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Lêmures 'drogados' por parasitas? A ciência explica

Lêmures 'doidões': toxinas de pulgas e piolhos afetam microbiota e sistema nervoso, causando agitação, euforia e comportamentos bizarros

16 mar 2026 - 10h30
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Em alguns registros de campo, lêmures podem ser vistos esfregando ou até mastigando insetos e parasitas, como pulgas e piolhos, e logo depois exibindo um comportamento considerado agitado ou "doidão". Esse tipo de cena chama a atenção porque os animais passam a saltar de forma descoordenada, cheirar partes do próprio corpo repetidamente ou assumir posturas incomuns. A explicação para esse fenômeno envolve uma combinação de fatores: substâncias químicas presentes nos artrópodes, toxinas secundárias de origem vegetal, influência na microbiota e efeitos diretos e indiretos sobre o sistema nervoso.

Muitos parasitas externos de lêmures, como pulgas, carrapatos e certos ácaros, podem acumular compostos químicos do ambiente ou da pele do hospedeiro. Quando ingeridos ou esmagados na boca do animal, esses compostos podem entrar em contato com mucosas e, em menor escala, ser absorvidos pelo organismo. Em alguns casos, a resposta não é apenas fisiológica; há também um forte componente comportamental de autoestimulação, semelhante ao que acontece com outros primatas que manipulam plantas e animais ricos em alcaloides ou outras toxinas.

Por que lêmures ingerem pulgas, piolhos e outros parasitas?

Os lêmures apresentam um repertório complexo de autolimpeza e cuidado com o corpo, que inclui lamber, morder e cheirar a própria pelagem. Ao fazer isso, acabam capturando e, às vezes, ingerindo pulgas, piolhos e pequenos insetos que vivem entre os pelos. Uma das hipóteses é que parte desse comportamento tenha função de controle de parasitas, atuando como uma espécie de "pente fino" natural. Ao remover esses organismos, o animal reduz o incômodo físico e a carga parasitária sobre a pele.

Outra hipótese é que alguns lêmures utilizem a manipulação de insetos como forma de automedicação química. Certas espécies de artrópodes produzem compostos que repelem predadores e fungos; quando esmagados contra a pele ou lambidos, esses compostos podem ajudar a reduzir infecções cutâneas ou atuar como repelente adicional contra mordidas de novos parasitas. Nesse processo, porém, substâncias potencialmente irritantes ou levemente tóxicas podem ser absorvidas, desencadeando alterações passageiras no comportamento.

As substâncias químicas presentes nesses artrópodes podem afetar o sistema nervoso e provocar comportamentos agitados e incomuns – depositphotos.com / seewhatmitchsee
As substâncias químicas presentes nesses artrópodes podem afetar o sistema nervoso e provocar comportamentos agitados e incomuns – depositphotos.com / seewhatmitchsee
Foto: Giro 10

Comportamento agitado em lêmures após ingerir insetos: o que acontece no corpo?

O comportamento "doidão" observado em alguns lêmures após o contato intenso com parasitas ou insetos pode ser resultado de uma combinação de mecanismos químicos. Em primeiro lugar, muitos artrópodes produzem neurotoxinas ou moléculas irritantes em suas glândulas salivares, cutícula ou fezes. Esses compostos podem atuar sobre canais iônicos de sódio, cálcio ou potássio em neurônios, alterando a transmissão de impulsos nervosos. Mesmo em doses pequenas, isso pode gerar sensações de formigamento, coceira interna e excitação motora.

Além das toxinas próprias dos insetos, há o papel da microbiota. Pulgas e piolhos carregam bactérias, fungos e vírus em sua superfície e no trato digestivo. Quando esses organismos microbianos entram em contato com mucosas da boca e do nariz, podem estimular respostas imunológicas locais por meio de mediadores químicos como histamina, citocinas e prostaglandinas. Tais substâncias não atuam apenas na defesa; elas também modulam o sistema nervoso periférico e central, contribuindo para sensações de irritação, desconforto e aumento da atividade motora.

Em paralelo, alguns estudos em outros primatas sugerem que insetos que se alimentam de plantas tóxicas podem concentrar alcaloides, terpenos ou glicosídeos em seus corpos. Quando lêmures consomem esses insetos, acabam ingerindo um "coquetel" de compostos secundários de origem vegetal. Esses químicos podem agir como psicoestimulantes leves, alterando a liberação de neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina, o que ajuda a explicar saltos repetitivos, movimentos rápidos de cabeça e atenção exagerada a sons e cheiros.

Como as toxinas e a microbiota afetam o sistema nervoso dos lêmures?

Quando um lêmure mastiga um inseto carregado de toxinas, a primeira via de ação costuma ser local. Substâncias lipofílicas presentes na cutícula ou nas secreções do artrópode são rapidamente absorvidas pela mucosa oral e nasal, penetrando em terminações nervosas sensoriais. Isso gera impulsos que sobem até o cérebro por nervos cranianos, ativando áreas associadas à dor leve, coceira e percepção química. A resposta pode incluir coçar o focinho com as patas, esfregar o rosto em galhos e balançar a cabeça de forma vigorosa.

Em seguida, uma fração dessas substâncias alcança a circulação sanguínea. Moléculas pequenas e solúveis em gordura podem atravessar a barreira hematoencefálica, alcançando neurônios em regiões ligadas ao controle motor e à vigilância, como gânglios da base e tronco encefálico. A interação com receptores de neurotransmissores pode, por exemplo:

  • Aumentar a liberação de dopamina, gerando maior atividade locomotora.
  • Modular receptores de serotonina, alterando a sensibilidade a estímulos táteis e visuais.
  • Influenciar receptores nicotínicos ou GABAérgicos, mudando o equilíbrio entre excitação e inibição neuronal.

A microbiota associada aos parasitas também contribui. Metabólitos bacterianos, como lipopolissacarídeos e toxinas proteicas, podem ativar o sistema imune e desencadear a liberação de mensageiros químicos que alcançam o cérebro pela circulação ou por vias nervosas. Esse "diálogo" entre intestino, pele, microbiota e cérebro é conhecido como eixo microbiota-intestino-cérebro e já foi descrito em diferentes mamíferos, inclusive primatas.

O comportamento “doidão” observado em lêmures pode surgir após o contato com toxinas naturais de insetos, que alteram temporariamente neurotransmissores ligados ao movimento e à atenção – depositphotos.com / leimaneagita
O comportamento “doidão” observado em lêmures pode surgir após o contato com toxinas naturais de insetos, que alteram temporariamente neurotransmissores ligados ao movimento e à atenção – depositphotos.com / leimaneagita
Foto: Giro 10

Outros primatas fazem algo semelhante aos lêmures?

O comportamento dos lêmures tem paralelo em diferentes grupos de primatas. Macacos-prego já foram observados esmagando centopéias e lagartas venenosas no pelo, comportamento interpretado como automedicação contra parasitas de pele. Alguns indivíduos lambem parte do material, apresentando em seguida sinais de excitação motora temporária e aumento de vigilância. Em macacos japoneses, há relatos de manipulação de insetos que liberam substâncias irritantes, seguida de coceira intensa e corridas aparentemente sem rumo definido.

Entre os grandes primatas, chimpanzés são conhecidos por ingerir folhas com pelos microscópicos para auxiliar na expulsão de vermes intestinais. Embora o alvo principal sejam plantas, já foram vistos consumindo ocasionalmente insetos que vivem nessas folhas, incorporando, assim, componentes químicos adicionais ao comportamento de automedicação. Em todos esses casos, observa-se um padrão: manipulação de um organismo pequeno, contato com toxinas naturais, resposta corporal imediata e, às vezes, uma fase breve de agitação que lembra o comportamento "doidão" descrito em lêmures.

Quais são as principais reações observadas na floresta?

Em ambiente natural, um lêmure que acabou de ingerir uma grande quantidade de insetos ou parasitas pode ser identificado por sinais corporais e faciais bem marcantes. O animal tende a ficar com os olhos mais abertos, movimentos de orelhas constantes e respiração acelerada. É comum que se desloque rapidamente entre galhos, com saltos curtos e repetidos, como se estivesse testando o ambiente ao redor. As mãos podem se mover de forma agitada, tocando o focinho, o peito e a cauda em sequência.

A expressão facial também muda. Os lábios podem ficar entreabertos, expondo ligeiramente os dentes, enquanto a língua passa com frequência pelos pelos próximos ao focinho, como se o lêmure estivesse tentando eliminar algum gosto intenso. O corpo assume posturas arqueadas ou inclinadas, com o dorso curvado e a cauda erguida de forma rígida. De um ponto de vista científico, essas manifestações são interpretadas como resultado combinado de irritação sensorial, ativação de circuitos de defesa e modulação neuroquímica causada pelas substâncias presentes em pulgas, piolhos e outros insetos.

Fatores que explicam a intensidade do comportamento "doidão"

A intensidade da agitação em lêmures varia de acordo com vários fatores. Entre os mais citados por pesquisadores de campo estão:

  1. Espécie de inseto ou parasita: diferentes artrópodes produzem toxinas e irritantes em quantidades e tipos variados.
  2. Dieta prévia do lêmure: indivíduos que já consomem plantas ricas em alcaloides podem ter maior tolerância a algumas substâncias.
  3. Estado de saúde: animais debilitados ou com alta carga parasitária podem reagir de forma mais intensa a pequenas doses de toxinas.
  4. Idade e experiência: jovens podem experimentar mais e ter respostas mais exageradas, enquanto adultos tendem a reconhecer rapidamente quais estímulos devem ser evitados.

Esses elementos ajudam a entender por que nem todos os lêmures exibem o mesmo grau de comportamento agitado após ingerir pulgas, piolhos ou outros insetos. O fenômeno resulta de uma interação complexa entre química, microbiologia, fisiologia e comportamento, compartilhando semelhanças com o que já foi descrito em outros primatas que utilizam substâncias naturais, voluntária ou incidentalmente, e acabam manifestando reações corporais e neurológicas marcantes.

Giro 10
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