Dia da Honestidade: Mario Sergio Cortella reflete sobre o que significa ser honesto
Filósofo relembra uma oferta recebida quando era secretário de Educação e mostra como valores são colocados à prova em decisões concretas
No Dia da Honestidade, o filósofo Mario Sergio Cortella reflete que a integridade moral não reside em ser invulnerável à tentação ou ignorar vantagens pessoais, mas em recusar conscientemente concessões ao que é incorreto. Ao relatar quando recusou um apartamento oferecido por uma empreiteira na época em que era secretário de Educação em São Paulo, Cortella destaca que a ética se define pelo conflito entre valores e interesses, exigindo limites claros na tomada de decisões.
Neste sábado (10), o Dia da Honestidade convida a refletir sobre algo que nem sempre aparece quando falamos de ética: o que fazemos quando agir de forma incorreta também parece vantajoso. Para o filósofo Mario Sergio Cortella, ser honesto não significa nunca sentir vontade de escolher o caminho mais fácil, mas saber qual decisão tomar quando valores e benefícios pessoais entram em conflito.
Durante uma palestra, Cortella colocou a honestidade moral entre os valores que orientam a vida pessoal e profissional. Para ele, esse princípio aparece justamente quando existe a possibilidade concreta de abrir mão do que se considera correto. "Honestidade moral é você e eu não fazer concessões naquilo que é incorreto", detacou.
Ao mesmo tempo, o filósofo afasta a ideia de que uma pessoa ética nunca sente vontade de ceder: "Isso não significa que você não tem a vontade de ceder. Você e eu temos o tempo todo."
Cortella explica a honestidade moral
Para mostrar como esse conflito pode aparecer na prática, Cortella relembrou uma situação vivida quando era secretário de Educação da cidade de São Paulo. Depois de uma reunião com representantes de uma empreiteira, um dos participantes permaneceu na sala e fez uma proposta pessoal.
Na época, o filósofo morava de aluguel. Segundo seu relato, o homem comentou que a empresa tinha um apartamento disponível e ofereceu o imóvel sem cobrança. "Ele falou: 'A gente ouviu que o senhor mora de aluguel'. De fato, na época [...] ele falou: 'A gente tem um apartamento livre [...] se você quiser morar lá, não precisa pagar nada'. Eu falei: 'Não, obrigado'", contou.
A recusa, contudo, não significa que ele tenha ignorado a vantagem oferecida. Cortella reconhece que chegou a pensar no benefício antes de tomar a decisão: "Será que em algum momento eu pensei na oferta dele? É óbvio que eu pensei. Fiz conta de cabeça."
É justamente esse ponto que sustenta a reflexão. Isso porque, para ele, valores não dependem da ausência de interesse, mas da capacidade de estabelecer limites quando determinada vantagem entra em conflito com aquilo que se considera correto.
Integridade não significa ser invulnerável
A honestidade, nesse sentido, também se relaciona à integridade pessoal. Admitir que alguém pode sentir vontade de escolher um caminho diferente não enfraquece o princípio ético. Pelo contrário, mostra que a decisão precisa ser consciente. Cortella reconhece essa vulnerabilidade ao falar sobre a própria experiência. "Claro. Eu não sou invulnerável", destacou.
Assim, a ética deixa de ser apenas um discurso sobre o comportamento dos outros e passa a envolver situações em que cada pessoa precisa decidir como agir. Para o filósofo, esse processo reúne aquilo em que acreditamos e as escolhas que fazemos diante das circunstâncias. "Valores, crença, escolha. Desse jogo", afirmou.
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