Setembro Amarelo: como ensinar inteligência emocional para crianças?
Setembro Amarelo: como ensinar as crianças a reconhecer e falar sobre suas emoções com seis perguntas
Durante o Setembro Amarelo, especialistas ressaltam a importância de ensinar inteligência emocional às crianças desde cedo. Em vez de reprimir sentimentos como raiva ou tristeza, pais e educadores devem acolher, validar emoções e orientar comportamentos saudáveis, sem tabus ou alarmismo. Essa parceria contínua entre família e escola constrói um espaço seguro de escuta, fundamental para a prevenção em saúde mental, permitindo que a criança aprenda a expressar o que sente e a buscar ajuda.
Especialista da educação infantil explica como família e escola podem criar espaços de escuta e acolhimento desde os primeiros anos de vida
Falar sobre saúde mental não precisa ser uma conversa restrita aos adultos. Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio e ao cuidado com a saúde mental, pais e educadores também podem levar o tema ao universo infantil de maneira adequada à idade, sem alarmismo e respeitando a capacidade de compreensão de cada criança. Para isso, um dos primeiros passos é ensiná-la a reconhecer, nomear e comunicar aquilo que sente.
Na infância, emoções como tristeza, raiva, medo, frustração e ansiedade fazem parte do desenvolvimento. O desafio para pais, responsáveis e educadores está em não tratar esses sentimentos como algo que devem eliminar ou esconder, mas como experiências que eles podem compreender e acolher. Conversar sobre emoções e permitir que a criança expresse sentimentos desconfortáveis é uma forma de contribuir para sua saúde mental.
Falar sem sobrecarregar
Laila Mendes, diretora da MiniMe Educação Infantil, explica que falar sobre emoções com a criança não significa colocar sobre ela preocupações que pertencem ao universo adulto. Significa, principalmente, mostrar que sentir faz parte da vida e que ela pode procurar um adulto de confiança quando algo não estiver bem. Quando ensinamos uma criança a dizer 'estou triste', 'estou com medo' ou 'isso me deixou bravo', estamos oferecendo ferramentas para que ela compreenda melhor o que está vivendo e consiga pedir ajuda quando necessário".
Na prática, essa educação emocional pode começar em situações simples do cotidiano. Em vez de perguntar apenas se a criança está bem, os adultos podem fazer perguntas mais abertas, como "o que aconteceu?", "como você se sentiu?" ou "o que você gostaria que eu fizesse para ajudar?". Livros, desenhos, brincadeiras, músicas e histórias também podem ser utilizados para apresentar diferentes emoções e estimular a criança a falar sobre suas próprias experiências.
Outro ponto importante é a forma como o adulto reage quando a criança demonstra uma emoção considerada negativa. Frases como "não precisa chorar", "isso não é motivo para ficar triste" ou "você precisa ser forte" podem fazer com que ela compreenda que determinados sentimentos não devem ser expressados. Em contrapartida, validar a emoção não significa concordar com qualquer comportamento, mas reconhecer aquilo que a criança está sentindo e ajudá-la a encontrar maneiras adequadas de agir, de acordo com a situação.
Acolher e orientar
Laila, compartilha que o mais importante é acolher primeiro e orientar depois. Podemos dizer, por exemplo: 'eu entendo que você está bravo, mas não podemos bater no colega. Vamos pensar juntos em outra forma de mostrar essa raiva'. Dessa maneira, a criança aprende que a emoção é legítima, mas que existem formas saudáveis de agir, mesmo quando estamos tristes ou com raiva, por exemplo, falar para uma criança, ou mesmo para um adulto, que ela não pode sentir raiva é como falar que ela não pode sentir fome. Não controlamos o que sentimos, mas sim nossas ações que temos a partir destes sentimentos.
A escola também desempenha um papel importante nesse processo. O ambiente escolar é um dos principais espaços de convivência da criança e pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades como empatia, comunicação, resolução de conflitos e reconhecimento das próprias emoções. Nesse sentido, o Setembro Amarelo pode ser uma oportunidade para ampliar uma conversa que deve acontecer durante todo o ano. Para crianças pequenas, não é necessário transformar a campanha em uma abordagem direta sobre risco extremos, mas utilizar o período para reforçar mensagens de cuidado, acolhimento, escuta e busca por ajuda. A prevenção começa também na construção de relações em que a criança saiba que seus sentimentos serão levados a sério.
"Mais do que criar uma atividade específica para o Setembro Amarelo, é importante que a escola construa uma cultura de escuta ao longo de todo o ano. A criança precisa saber que pode conversar quando estiver feliz, triste, frustrada e preocupada. Quando família e escola trabalham juntas para criar esse espaço seguro, fica mais fácil perceber mudanças de comportamento e oferecer apoio quando a criança estiver enfrentando alguma dificuldade", afirma a diretora.
Atenção as atitudes
Outro cuidado importante é observar mudanças persistentes no comportamento. Alterações significativas no humor, isolamento, dificuldades de interação, queda repentina no interesse por atividades que antes eram prazerosas ou mudanças relevantes na rotina merecem atenção dos adultos.
Para os adultos, portanto, uma das principais mensagens do Setembro Amarelo é que a conversa sobre saúde mental não precisa começar somente quando surge um problema. Ela pode ser construída diariamente, por meio de pequenas perguntas, momentos de atenção e disponibilidade para ouvir. "Como você se sentiu hoje?", "teve alguma coisa que deixou você triste?" e "quer conversar sobre isso?" são perguntas simples, mas que ajudam a mostrar à criança que suas emoções têm espaço.
A proposta também está alinhada ao movimento internacional de ampliar a conversa sobre prevenção do suicídio. Em 2026, a Organização Mundial da Saúde mantém como tema do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro, "Changing the narrative on suicide", com o chamado para iniciar a conversa e reduzir o estigma em torno do tema.
Assim, quando o assunto chega às crianças, o foco deve estar menos em explicar um problema complexo e mais em construir, desde cedo, uma relação saudável com as próprias emoções. Ensinar que sentir tristeza não é errado, que pedir ajuda não é sinal de fraqueza e que sempre existe um adulto disposto a ouvir são aprendizados que podem acompanhar a criança durante diferentes fases da vida.
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