de carnívoros, aves de rapina e outros herbívoros. Essa teia ecológica específica influenciou o modo como o mara se reproduz, se alimenta e se protege. A transposição dessa espécie para outros países, sem os mesmos equilíbrios ecológicos, poderia gerar impactos imprevisíveis tanto para o mara quanto para a fauna local.

Por que o mara não se expandiu para outros países naturalmente?

A ausência do mara em outros países da América está ligada, em parte, à falta de rotas naturais de dispersão. Montanhas como os Andes, grandes áreas de floresta densa e zonas agrícolas intensivas funcionam como barreiras. Mesmo que existam ambientes potencialmente adequados em nações vizinhas, o caminho até eles é interrompido por áreas pouco favoráveis à sobrevivência do animal.

Outro fator é o ritmo reprodutivo e o comportamento social da espécie. O mara apresenta ninhadas relativamente pequenas em comparação com outros roedores e mantém forte vínculo de casal. Esse padrão tende a limitar o crescimento populacional rápido e a ocupação de novos territórios. Em espécies que se expandem facilmente, costuma haver reprodução mais intensa, maior mobilidade ou capacidade de viver em ambientes muito variados, o que não é o caso do mara.

Por fim, a ação humana ao longo dos séculos teve papel contraditório. Em algumas regiões, a conversão de áreas naturais em pastagens e lavouras reduziu o habitat do mara e fragmentou populações. Em outras, o animal passou a frequentar áreas próximas a estâncias e propriedades rurais, o que mantém certa presença local, mas não favorece uma expansão internacional, já que o transporte e a introdução deliberada em outros países são regulados e avaliados com cautela por órgãos ambientais.

Isolamento geográfico, barreiras naturais e comportamento reprodutivo explicam por que essa espécie endêmica nunca se espalhou naturalmente para outros países -depositphotos.com / max8xam
Isolamento geográfico, barreiras naturais e comportamento reprodutivo explicam por que essa espécie endêmica nunca se espalhou naturalmente para outros países -depositphotos.com / max8xam
Foto: Giro 10

O mara poderia viver em outros países no futuro?

Estudos de ecologia e conservação indicam que o mara poderia sobreviver em ambientes semelhantes aos da Patagônia presentes em outros locais do mundo, desde que existam clima, vegetação e espaço adequados. No entanto, há grande preocupação com a introdução de espécies fora de sua área original, porque isso pode causar desequilíbrios graves, competição com espécies nativas ou danos à vegetação.

Por esse motivo, programas de conservação focam principalmente na proteção do habitat natural argentino, em unidades de conservação e em práticas de manejo rural que reduzam a perda de áreas abertas. A prioridade é manter o mara como espécie saudável em seu ambiente de origem, evitando tanto o declínio populacional quanto a dispersão artificial para países onde não faz parte da fauna nativa.

Assim, o fato de o mara existir apenas na Argentina é resultado de um conjunto de circunstâncias evolutivas, ambientais e geográficas específicas. Esse cenário transformou o animal em um exemplo clássico de espécie endêmica sul-americana, diretamente ligada à paisagem e à história natural das regiões áridas e frias do território argentino.

Giro 10
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