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Conhecido por afetar gatos, fungo da esporotricose é encontrado em animais selvagens e amplia preocupações dos pesquisadores

A descoberta de fungos do gênero Sporothrix em órgãos internos de animais silvestres reacendeu o debate sobre a circulação da esporotricose na natureza e seus impactos na saúde pública. Saiba detalhes do estudo e seus impactos.

23 jun 2026 - 12h10
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A descoberta de fungos do gênero Sporothrix em órgãos internos de animais silvestres reacendeu o debate sobre a circulação da esporotricose na natureza e seus impactos na saúde pública. Afinal, o achado, descrito em artigo publicado na revista científica Mycopathologia com apoio da FAPESP, indica que a doença fúngica não está restrita apenas a ambientes urbanos e a animais domésticos, como se imaginava de forma predominante até alguns anos atrás.

A esporotricose é conhecida principalmente por afetar gatos, mas também pode atingir cães, outros mamíferos, aves e seres humanos. A infecção costuma ocorrer pelo contato da pele com o fungo, geralmente após arranhões, mordidas ou ferimentos contaminados. Em pessoas, a enfermidade costuma causar lesões cutâneas que podem evoluir, em quadros mais graves, para o comprometimento do sistema linfático, exigindo tratamento prolongado com antifúngicos.

A descoberta de fungos do gênero Sporothrix em órgãos internos de animais silvestres reacendeu o debate sobre a circulação da esporotricose na natureza e seus impactos na saúde pública – depositphotos.com / katerynakon
A descoberta de fungos do gênero Sporothrix em órgãos internos de animais silvestres reacendeu o debate sobre a circulação da esporotricose na natureza e seus impactos na saúde pública – depositphotos.com / katerynakon
Foto: Giro 10

O que é esporotricose e como o fungo Sporothrix age no organismo?

A esporotricose é uma micose subcutânea causada por fungos do gênero Sporothrix. Esses microrganismos vivem no ambiente, em matéria orgânica como solo, galhos e restos vegetais, mas também podem colonizar tecidos de animais. A infecção ocorre quando esporos do fungo penetram na pele por meio de cortes, arranhões ou mordidas, estabelecendo-se nos tecidos mais superficiais antes de avançar para estruturas mais profundas em alguns casos.

Em gatos, a doença costuma ser mais intensa, com feridas ulceradas, secreções e grande produção de fungos na pele, o que aumenta o risco de transmissão a outros animais e a humanos. Nas pessoas, a forma mais comum é a cutânea linfática, em que a lesão inicial se espalha ao longo dos vasos linfáticos, formando nódulos em cadeia. Sem tratamento adequado, a infecção pode se disseminar, principalmente em indivíduos com defesas imunológicas comprometidas.

Esporotricose em animais silvestres: o que o estudo apoiado pela FAPESP revelou?

O estudo apoiado pela FAPESP identificou fungos do gênero Sporothrix em órgãos internos de animais silvestres, o que amplia o cenário conhecido da esporotricose. Em vez de se limitar à pele ou a feridas externas, o fungo foi encontrado em tecidos internos, sugerindo que a infecção pode assumir formas mais sistêmicas na fauna nativa. Essa constatação reforça a hipótese de que animais selvagens atuem como reservatórios naturais do patógeno.

Os pesquisadores detectaram três espécies distintas: Sporothrix brasiliensis, Sporothrix globosa e Sporothrix schenckii. A primeira, S. brasiliensis, é considerada exclusiva do Brasil e tem sido associada ao grande número de casos de esporotricose felina em áreas urbanas. Já S. globosa aparece em diferentes regiões do mundo, enquanto S. schenckii é historicamente conhecida como agente clássico da doença e foi encontrada neste estudo tanto em mamíferos quanto em aves, indicando ampla adaptabilidade.

Por que a descoberta de Sporothrix brasiliensis, globosa e schenckii em animais selvagens é relevante?

A identificação de Sporothrix brasiliensis, Sporothrix globosa e Sporothrix schenckii em órgãos internos de animais silvestres tem implicações diretas para o entendimento da esporotricose. Afinal, o achado sinaliza que a fauna nativa pode funcionar como um reservatório de longo prazo, mantendo os fungos circulando em ecossistemas naturais sem necessariamente apresentar sinais clínicos evidentes. Ou seja, isso acrescenta uma nova camada de complexidade à vigilância da doença.

Além disso, a presença de S. schenckii em mamíferos e aves, apontada como a espécie mais frequente no estudo, mostra que a esporotricose não se limita a poucos grupos taxonômicos. A infecção em aves, por exemplo, pode favorecer a dispersão dos fungos em áreas amplas, conforme os deslocamentos desses animais. Portanto, essa dinâmica pode contribuir para a manutenção de focos silenciosos de esporotricose distante de centros urbanos.

Quais são os riscos da esporotricose para a saúde animal e humana?

A circulação de Sporothrix em animais silvestres amplia o potencial de contato com animais domésticos e, indiretamente, com seres humanos. Em áreas de transição entre ambientes naturais e cidades, é comum o compartilhamento de recursos, como abrigos e alimentos, o que facilita a aproximação entre pets, fauna silvestre e pessoas. Nesses contextos, qualquer espécie que atue como reservatório pode participar da cadeia de transmissão.

  • Para animais domésticos, o risco inclui o surgimento de casos em cães e gatos que circulam em áreas verdes ou têm contato com animais de vida livre.
  • Para animais silvestres, a doença pode afetar indivíduos debilitados, jovens ou sob estresse ambiental, somando-se a outros fatores de ameaça à biodiversidade.
  • Para humanos, o principal risco permanece associado ao contato com animais doentes, especialmente gatos infectados, mas a presença da esporotricose em ambientes naturais amplia o leque de situações de exposição.

Em locais onde a esporotricose já é reconhecida como endêmica, a circulação do fungo em múltiplas espécies e ambientes torna o controle mais desafiador. Profissionais de saúde e de medicina veterinária precisam considerar a possibilidade de origem silvestre em casos sem histórico claro de exposição a gatos doentes.

A circulação de Sporothrix em animais silvestres amplia o potencial de contato com animais domésticos e, indiretamente, com seres humanos – depositphotos.com / hishammarmin
A circulação de Sporothrix em animais silvestres amplia o potencial de contato com animais domésticos e, indiretamente, com seres humanos – depositphotos.com / hishammarmin
Foto: Giro 10

Desafios para o monitoramento da esporotricose e vigilância sanitária

Monitorar a esporotricose em animais silvestres envolve uma série de obstáculos práticos. A observação direta de sinais clínicos é limitada, muitos indivíduos não chegam a centros de triagem e os casos subclínicos, em que não há lesões aparentes, permanecem praticamente invisíveis. A detecção de Sporothrix em órgãos internos mostra que exames laboratoriais detalhados são essenciais para revelar a verdadeira extensão da infecção.

Do ponto de vista da vigilância sanitária, o estudo reforça a necessidade de abordagens integradas, alinhadas ao conceito de Saúde Única, que considera de forma conjunta a saúde humana, animal e ambiental. Em termos práticos, isso pode incluir:

  1. Ampliação da notificação de casos de esporotricose em animais domésticos e silvestres.
  2. Capacitação de equipes de campo para coletar amostras de forma padronizada em necropsias.
  3. Integração de bancos de dados de saúde animal e humana para detecção de surtos.
  4. Monitoramento de áreas de interface entre cidade e mata, onde o contato entre espécies é mais intenso.

Na conservação da fauna, a presença de fungos do gênero Sporothrix em animais nativos acende um alerta adicional. Espécies já pressionadas por perda de habitat, caça ilegal e mudanças climáticas podem ter sua sobrevivência ainda mais comprometida caso surtos de doenças fúngicas se tornem frequentes. A pesquisa apoiada pela FAPESP, ao demonstrar a presença de S. brasiliensis, S. globosa e S. schenckii em órgãos internos, oferece subsídios para que programas de manejo considerem a esporotricose em seus planos de ação.

Os dados apresentados pela equipe de pesquisa indicam que a esporotricose deve ser tratada como uma enfermidade de importância crescente, que atravessa fronteiras entre ambientes urbanos e silvestres. O acompanhamento contínuo de animais, a ampliação de estudos genéticos dos fungos e o diálogo entre áreas como microbiologia, ecologia e saúde pública tendem a ser decisivos para entender como Sporothrix se mantém e se espalha nos diferentes ambientes do Brasil e de outras regiões afetadas.

Giro 10
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