A Ferrari achou o seu oásis no Bahrein ou é miragem?
Após anos de problemas, o início dos trabalhos do Bahrein deixa a Ferrari e os seus torcedores esperançosos
Quando a temporada 2020 começou, escrevi um texto chamando Mattia Binotto de “uma bomba relógio”. Até poderia considerar assim pois a Ferrari havia tido um ano um pouco abaixo de suas expectativas, embora Vettel tivesse lutado pelo campeonato com Hamilton. A cobrança sobre ele era enorme e não eram poucos que pediam sua cabeça.
Naquele ano, a Ferrari ainda caiu mais e foi iniciada uma grande reestruturação interna. O SF1000 havia nascido cheio de problemas e um motor refeito após um acordo “secreto” com a FIA diante das desconfianças do ano anterior. Em outros tempos, a demissão de Binotto seria líquida e certa. Entretanto, influenciados por John Elkann (Presidente do Conselho e neto do antigo todo poderoso da Fiat, Gianni Agnelli) e Louis Camileri, foi dada carta branca para suíço seguir em frente. Era hora de acabar com a “política da porta giratória” na equipe. Ou seja: chega de ficar trocando de pessoas a todo momento e vamos dar tempo para que as coisas se assentem. Especialmente quando havia a perspectiva de um novo regulamento.
A Ferrari optou pela paciência e acreditar no planejamento. Reviu processos, contratou gente e reorganizou a estrutura. Em 2021, decidiu fazer uma aposta em Carlos Sainz Jr para o lugar de Sebastian Vettel, que havia saído até defenestrado da equipe. Simone Resta foi trazido de volta da Sauber/Alfa Romeo e trabalhou na revisão do SF1000, que gerou o SF21. Por conta da manutenção do chassi, os italianos optaram por ir ao limite.
Enquanto isso, a equipe técnica se debruçava. Um novo motor era concebido, até já prevendo a nova mistura com etanol. Em paralelo, o novo simulador era terminado, bem como uma extensa revisão no túnel de vento era feita. Além disso, lançou-se mão de um nome que há muito não era ativado: Rory Byrne, o nome por trás da época de ouro da equipe com Michael Schumacher, que estava como “consultor”.
Quando o F1-75 foi apresentado, muitos chamaram a atenção para as suas soluções técnicas, além da volta das asas em preto, o que ativou o saudosismo dos anos 80/90. Após anos de lágrimas e sofrimento, a Ferrari vinha com um otimismo cauteloso. Afinal de conta, o esforço dos 2 últimos anos estava resumido naquele carro.
Mattia Binotto talvez ali fosse o mais interessado que tudo funcionasse. Ele foi quem convenceu a cúpula da Ferrari a fazer uma grande reorganização e investir todas as fichas no novo regulamento. O fiador de tudo era ele e, se o F1-75 não andasse logo, aí sim a coisa ficar ruim para seu lado.
Para o seu alívio, da equipe e milhares de torcedores espalhados pelo mundo, o carro andou bem logo de princípio. Embora também tenha sofrido com o porpoising (explicamos aqui), conseguiu tratar bem a questão ainda em Barcelona. E talvez tenha sido isso que chamou a atenção. O carro andou bem desde o início, sem grandes problemas, com os pilotos satisfeitos. E a equipe integrada, cumprindo com maestria o programa planejado.
Mesmo assim, mesmo para a imprensa italiana, Binotto tratou de ser moderado. Embora dissesse que ainda não era hora de pensar em títulos e vitórias, afirmou que a Ferrari seria competitiva. E os resultados no Bahrein tratam de mostrar que está certo, ao menos por enquanto.
Há de se ter cuidado de não pegar este recorte como definitivo para a temporada. Mas é bom ver a Ferrari aparentando ter condições de disputar vitórias e – por que não? – pensar em título. O carro é bem-nascido, o motor funciona bem (a estimativa é ter conseguido acabar com a diferença que havia entre Honda e Mercedes até o ano passado, estimada em 25/30 cv) e a dupla de pilotos talvez seja a mais forte do grid da F1 2022. Após tanto tempo de sofrimento, parece que a Terra Prometida se aproxima para a Ferrari.