Gravidez após os 35 anos: como se preparar para viver este momento com saúde?
Com a maternidade sendo adiada cada vez mais, especialistas explicam os impactos da idade na fertilidade, os riscos da gestação tardia e os avanços da medicina reprodutiva
Ter filhos mais tarde deixou de ser exceção para se tornar uma realidade cada vez mais comum. Impulsionadas por mudanças sociais, profissionais e afetivas, muitas mulheres estão adiando a gravidez e maternidade - e os números mostram essa transformação de forma clara.
Nos Estados Unidos, um relatório federal revelou que 21% dos nascimentos registrados em 2023 foram de mulheres com 35 anos ou mais. Em 1990, esse percentual era de apenas 9%. No Brasil, o movimento segue a mesma direção: dados da Fundação Seade apontam que o número de mulheres paulistas que tiveram filhos após os 35 anos cresceu 40% entre 2010 e 2022. Entre aquelas com mais de 40 anos, o aumento chegou a 64%.
Ao mesmo tempo, especialistas reforçam que, embora seja totalmente possível ter uma gestação saudável após os 35, o corpo feminino passa por mudanças naturais que exigem mais atenção e acompanhamento médico.
Por que as mulheres estão adiando a maternidade?
Segundo médicos e pesquisadores, a mudança tem relação direta com transformações no estilo de vida e no papel social da mulher. Hoje, muitas priorizam carreira, estabilidade financeira, estudos ou aguardam condições emocionais e afetivas consideradas mais seguras antes de terem filhos.
A atriz Natalie Portman, por exemplo, chamou atenção recentemente ao anunciar uma gestação aos 44 anos, reforçando um fenômeno que cresce dentro e fora do Brasil. Especialistas explicam, porém, que embora a sociedade tenha mudado, a biologia continua funcionando da mesma maneira.
Especialistas explicam esse cenário afirmando que existe um descompasso entre as transformações culturais e os limites biológicos do corpo feminino. Isso porque a fertilidade tende a diminuir gradualmente a partir dos 30 anos, com queda mais acentuada após os 35 e aceleração depois dos 37.
O que muda no corpo depois dos 35 anos?
De acordo com o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, a redução da fertilidade está ligada principalmente à queda na quantidade e na qualidade dos óvulos. As chances de gravidez natural por ciclo, que giram em torno de 25% em mulheres mais jovens, caem para aproximadamente 10% aos 40 anos. Além disso, aumenta o risco de infertilidade, abortamento espontâneo e alterações cromossômicas.
Especialistas explicam que a gestação após os 35 anos recebe tecnicamente o nome de "idade materna avançada" ou gravidez tardia. Embora isso não signifique necessariamente que haverá problemas, alguns riscos realmente se tornam mais frequentes.
Entre eles estão: pressão alta e pré-eclâmpsia; diabetes gestacional; parto prematuro; alterações placentárias; maior probabilidade de cesárea; aumento do risco de alterações cromossômicas, como a síndrome de Down; maior chance de gestação gemelar. Ainda assim, médicos reforçam que a maioria das mulheres acima dos 35 anos têm gestações saudáveis.
O cuidado antes da gravidez faz diferença
Um dos pontos mais importantes é chegar à gestação com a saúde equilibrada. Alimentação adequada, prática regular de exercícios físicos, controle de doenças crônicas e acompanhamento médico preventivo ajudam a reduzir riscos. A médica Ashley Zink, especialista em medicina materno-fetal da University of Texas Southwestern, compara esse preparo à construção da "primeira casa do bebê".
Segundo ela, a gravidez exige muito do organismo: o volume de sangue aumenta, o coração trabalha mais e o corpo passa por adaptações intensas. Por isso, estar em boas condições físicas ajuda a enfrentar melhor as mudanças da gestação. Outro ponto importante é realizar check-ups antes de engravidar para avaliar pressão arterial, diabetes, vacinas e saúde reprodutiva.
Medicina reprodutiva amplia possibilidades
Nos últimos anos, técnicas como congelamento de óvulos e fertilização in vitro (FIV) passaram a fazer parte da realidade de muitas mulheres que desejam preservar a fertilidade.
Dados da Anvisa mostram que o congelamento de óvulos cresceu significativamente no Brasil nos últimos anos. Entre 2020 e 2023, o número de ciclos de criopreservação praticamente dobrou no país.
Segundo especialistas em reprodução assistida, o ideal é que o congelamento seja realizado antes dos 35 anos, quando a qualidade dos óvulos costuma ser mais favorável. Apesar dos avanços tecnológicos, médicos alertam que a medicina reprodutiva não elimina completamente os limites biológicos da idade. Isso porque a idade dos óvulos continua influenciando diretamente as chances de gravidez, abortamento e alterações cromossômicas.
Exames e acompanhamento ganham ainda mais importância
Em gestações após os 35 anos, o pré-natal costuma incluir um monitoramento mais cuidadoso. Ultrassons, exames genéticos e testes pré-natais ajudam a acompanhar o desenvolvimento do bebê e identificar possíveis alterações precocemente.
Entre os exames frequentemente recomendados está o teste pré-natal não invasivo, realizado por meio de exame de sangue, capaz de rastrear alterações cromossômicas. Também podem ser indicados ultrassons adicionais no fim da gravidez para acompanhar crescimento fetal, funcionamento da placenta e movimentação do bebê.
Informação e acolhimento são essenciais
Embora a expressão "gravidez de risco" ainda assuste muitas mulheres, especialistas reforçam que idade não define sozinha o sucesso de uma gestação. Há mulheres mais velhas com excelente saúde e mulheres jovens que também enfrentam complicações.
Por isso, o principal caminho continua sendo informação, planejamento e acompanhamento individualizado. Em um cenário em que cada vez mais mulheres escolhem a maternidade em outro momento da vida, compreender os limites do corpo (sem culpa ou pressão) se torna uma forma importante de cuidado e autonomia.
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