É preciso fixar no ser humano o compromisso com o bem, diz Gilberto Gil
Cantor falou sobre a relação do ser humano com a natureza em entrevista ao podcast Futuro Vivo
O cantor e ícone da MPB Gilberto Gil falou sobre o futuro do mundo e a relação do ser humano com a natureza no terceiro episódio do podcast Futuro Vivo, disponibilizado a partir desta terça-feira, 12. O artista refletiu sobre os avanços tecnológicos, o desenvolvimento da humanidade e seu papel no mundo.
A conversa do precursor do Movimento Tropicália com o apresentador Victor Cremasco --realizada em 11 de julho, antes da morte de sua filha Preta Gil-- abordou a carreira do ex-ministro e também suas concepções pessoais sobre a vida e suas problemáticas.
O podcast conta com treze episódios e faz parte da plataforma de sustentabilidade homônima da Vivo. Os episódios são disponibilizados toda terça-feira no Terra e em plataformas de áudio (Spotify) e vídeo (YouTube). Além de Gilberto Gil, também participam Carlos Nobre, Kaká Werá e Denise Fraga (19/8).
O Brasil pode ser a esperança para o mundo?
Ao ser questionado sobre o lugar que o Brasil ocupa entre as lideranças ambientais, bem como os ensinamentos que teríamos para expor ao mundo, Gil cita "uma esperança, baseada efetivamente no modus operandi do País".
Uma esperança, segundo ele, que está nos nossos povos, nos nossos ecossistemas e nas nossas riquezas naturais. "O fato é que temos sido despertados cada vez mais para essa necessidade inevitável de agir."
Mas, como o cantor destaca, não só o mundo espera por mais ação. "Nós esperamos cada vez mais de nós mesmos. Porque todos os povos do mundo estão esperando que a sociedade humana cresça, se desenvolva, adote os valores da solidariedade com tudo e até com o planeta", diz Gil, que cita o Brasil como um dos países mais propositivos no modo de encarar "a si próprio, o ser humano, a natureza e os animais".
"É preciso que nós acreditemos cada vez mais no nosso gosto pela transformação e na nossa paixão pela conquista de novos modos de ser e de novos modos de estar no mundo."
'Bem permanentemente almejado'
Em 1995, Gil escreveu no hit Parabolicamará que "o mundo é grande, porque Terra é pequena, do tamanho da antena parabólica". Trinta anos depois, ele se diz surpreso com a IA. O compositor alega sempre ter confiado que o "progresso científico fosse acelerar esse processo de apropriação do conhecimento", mas "alguma coisa como a inteligência artificial, eu ainda não tinha condições de prever".
Segundo ele, tecnologias permitem uma maior conexão do ser humano com si próprio. "Essa coisa da substituição do esforço humano por uma certa tranquilidade, por uma certa quietude, proporcionando ao homem mais possibilidades de lazer, de entretenimento construtivo", falou ele, que acrescentou que "não é preciso ser alarmista", já que as tecnologias tendem a contribuir muito mais do que impactar negativamente.
"Eu não tenho muita expectativa em relação a uma superação definitiva do mal pelo bem. O bem é algo a ser permanentemente almejado. É esse almejar que vai nos dar instrumentos, ferramentas para estabelecer a cura naquilo que precisa ser curado", pontuou Gil.
"O que a gente tem que fixar no ser humano é o compromisso com o bem, com a bondade e com a solidariedade."
Legado de Gilberto Gil
Aos 83 anos, Gilberto Gil provou, como diz a música Drão, ser 'um imenso monolito', uma pedra que parece que sempre existiu e que durará por toda uma eternidade. São mais de seis décadas de carreira, com mais de 70 álbuns e nove Grammys. É reconhecido como artista da paz pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como Doutor Honoris Causa pelo Berklee College of Music [uma instituição musical de renome internacional] e como imortal pela Academia Brasileira de Letras.
Ao refletir sobre o legado que deixa para o mundo, Gil afirma que gostaria que sua contribuição fosse "a mais ampla possível". "Eu acho que está de bom tamanho", brincou ele, que completou em tom mais sério: "Enquanto houver bambu, vamos mandando nossas flechas."
"Quando digo que está de bom tamanho, estou dizendo que vai chegar uma hora que a contribuição vai ser o que ficou, o que ficará para além de mim, para além da minha vida, para além da minha pulsação natural, a minha pulsação dentro das forças naturais", explicou o cantor.
"Legado é ter estado fazendo coisas até hoje, até aqui, e continuar a fazê-las até o momento da transformação mais definitiva, no momento em que vamos ser plugados a outras forças que estão aí no universo."
Gil também fez uma reflexão sobre o que é a vida, definida como uma "vibração plena, permanente, em tudo que está enclausurado nessa corporeidade e tudo que extrapola essa corporeidade". Segundo ele, vida é tudo que a gente pensa, que a gente sente, que a gente vê, que a gente deseja, que a gente quer. "É tudo. Vida é vibração permanente."
E a arte existe, na opinião dele, porque a "vida não é suficiente". "Não basta", completou o cantor ao parafrasear Ferreira Goulart. "A arte é isso, as várias formas de tradução que a gente vai fazendo permanentemente sobre a vida em si, sobre o viver em si, as interpretações que a gente vai fazendo da vida. Tudo isso é a arte."
O artista não esconde o medo de "não ter forças para resistir aos ataques, aos caprichos da própria natureza, não ter força para dar as respostas aos ataques, para dar respostas às descrenças e aos ceticismos que nos ameaçam frequentemente."
Encontro Futuro Vivo
Gilberto Gil é um dos convidados do Encontro Futuro Vivo, evento que reunirá nomes como Ailton Krenak, Denise Fraga, Carlos Nobre, Gabor Maté e Johan Rockström para refletir sobre o futuro da vida no planeta. O Encontro acontece no dia 26 de agosto no Teatro Vivo, com transmissão do Terra.
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