Existe um "mosteiro" escondido na Comrades
Entre "monges" da ultramaratona, treinos extremos e uma estranha irmandade, a Comrades passou a ocupar minha cabeça
Nas últimas semanas, entrei num hiperfoco meio absurdo. Penso na Comrades o dia inteiro. Vejo vídeos. Ouço podcasts. Converso com pessoas que já fizeram. Leio relatos. Assisto documentários. Outro dia fui parar num vlog aleatório de uma gringa correndo a prova e, de repente, apareceu o Nato Amaral no meio do vídeo. Cinco minutos depois - coincidência ou não -, recebi uma mensagem dele no celular. Parecia que o "algoritmo offline" tinha começado a trabalhar para a prova também.
O mais engraçado é que ninguém fala da Comrades do jeito que as pessoas falam de outras provas. Quase ninguém fala de pace. De RP. De performance. A conversa normalmente vai para outro lugar. As pessoas falam da experiência. Da camaradagem. Do sofrimento. Das histórias. Da transformação.
E talvez por isso eu tenha começado a olhar para esse universo como se fosse um mosteiro. É quase como se existisse um templo escondido no Nepal, ou na África do Sul — só que, em vez de monges budistas, ele fosse ocupado por ultramaratonistas sul-africanos, brasileiros e um monte de gente estranhamente tranquila depois de correr quase 90 quilômetros.
Aí você começa a encontrar essas pessoas. Tem o Nato, que vai fazer a vigésima primeira Comrades. O Branca, que parece um mestre daqueles que falam pouco e entendem tudo. O Zeca, que fala da prova com uma serenidade quase suspeita. A Zilma, que te dá dicas de alimentação, equipamento, estratégia e parece realmente acreditar que você vai conseguir. O Togumi, meu treinador, que me passa certos treinos absurdos como quem está sugerindo uma caminhada no quarteirão. E você vai ouvindo essas pessoas como um pequeno gafanhoto completamente fascinado.
Treino assustador
Há alguns dias, fiz um treino que me assustou de verdade. No sábado, corri 35 quilômetros de manhã. Voltei para casa. Almocei. Tomei banho. E no fim da tarde fui correr mais 10. Isso já foi estranho por si só. Voltar para o Ibirapuera depois de algumas horas parecia errado. A luz estava diferente. O parque parecia outro lugar. Eu quase nunca corro lá à tarde e tive a sensação de estar entrando num cenário paralelo da própria cidade.
No domingo, tinha mais treino. Dormi pouco porque recebi amigos em casa e fiquei olhando para o relógio pensando: "essas pessoas precisam ir embora porque amanhã eu tenho que correr 30 quilômetros".
Corri a Golden Run num trote meio controlado e depois continuei rodando pelo parque. Em algum momento encontrei um casal de amigos - o Rafa Marques e a Pati. Depois encontrei o Alvarenga, ultramaratonista que já fez provas de quase 500 quilômetros. E aí acontece uma coisa curiosa: você acha que está fazendo algo gigantesco até cruzar com alguém fazendo uma coisa ainda mais absurda com absoluta naturalidade.
Resumindo: no fim do final de semana, tinham dado 75 quilômetros. Eu fiquei apavorado. Porque foram 75 quilômetros com pausa, banho, almoço, sofá, cama e noite de sono no meio do caminho. A Comrades tem mais de 85 sem parar — e ainda subindo.
Aí você começa a fazer contas mentais completamente inúteis. "Como alguém corre tudo isso?" "Como alguém sobe tudo isso?" "Como alguém chega no quilômetro 50 e continua?" Aliás, o quilômetro 50 virou uma espécie de personagem da minha vida.
Sensação de estar devendo
Quanto mais perto da prova, mais eu percebo que talvez o maior treino não esteja acontecendo nas pernas.
Uma das coisas mais interessantes desse processo foi perceber como todo mundo que já fez a Comrades fala da prova quase do mesmo jeito. Não importa se a pessoa corre para seis horas ou para onze. Existe uma espécie de brilho no olhar. Uma calma estranha. Como se elas soubessem de uma coisa que quem nunca fez ainda não entende.
Recentemente encontrei o Branca no Ibirapuera. Parei para conversar e falei que estava tenso. Que tinha a sensação de estar sempre devendo treino. Sempre aquém. Ele ouviu tudo com calma e falou uma coisa que ficou martelando na minha cabeça desde então. Disse que talvez isso não seja exatamente sobre a Comrades. Talvez seja sobre a vida hoje. A sensação permanente de estar devendo alguma coisa. Trabalho. Família. Resposta. Resultado. Performance. Atenção.
E depois falou outra coisa ainda mais forte. "Durante a Comrades, você vai morrer umas duas ou três vezes. Vai se perguntar porque resolveu fazer esse desafio. Vai xingar muito a prova. Mas tem de lembrar por que você resolveu fazer isso… Lembre-se de que você está fazendo isso por você e para você."
Isso bateu num lugar estranho em mim. Porque acho que são raras as vezes em que a gente realmente faz uma coisa pela gente mesmo. E não estou falando de um jeito egoísta. Mas profundo. Talvez seja isso que esteja mexendo tanto nessa preparação.
Desafio mental
A Comrades ainda me dá medo real. Tenho medo da distância, da subida, do meu peso. Tenho medo da minha cabeça começar a negociar desculpas no meio da prova.
Na terapia, também ouvi uma frase que mexeu comigo: "Seu maior desafio não vai ser físico. Vai ser mental."
E acho que faz total sentido. Porque fisicamente eu consigo imaginar o sofrimento. O que eu não consigo imaginar ainda é o que acontece com alguém depois de tantas horas correndo.
Talvez seja por isso que a metáfora do mosteiro faça tanto sentido na minha cabeça agora. Você encontra essas pessoas que já passaram pela experiência e elas olham para você com uma tranquilidade quase irritante, como se estivessem dizendo: "Vai dar certo." Mas sem garantir nada.
E talvez essa seja a parte mais honesta da Comrades. Ninguém parece prometer que vai ser incrível. Ninguém parece vender felicidade. As pessoas só olham para você como quem diz: "Isso vai mexer com você."
Acompanhe aqui na CR meus passos rumo à Comrades Marathon, que acontece no dia 14 de junho
* Cado Santos é publicitário, profissional de marketing, maratonista, triatleta e diretor executivo da Milk, empresa de inteligência estratégica e relacionamento no universo da corrida. Há mais de 20 anos no esporte, lidera projetos que conectam marcas, atletas e comunidades, transformando comportamento e cultura em estratégia de negócio.
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