Um império adoecido: o que a crise da Unimed no Rio de janeiro revela sobre a saúde suplementar no Brasil
Para o consumidor, a Unimed é uma marca única com promessa de cobertura nacional. Juridicamente, são centenas de cooperativas autônomas, cada uma registrada na ANS como operadora independente. Esse desenho fragmenta responsabilidades, geralmente na hora em que os pacientes mais precisam
Há poucas semanas, acompanhei minha mãe, de 71 anos, internada no CTI de um hospital da rede Unimed no Rio de Janeiro. Ela precisava de um procedimento e os dias passavam sem agendamento. Como pesquisadora de regulação em Saúde, fui procurar o gargalo onde a experiência indica: na operadora do plano.
Encontrei o contrário do que esperava. A operadora de origem, uma cooperativa do interior fluminense, seguia o rito, materiais em cotação, prazos em dia. Quem segurava o procedimento era o próprio hospital, que pertencia a uma cooperativa em colapso financeiro. A experiência, compartilhada por milhares de famílias fluminenses, ilustra duas falhas estruturais que a regulação ainda enxerga mal. A primeira diz respeito a como as operadoras crescem. A segunda, a quem responde quando elas quebram.
Como uma cooperativa de médicos vira um império
A economia tem um nome para organizações que crescem como fim em si mesmo, empire building. O mecanismo foi formalizado por Michael Jensen em um artigo clássico de 1986. Gestores tendem a expandir suas firmas além do tamanho ótimo, porque crescimento significa mais recursos, poder e remuneração. O conceito nasceu para empresas de capital aberto, vigiadas por acionistas e conselhos de administração. Cooperativas médicas têm conselhos assim, porém formados pelos próprios cooperados, os mesmos que elegem a diretoria. O dono externo, o preço da ação e o risco de compra hostil, que para Jensen disciplinam o gestor expansionista, inexistem nesse modelo. A governança fica marcada por disputas internas entre interesses individuais e os da organização.
A trajetória da Unimed-Rio é um caso de livro-texto. Nos anos de bonança, a cooperativa ergueu um hospital próprio na Barra da Tijuca e estampou sua marca por 15 anos na camisa do Fluminense, clube do coração de seu então presidente, em um patrocínio estimado em R$ 300 milhões. Montou uma holding com um portfólio diversificado de empresas, de corretora de seguros a participações em oncologia e até direitos econômicos de jogadores de futebol, uma diversificação não relacionada ao foco da Unimed que o próprio Jensen aponta como a mais propensa a destruir valor.
Quando o ciclo virou, os ativos foram vendidos a preço de reestruturação e restou uma dívida assistencial de R$ 1,6 bilhão. Em 2024, seus mais de 450 mil beneficiários foram transferidos para a Unimed Ferj, uma federação sem histórico como operadora, que afundou em seguida.
Ao longo de 2025, médicos cooperados sem receber passaram a recusar atendimentos e redes suspenderam contratos, entre elas a Oncoclínicas, ex-sócia da cooperativa que reapareceu na crise como uma das maiores credoras. No acordo bilionário com a Fazenda Nacional, o hospital da Barra foi entregue como garantia da dívida tributária. O monumento do império virou penhor.
A marca é uma, a responsabilidade é de ninguém
Para o consumidor, Unimed é uma marca única com promessa de cobertura nacional. Juridicamente, são centenas de cooperativas autônomas, cada uma registrada na ANS como operadora independente, conectadas pelo intercâmbio, o mecanismo pelo qual a cooperativa local atende o beneficiário de outra e depois cobra da cooperativa de origem.
Esse desenho fragmenta a responsabilidade na hora em que ela mais importa. No caso da minha mãe, a operadora de origem cumpriu sua parte. Quem segurava o procedimento era o hospital, vinculado a uma cooperativa que deve bilhões a fornecedores e funciona parcialmente por falta de recursos. Por mais estranho que pareça, segurar fazia sentido pela lógica econômica. Uma cirurgia custa caro no dia em que acontece, sala, equipe, materiais. O reembolso vem depois, pago por outra cooperativa, em um sistema que acumula bilhões em atrasos. Para quem está sem caixa, adiar é a decisão financeira racional.
E como um hospital segura uma cirurgia sem descumprir nenhuma regra? Pela classificação. Caso de urgência tem cobertura imediata. Procedimento eletivo pode aguardar até 21 dias úteis de autorização. Quem decide é o médico assistente, em decisão protegida como ato médico, que nenhuma instância revisa. No caso da minha mãe, a contradição ficou explícita. Ela já estava internada quando o médico nos informou que o procedimento não era urgente. O relatório da mesma cirurgia, entregue pelo hospital, a descreve como de urgência. A reclassificação não veio acompanhada de explicação, nem de mudança no quadro clínico. Quando o médico que classifica trabalha em uma instituição endividada, sua caneta pode virar o instrumento que transforma crise financeira em espera clínica, com aparência de decisão técnica.
Nada disso exige um vilão nem um plano conspiratório. Bastam os incentivos, como ensina Jensen. O problema está menos na maldade do gestor que no desenho que deixa todos sem freios. Autonomia médica pressupõe independência, que, em redes verticalizadas em colapso, fica sob suspeita.
A família reclama para quem? A operadora de origem responde que autorizou. O hospital responde que a decisão é clínica. A cooperativa dona do hospital já nem atua como operadora. E a ANS enxerga cada Unimed como uma empresa separada, sem ninguém encarregado de vigiar a saúde do conjunto. As soluções aparecem só de improviso. Foi assim em 2015, quando a Unimed Paulistana ruiu depois de anos de intervenções sem resultado e a ANS obrigou o repasse de seus 744 mil clientes a outras operadoras, e de novo em 2025, quando a agência mandou a Unimed do Brasil, dona da marca, assumir o atendimento dos pacientes da Ferj. A ironia é cruel. A mesma estrutura que deixa o paciente sem saber a quem cobrar foi a que permitiu à Unimed-Rio crescer por décadas sem uma vigilância do todo. Dez anos separam os dois colapsos. O desenho que os produziu permanece intacto.
O que a regulação ainda se recusa a ver
O caso confirma o diagnóstico de um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) de 2024. A relação entre operadoras e prestadores é o ponto mais nevrálgico do setor, repleta de incentivos perversos. A verticalização, na qual plano e hospital pertencem ao mesmo grupo, cria enorme potencial de conflitos de interesse, e o país carece de estrutura regulatória para monitorar a qualidade dos serviços nessas operações.
Em 25 anos, a ANS construiu um arcabouço razoável de regulação econômica, solvência, prazos, reajustes. A dimensão organizacional, porém, permanece à margem. Faltam requisitos de governança para cooperativas que administram bilhões, como conselhos de fato independentes e limites a investimentos fora da atividade-fim. O intercâmbio opera sem transparência e sem garantias para o paciente atendido longe de sua operadora de origem. A qualidade assistencial das redes próprias permanece fora de qualquer monitoramento sistemático.
Minha mãe recebeu alta. O procedimento saiu depois de duas semanas de insistência de uma família com tempo, informação e repertório para cobrar nas instâncias certas. A maioria dos beneficiários capturados por essa crise carece dos três.
Recentemente, a ANS ensaiou um passo nessa direção e começou a estudar um modelo de autorregulação supervisionada, no qual a Unimed do Brasil passaria a exercer uma primeira camada de fiscalização prudencial sobre as 336 singulares. É o reconhecimento de que a Unimed precisa ser regulada como um todo. Mas o desenho carrega o próprio paradoxo deste artigo, pois delega o primeiro controle a quem pertence à mesma família cooperativa e mira a solvência, não o cuidado. Nada na proposta toca no intercâmbio opaco, na verticalização ou na caneta que classifica uma cirurgia de urgência como eletiva. Enquanto a régua for só financeira, o paciente seguirá descobrindo, no pior dia, que a marca no cartão responde por muito pouco.
Elize Massard da Fonseca recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Fapesp (processo 2021/06202-0). Os autores relatam no texto a internação de um familiar, mãe e sogra respectivamente, em hospital da rede Unimed. As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores.
Rafael Palazzi não trabalha, presta consultoria, possui ações ou recebe financiamento de empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo.
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