Entrevista com Bruno Finco, o engenheiro brasileiro no WEC
Bruno se formou no Brasil e hoje trabalha nos principais campeonatos de endurance do mundo, como WEC e IMSA. E já venceu a Petit Le Mans!
O sonho de muitas pessoas que gostam de automobilismo é conseguir trabalhar internacionalmente, mas às vezes, se tem a ideia de que sair do Brasil não é possível. Bruno Finco, 27 anos, é engenheiro de pista, formado na USP de São Carlos, e já trabalhou nos três grandes campeonatos de endurance: Mundial de Endurance (WEC), Campeonato Norte-Americano (IMSA) e Europeu de Le Mans (ELMS). Ele deu uma entrevista para o Parabolica, contando da sua rotina e como chegou até o cargo que ocupa hoje em dia:
Participando desses campeonatos, Bruno já pode trabalhar nas principais provas de endurance do mundo, como as 24 Horas de Le Mans, as 24 Horas de Daytona e Petit Le Mans, a qual venceu em 2020 com a Scuderia Corsa na classe GTD. Também as 12 Horas de Sebring. Nesse final de semana, Bruno está participando da Super Sebring, nas 1000 Milhas do WEC.
Parabólica - Como você se interessou pelo curso de engenharia?
Bruno Finco - Desde que eu era criança eu já sabia que queria ser engenheiro; sempre gostei de construir coisas e desde pequeno o meu sonho era ter um computador para analisar dados mesmo sem saber o que era isto. O que eu não sabia ainda era que queria trabalhar com carros, isso eu só fui descobrir durante a faculdade. Então, a robótica me interessava muito, então resolvi fazer engenharia mecatrônica.
P - Então você não cresceu vendo automobilismo?
BF - Não, eu realmente desenvolvi essa paixão durante a faculdade, participando de um projeto extracurricular chamando Fórmula SAE, que a gente constrói um carro na faculdade, quando eu comecei a dirigir, foi aí que eu me apaixonei por automobilismo, dinâmica veicular e decidi trabalhar nessa área.
P - Como foi sua entrada para o projeto Fórmula SAE e sua experiência no projeto?
BF - O Fórmula me parecia não só muito desafiador mas também uma ótima forma de aplicar o que aprendia em sala de aula; na verdade não passei no processo seletivo mas continuei insistindo até entrar na equipe. Foi a melhor experiência que tive durante a faculdade; cresci muito não só como engenheiro mas também como pessoa. Fiz parte do sistema de suspensão, me tornando o chefe do sistema e depois o coordenador de dinâmica veicular e análise de dados da equipe. Ganhamos a competição no Brasil e isso nos deu a chance de ir competir nos EUA representando o país. Foi essencial para a minha formação e para onde estou hoje e sugiro a todos os estudantes de engenharia a fazerem parte de algum projeto, sendo o Fórmula SAE ou outro.
P - Quando percebeu que poderia trabalhar com isso e como surgiu a oportunidade de trabalhar nos EUA?
BF - Depois de um ano de equipe eu percebi que não só gostava muito do que fazia mas também tinha um bom desempenho, e claro que você se pergunta se não deveria trabalhar com isto. A empresa para qual trabalho hoje, OptimumG, fica nos EUA. É uma empresa que presta consultoria para equipes de corrida e fabricantes de carros de corrida, e eles também apresentam seminários na área. Eles vieram para o Brasil em 2014 para apresentar um seminário. Eu participei do seminário e vi que realmente era o que eu queria fazer e decidi que queria trabalhar nesta empresa. Continuei trabalhando e estudando com o objetivo de me juntar a eles, e foi o que aconteceu. Consegui a vaga e eles me trouxeram para os EUA.
P - Qual é sua posição atual dentro da OptimumG?
BF - Eu sou o principal engenheiro dos nossos projetos de consultoria, esses projetos para os nossos clientes podem ser em pista, como por exemplo: engenheiro de performance, pista ou dados. A gente também ajuda fabricantes de carros a projetar melhor esses veículos. Além disso, eu apresento seminários pela empresa, principalmente de dinâmica veicular e de engenharia de pista e análise de dados.
P - Como é sua rotina?
BF - Basicamente eu tenho dois tipos de rotina. Quando eu estou na pista, a gente acorda às 6h00 ou 7h00 no hotel, vai para a pista, fica analisando dados, recebendo feedback de piloto, trabalhando no setup do carro. Essa rotina dura até umas 19h00, voltamos para o hotel, eu continuo analisando e me preparando para o dia seguinte até a hora de dormir e isso se repete durante o final de semana inteiro.
Quando eu estou no escritório, eu desenvolvo diferentes projetos relacionados à engenharia automobilística no geral, como simulação, projeto de carro, análise de pneu ou eu estou coordenando as nossas equipes nesses projetos, porque temos múltiplas pessoas na empresa trabalhando em múltiplos projetos.
P - Falando um pouco mais sobre o seu trabalho em pista, especificamente corridas de endurance como as 24h de Le Mans, o que é mais importante, a durabilidade ou o desempenho?
BF - Em corrida de endurance hoje em dia, a durabilidade é um pré-requisito, você precisa conseguir correr por 24 horas, este é o mínimo que a sua equipe deveria fazer. Assumindo que você seja capaz, o que vai te diferenciar é o seu desempenho. Em corridas de endurance é muito interessante, pois não é só uma questão de máximo desempenho, mas principalmente de consistência.
O seu carro precisa estar ajustado para 3 ou 4 pilotos diferentes com estilo de pilotagem distintos. O automóvel precisa ter um balanço bom para altas temperaturas durante o dia e baixíssimas temperaturas durante a noite. De dia você precisa de um setup que seu pneu não esteja sofrendo com superaquecimento e durante a noite ele precisa estar quente o suficiente. Mas não se consegue mudar o setup radicalmente durante a prova. O foco principal é realmente nos pneus em uma corrida de endurance, então o papel do engenheiro é achar um equilíbrio entre alta performance e um menor desgaste.
P - Neste sentido, você tem alguma experiência interessante que pode contar?
BF - Sim, eu tenho alguns exemplos. Um deles foi nas 24 Horas de Daytona, tínhamos vários pilotos muito rápidos, só que durante a noite, quando a temperatura caia, o que é um grande problema em circuito que tem longas retas, pois a temperatura do pneu também cai, só um deles conseguia voltas muito rápidas, inclusive fazendo a volta mais rápida da corrida na classe. Era o piloto brasileiro Marcos Gomes
Então conseguimos entender que esse piloto era muito mais agressivo com o carro, ele conseguia, mesmo tendo o mesmo setup dos demais, conseguindo colocar mais temperaturas nos pneus. Tendo a telemetria, conseguimos melhorar o desempenho dos outros pilotos. Durante essas corridas de 24 Horas é normal, estar aprendendo sobre a situação, o contexto, a pista e se adaptando a isso, seja com questões de pneus, seja trabalhando com os pilotos e analisando os dados de telemetria.
P - Quais são suas dicas para quem tem vontade de trabalhar nesta área?
BF - Uma coisa é certa: não tem uma regra única sobre como conseguir trabalhar no automobilismo. A única coisa que todos nós na área temos em comum é que trabalhamos muito duro para isto. É necessário muito trabalho e aprendizado desde a época da faculdade, de preferência fazendo parte de projetos extracurriculares como Fórmula ou Baja. Após isso, continuar se aperfeiçoando com estudos e seminários, inclusive oferecidos no Brasil.
O próximo passo geralmente é conseguir uma oportunidade na pista como estagiário para mostrar que consegue contribuir para a equipe. Então basicamente tem que se preparar o máximo possível para quando você tiver a oportunidade de mostrar, ter todas as habilidades para mostrar que você merece esse tipo de trabalho e essa função.
Sobre seminários, como mencionei apresento seminários de análise de dados e dinâmica veicular. Não vejo a hora de estar de volta no Brasil este ano para o nosso próximo seminário lá. Sugiro ficar ligado no meu Instagram pois vou divulgar as datas do Brasil quando forem definidas.
Não vejo a hora de voltar para o Brasil para apresentar esses cursos, é sempre um prazer enorme, temos pessoas com muito potencial no país. Um fato interessante é que na OptimumG temos vários brasileiros, o que mostra a força dos nossos engenheiros, das nossas equipes de fórmula, tem várias pessoas muito ambiciosas, que trabalham muito bem e com muito potencial. A nossa empresa sempre está ligada em tentar trazer esse talentos de qualquer lugar do mundo, inclusive do Brasil.