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Inflammaging: Sua idade é reflexo daquilo que você come

Entenda como a alimentação influencia a microbiota intestinal, o processo de inflammaging e por que seus hábitos diários podem impactar a forma como você envelhece.

28 jul 2026 - 12h10
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Quando se fala em envelhecimento da pele, é quase automático pensar em cremes, procedimentos estéticos, lasers e nas mais modernas tecnologias  para tentar retardar os sinais do tempo. E, tá certo, tudo vale,  -ou quase-  sem dúvida, muitos desses recursos têm seu valor. Mas e se uma parte importante da maneira como envelhecemos estiver sendo determinada muito antes de qualquer cosmético chegar à nossa pele? 

Saúde do intestino e a alimentação podem influenciar o envelhecimento; saiba o que é inflammaging e como cuidar da microbiota
Saúde do intestino e a alimentação podem influenciar o envelhecimento; saiba o que é inflammaging e como cuidar da microbiota
Foto: Reprodução: LightFieldStudios/Getty Images Pro / Bons Fluidos

Nos últimos anos, diferentes pesquisas têm voltado a atenção para aquilo que acontece dentro do nosso organismo e, particularmente, dentro do nosso intestino. As descobertas reforçam uma frase que provavelmente todos nós já ouvimos alguma vez: você é aquilo que você come. Talvez ela nunca tenha feito tanto sentido.

Isso porque aquilo que colocamos no prato não alimenta apenas as nossas células, mas alimenta também trilhões de microrganismos que vivem principalmente no nosso intestino e formam aquilo que conhecemos como microbiota intestinal. Essa imensa comunidade de bactérias, vírus, fungos e outros microrganismos participa de processos que vão muito além da digestão.

Hoje sabemos que a microbiota interage com o sistema imunológico, participa do metabolismo de nutrientes, produz substâncias biologicamente ativas e contribui para a manutenção da barreira intestinal. Mais uma pergunta ainda mais intrigante começou a ocupar os pesquisadores: será que aquilo que acontece no nosso intestino também pode influenciar a maneira como envelhecemos?

Uma pista bastante interessante veio de um estudo publicado em 2023 na revista científica Nature Aging. Os pesquisadores analisaram a microbiota intestinal de 1.575 pessoas com idades entre 20 e 117 anos, entre elas estavam 297 centenários e o que encontraram chamou a atenção.

As pessoas que haviam ultrapassado os 100 anos apresentavam algumas características na microbiota intestinal associadas a indivíduos mais jovens. Os pesquisadores observaram particularidades na diversidade e na composição dessa comunidade de microrganismos, sugerindo uma possível relação entre determinados padrões da microbiota e a longevidade.

Isso não significa que os cientistas tenham descoberto uma "bactéria da juventude", muito menos uma fórmula para chegar aos 100 anos. O que encontramos até agora são associações. Ainda não podemos afirmar se determinadas características da microbiota ajudam essas pessoas a envelhecer melhor ou se são, em parte, consequência da própria longevidade, da genética, da alimentação e do estilo de vida.

Mas outro estudo trouxe uma peça ainda mais curiosa para esse quebra-cabeça. Em 2021, uma pesquisa publicada na prestigiada revista Nature estudou a microbiota de centenários e encontrou maior presença de microrganismos envolvidos na produção de determinados ácidos biliares secundários. Entre eles estava uma substância chamada isoalloLCA, que apresentou atividade contra alguns microrganismos potencialmente prejudiciais em experimentos laboratoriais. É como se o nosso intestino pudesse abrigar um verdadeiro ecossistema, capaz de produzir substâncias que interagem constantemente com nosso organism e é justamente a palavra ecossistema que considero importante quando falamos de microbiota. Uma floresta saudável não é formada por uma única espécie de árvore. Existem plantas, animais, fungos, insetos e milhares de organismos convivendo e estabelecendo relações entre si. No intestino acontece algo semelhante.

E o que a comida tem a ver com tudo isso? Muita coisa. Nossa microbiota é influenciada pela genética, idade, ambiente, medicamentos, atividade física, sono e diversos outros fatores. Mas a alimentação é uma das maneiras pelas quais interagimos diariamente com esse ecossistema.

Quando ingerimos fibras presentes em verduras, legumes, frutas, feijões, lentilhas, sementes e cereais integrais, por exemplo, parte delas chega ao intestino e pode ser fermentada por determinadas bactérias. Nesse processo são produzidas substâncias conhecidas como ácidos graxos de cadeia curta, e entre elas está o butirato, um composto bastante estudado por sua participação na manutenção da barreira intestinal e na regulação de processos imunológicos e inflamatórios.

E aqui entra outro conceito que tem ganhado espaço nas pesquisas sobre longevidade: o inflammaging,  palavra que  nasce da união dos termos ingleses inflammation, inflamação, e aging, envelhecimento. Ela descreve um estado de inflamação crônica e de baixa intensidade associado ao avanço da idade.

Não estamos falando necessariamente daquela inflamação que provoca dor, calor, vermelhidão ou febre. É algo muito mais silencioso. Com o passar dos anos, diversos fatores podem contribuir para esse estado inflamatório persistente, e a saúde intestinal parece fazer parte dessa complexa engrenagem.

Quando ocorrem alterações importantes na microbiota e na integridade da barreira intestinal, a comunicação entre os microrganismos e o sistema imunológico também pode mudar. Por outro lado, determinados metabólitos produzidos por bactérias intestinais parecem contribuir para a manutenção do equilíbrio desse ambiente.

É importante perceber, porém, que isso não significa que exista um alimento milagroso capaz de impedir o envelhecimento. Talvez uma das palavras mais interessantes quando falamos de microbiota seja justamente diversidade.

Em vez de procurar o alimento da moda, pode ser muito mais interessante observar a variedade do prato, que aliás é o conselho que mais dou aos meus pacientes.  Verduras, legumes, frutas, feijões, lentilhas, aveia, sementes, castanhas e cereais integrais oferecem diferentes tipos de fibras e compostos bioativos. Quanto mais variada é a alimentação, maior também pode ser a diversidade de substratos oferecidos aos microrganismos que habitam nosso intestino.

Alimentos fermentados, como iogurtes e outros fermentados tradicionais, também são estudados nesse contexto. Mas isso não significa que todos precisem sair comprando suplementos ou probióticos.

Aliás, a popularização dos probióticos exige cautela. Existem cepas específicas com evidências para determinadas situações, mas ainda não existe um "probiótico da longevidade" capaz de transformar a microbiota de uma pessoa de 50 ou 60 anos naquela encontrada em um centenário. Nosso intestino é muito mais complexo do que isso e talvez seja justamente aí que esteja uma das mensagens mais bonitas dessas pesquisas: envelhecer não é um acontecimento que começa quando completamos 60, 70 ou 80 anos.

Nós estamos envelhecendo agora! Aquilo que colocamos no prato hoje, a qualidade do nosso sono, a atividade física, o consumo de álcool, o tabagismo, os medicamentos que utilizamos e tantos outros hábitos repetidos durante anos ajudam a construir o ambiente biológico no qual envelheceremos.

Ainda não podemos afirmar que determinada microbiota faça alguém chegar aos 100 anos. A longevidade é resultado de uma combinação extraordinariamente complexa de genética, ambiente, estilo de vida e muitos outros fatores que a ciência continua tentando compreender.

Mas os estudos com centenários nos deixam uma pista fascinante: pessoas que chegam a idades extremas podem carregar no intestino características microbianas particulares, algumas delas associadas a um perfil mais jovem.

Talvez a velha frase "você é aquilo que você come" precise apenas ganhar um complemento. Você é aquilo que come, mas também aquilo que os trilhões de microrganismos que vivem dentro de você fazem com o que você come.

E se desejamos viver mais, talvez devêssemos começar não apenas perguntando quantos anos queremos acrescentar à vida, mas que tipo de organismo estamos construindo, refeição após refeição, para chegar até lá.

Bons Fluidos
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