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Ayumu: chimpanzé de 26 anos chama atenção ao cantar e tocar percussão

Ayumu, de 26 anos, consegue combinar percussão, expressão vocal e emoção de forma mais sofisticada do que se imaginava

31 mar 2026 - 12h45
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Chimpanzés já são conhecidos por sua inteligência, capacidade de resolver tarefas complexas e uso de ferramentas. Mas um estudo recente chamou atenção para outro aspecto surpreendente desses primatas: a possibilidade de produzirem algo muito próximo de uma performance musical. Pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, registraram dezenas de episódios em que um chimpanzé chamado Ayumu, de 26 anos, criou sequências sonoras com ritmo estável enquanto vocalizava de forma estruturada.

Chimpanzé no Japão produz ritmos estáveis e vocalizações complexas, oferecendo pistas sobre a origem da musicalidade humana
Chimpanzé no Japão produz ritmos estáveis e vocalizações complexas, oferecendo pistas sobre a origem da musicalidade humana
Foto: Reprodução: Yuko Hattori / Bons Fluidos

O que mais intrigou a equipe não foi apenas o fato de Ayumu bater objetos para produzir som. Esse tipo de comportamento já é conhecido entre chimpanzés. O diferencial foi a combinação entre o uso de uma ferramenta improvisada, a construção de um padrão rítmico constante e a emissão simultânea de sons vocais mais complexos. Para os pesquisadores, esse conjunto sugere uma forma de expressão sonora mais elaborada do que simples batidas aleatórias.

O que Ayumu fez que chamou tanta atenção?

Entre fevereiro de 2023 e março de 2025, os cientistas gravaram 89 vídeos do animal em momentos espontâneos. Em várias dessas cenas, Ayumu retirava tábuas do piso de uma passarela e passava a utilizá-las para bater e produzir sons, como se estivesse improvisando um tambor. Ao mesmo tempo, também vocalizava, criando uma sequência que lembrava uma mistura de percussão e canto.

Segundo Yuko Hattori, autora principal do estudo, esse comportamento foi especialmente marcante porque a equipe nunca havia observado antes essa associação entre ferramenta sonora e expressão vocal acontecendo daquela maneira. "Foi fascinante para mim ver como o chimpanzé usava ferramentas para produzir vários sons, ao mesmo tempo que expressava vocalmente", afirmou a pesquisadora em comunicado da universidade.

Não era barulho aleatório

Para entender se aquilo poderia ser apenas uma brincadeira sem padrão ou algo mais estruturado, os pesquisadores analisaram minuciosamente as gravações. Eles dividiram os movimentos de Ayumu em ações simples, como bater, arrastar e arremessar, e depois observaram como esses gestos se conectavam ao longo do tempo.

O resultado mostrou que os sons não surgiam ao acaso. Os intervalos entre as batidas seguiam um padrão regular, chamado de isocronia - ou seja, um tempo constante, semelhante ao de um metrônomo. Outro dado interessante é que o ritmo produzido com as tábuas se mostrou ainda mais estável do que o ritmo criado apenas com mãos ou pés.

Música, emoção e expressão

Além do ritmo, os cientistas também observaram as expressões faciais de Ayumu durante as performances. Em vários momentos, o chimpanzé apresentava o chamado play face, uma expressão associada a brincadeira e emoções positivas. Esse detalhe chamou atenção porque esse tipo de expressão normalmente não aparece em vocalizações.

A partir disso, os autores levantam uma hipótese interessante: emoções que antes poderiam ser expressas principalmente pela voz talvez também possam ser externalizadas por meio de sons produzidos com ferramentas. Em outras palavras, o comportamento de Ayumu pode ajudar a entender como vocalização, ritmo e uso de instrumentos podem ter se combinado ao longo da evolução.

O que isso pode revelar sobre a origem da música?

Uma das ideias discutidas no estudo é que a musicalidade humana talvez tenha raízes bem mais antigas do que se imagina. Pesquisas anteriores já sugeriam que a música instrumental surgiu quando expressões emocionais vocais passaram a ser transferidas, aos poucos, para objetos e ferramentas capazes de gerar som.

O problema é que os primeiros instrumentos de percussão provavelmente tinham materiais perecíveis, como madeira e pele de animais. Por isso, é muito difícil encontrar evidências arqueológicas diretas desse processo. Nesse cenário, observar o comportamento de primatas próximos dos humanos pode oferecer pistas valiosas sobre como a musicalidade pode ter começado.

Mais do que curiosidade, uma pista sobre cognição

O caso de Ayumu reforça algo que a ciência vem mostrando há anos: primatas não humanos têm repertórios cognitivos e comunicativos muito mais sofisticados do que muita gente imagina. A habilidade de integrar som, ritmo, ferramenta e expressão emocional aponta para uma complexidade que vai além da simples repetição motora.

Agora, os pesquisadores querem investigar como os outros chimpanzés do grupo reagem a essas apresentações e se esse tipo de comportamento tem alguma função social entre eles. A resposta pode ampliar ainda mais o entendimento sobre o papel do som, do ritmo e da expressão emocional na vida dos primatas.

O que esse achado nos faz pensar

Talvez uma das partes mais fascinantes dessa descoberta seja justamente a quebra de fronteiras entre o que costumamos chamar de "humano" e o que atribuímos aos outros animais. Quando um chimpanzé cria ritmo, combina sons e parece expressar emoção nesse processo, a música deixa de parecer apenas uma invenção cultural moderna - e passa a ser vista também como uma possibilidade profundamente ligada à nossa história evolutiva.

Bons Fluidos
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