SPFW: Ronaldo Fraga transforma "Cartas de Algodão" em resistência política poética
Na SPFW, Ronaldo Fraga celebrou os 10 anos do projeto "Sou de Algodão" com a coleção "Cartas de Algodão", que uniu delicadeza e resistência política. Com tons sóbrios, rendas, bordados e manuscritos, o estilista evocou a memória e a sustentabilidade promovida pela Abrapa. O desfile reforçou seu tom político ao som de Taiguara, artista censurado na ditadura, culminando com Fraga usando um boné de apoio a Lula no encerramento.
"Tenho fascínio por tudo o que resiste ao desaparecimento." A frase de Ronaldo Fraga, dita por ele antes do desfile do projeto "Sou de Algodão", do qual foi o estilista convidado para comemorar os 10 anos de iniciativa, resume a inspiração do criador mineiro.
A coleção, batizada de "Cartas de Algodão", propõe uma resistência com delicadeza, por meio de looks ora mais esculturais, ora mais soltos, marcados por texturas de patchwork, rendas e bordados.
Pedaços de tecidos com manuscritos bordados, flores que lembram as esquecidas entre as páginas dos livros e lenços perfumados guardados nas gavetas enfeitavam ou compunham, com delicadeza, blusas, vestidos, saias e bermudas. Os modelos desfilavam entre varais com roupas brancas e inscrições penduradas. Na cartela de cores, variações de branco, bege e marrom.
Tudo isso remetia a uma memória impregnada nas roupas. "A moda como possibilidade de contar aquilo que, às vezes, a palavra não consegue dizer", como explicou o material de divulgação. E, como Ronaldo afirmou em áudio na sala do desfile: "No silêncio, algumas coisas conseguem permanecer".
Os desfiles de Ronaldo são sempre políticos. Além do tema, o estilista incluiu na trilha sonora músicas de Taiguara (1945/1996), que teve forte engajamento político e social e cujas letras foram alvo da censura do regime militar, com dezenas de canções proibidas. No final do desfile, Ronaldo entrou usando um boné vermelho com a palavra "Lula" estampada na frente.
Sobre Sou de Algodão
Criado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), em 2016, para despertar uma consciência coletiva em torno da moda e do consumo responsável. Para isso, a iniciativa une e valoriza os profissionais da cadeia produtiva e têxtil, dialogando com o consumidor final com ações, conteúdo e parcerias com marcas e empresas. Outro propósito é informar e democratizar o Algodão Brasileiro Responsável (ABR), que segue rigorosos critérios ambientais, sociais e econômicos e certifica 79% de toda a produção nacional de algodão.
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