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Treino híbrido: os benefícios e riscos de conciliar múltiplas atividades físicas

Combinar musculação, corrida e pilates traz benefícios à saúde, mas o exagero pode levar ao overtraining e a lesões graves

10 ago 2026 - 04h58
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Treino híbrido também é impulsionado por benefícios corporativos de atividade física
Treino híbrido também é impulsionado por benefícios corporativos de atividade física
Foto: Pexels

Musculação quatro vezes por semana, três treinos de pilates, cardio encaixado em dois momentos e uma aula de hot yoga para fechar a semana. Essa é a rotina da designer Paula Toni, de 34 anos, e reflete um fenômeno cada vez mais comum: a conciliação de múltiplas modalidades de atividade física, o chamado treino híbrido.

A frequência na academia, que antes parecia suficiente, hoje divide espaço com outras atividades populares nas redes sociais, como corrida de rua, pilates e yoga. No entanto, especialistas alertam: antes de aderir a tantas modalidades, é preciso entender que cada pessoa possui um ritmo próprio, limitações físicas e necessidades específicas de recuperação.

O que é o treinamento concorrente e como o corpo reage?

Na prática, o treino híbrido envolve o conceito de treinamento concorrente, que consiste na combinação de exercícios de força e aeróbicos em um mesmo programa. Segundo a doutoranda em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) Vanessa Santos Melo, a compreensão sobre o tema evoluiu. "Hoje, os estudos analisam como a ordem dos exercícios, a intensidade, o volume e o intervalo entre as sessões podem melhorar as adaptações do corpo. A principal recomendação é organizar essas variáveis de acordo com o objetivo principal do praticante", explica.

Quando bem planejadas, as modalidades se complementam. A musculação, por exemplo, promove ganho de força e massa muscular, preparando as articulações para o impacto da corrida; já a corrida e o cardio desenvolvem a capacidade cardiorrespiratória; e o pilates e a yoga aprimoram flexibilidade, mobilidade, equilíbrio e consciência corporal.

"Se a prioridade é ganhar força ou massa muscular, iniciar a sessão pela musculação favorece esses resultados. Se o foco é a resistência cardiorrespiratória, a corrida ou natação podem vir primeiro. Sempre que possível, também é interessante separar as sessões em turnos distintos", orienta Vanessa.

O caminho seguro: da lesão ao acompanhamento multiprofissional

A busca de Paula Toni pelo treino híbrido começou por necessidade de saúde, após o diagnóstico de uma hérnia de disco lombar. "Não fui uma criança incentivada a fazer esportes, no máximo participava nas aulas de educação física. E há muitos anos trabalho com design ou cargos administrativos, ou seja, passo o dia sentada. Essa inércia desencadeou um quadro daqueles que nos convoca a fazer atividade física para o resto da vida", relata a designer.

Para adotar um estilo de vida ativo com segurança, ela buscou o auxílio de profissionais de educação física e fisioterapia. "Comecei pelo pilates, que me fez perceber a fraqueza muscular. A musculação veio para melhorar minha postura e, com o tempo, percebi que tinha estrutura física para aulas mais longas de yoga. Virou uma espécie de terapia."

A designer Paula Toni concilia musculação, pilates, yoga e, quando consegue, cardio
A designer Paula Toni concilia musculação, pilates, yoga e, quando consegue, cardio
Foto: Arquivo Pessoal

A médica do esporte Karina Hatano ressalta que a abordagem multiprofissional é o ideal para quem pretende investir no treino híbrido. "Cada atividade tem uma mecânica e uma exigência específica. O médico do esporte cuida do indivíduo como um todo. Tanto aqueles que vão iniciar uma rotina de treinos, quanto os que já praticam atividade física, inclusive os atletas de alto rendimento. Analisa se é preciso algum ajuste, se a alimentação está adequada e se algumas condições exigem exames complementares, enquanto o profissional de educação física atua mais na parte da promoção de saúde e da melhora do condicionamento físico e do desempenho em diferentes modalidades orientando detalhes como a carga e a frequência dos treinos."

O perigo do excesso: quando o treino vira overtraining

Acompanhada por um profissional de educação física, Paula relata que trabalha em home office e chega a realizar até 11 treinos por semana quando a agenda permite. "Trabalhar de casa facilita essa rotina de treinos porque me dá mais horários livres. Minha semana costuma contar com sete ou oito treinos quando está mais básica e pode chegar a 10 ou 11 quando está mais completa. Talvez, trabalhando longe e gastando energia em transporte eu não conseguisse ter tanto tempo e energia", detalha. 

Apesar de a designer afirmar que lida bem com esse ritmo, ela já enfrentou um episódio que acendeu um sinal de alerta: após uma semana pesada de musculação e pilates, fez uma trilha intensa e acabou apresentando febre e vômitos por exaustão.

"Hoje, quando noto um cansaço excessivo - aquela sensação de que vou adoecer - ou sinto dores demais depois de um treino, sei que é hora de 'puxar o freio'", conta a designer.

O caso de Paula expõe um dilema comum: mesmo com orientação, a linha entre a dedicação e o vício em treino pode ser tênue. O cansaço mencionado pela designer é um dos principais sintomas de que o corpo não está conseguindo se recuperar. A médica do esporte Karina Hatano explica que o estresse crônico causado pelo treino excessivo afeta a regulação do cortisol, hormônio essencial para a liberação de energia e recuperação muscular.

O excesso de treino pode evoluir em três estágios:

Overreaching funcional: Cansaço pontual após treinos intensos, com recuperação “rápida”;

Overreaching não funcional: A incapacidade de se recuperar adequadamente entre as sessões, levando à queda de rendimento;

Overtraining: O estágio mais grave, quando o corpo para de responder aos treinos e apresenta sintomas como insônia, irritabilidade, dor muscular persistente, queda de imunidade, baixa libido e alterações menstruais nas mulheres.

Outro risco frequente em praticantes de múltiplas modalidades é a Síndrome da Deficiência Relativa de Energia (RED-S), causada pelo desequilíbrio entre o alto gasto calórico dos exercícios e um consumo alimentar insuficiente. A condição pode levar a fraturas por estresse, perda de massa óssea (osteopenia/osteoporose) e queda hormonal.

Sobre o uso de suplementos para aguentar a rotina, a médica faz uma ressalva: "A suplementação tem caráter complementar. Ela só é recomendada se a alimentação não suprir as necessidades de carboidratos, proteínas e micronutrientes, algo mais comum em atletas de alto rendimento."

O boom das plataformas de treino

A facilidade para praticar tantas modalidades tem sido impulsionada por benefícios corporativos de atividade física, como o TotalPass e o Wellhub (antigo Gympass). As plataformas oferecem acesso a milhares de academias, estúdios de pilates e aulas de yoga em uma única assinatura. Os números do mercado demonstram esse movimento: no segundo trimestre deste ano, a TotalPass registrou uma alta anual de 75% nos usuários ativos mensais, alcançando a marca de 4 milhões — segundo levantamento do BTG Pactual com base nos dados de inteligência da Sensor Tower. Já o Wellhub, seu concorrente direto, conta com 7,5 milhões de usuários ativos. 

Para Paula, o acesso facilitado e a flexibilidade do trabalho remoto viabilizam sua rotina. "Faço de fato uso máximo desse benefício. Pilates e yoga, por exemplo, são atividades físicas relativamente 'salgadas' [caras], mas trazem benefícios imensos. Então, para mim, um benefício como esse é indispensável, influencia totalmente na minha qualidade de vida. Consigo perceber a melhora nas dores, na resistência, no humor e na produtividade."

Recomendações para quem quer começar

O caminho mais seguro e eficiente para a construção de um plano de treinos híbridos envolve uma equipe ou consulta combinada, a depender do caso de cada praticante. A estratégia recomendada é consultar um médico do esporte para liberar a prática e montar um cronograma de treinos com um profissional de educação física. Alguns casos podem exigir o envolvimento de um fisioterapeuta desportivo para lidar com dores crônicas, histórico de lesões ou preparar o corpo para esportes de maior impacto.

Outras dicas simples podem fazer a diferença nesse processo:

Respeite o descanso: Os ganhos musculares e cardiovasculares acontecem durante a recuperação, e não durante o exercício.

Alimente-se adequadamente: O consumo de calorias e nutrientes deve ser proporcional ao volume de treinos.

Escute os sinais do corpo: Dores persistentes, queda no rendimento e alterações no sono indicam que é hora de reduzir a carga.

Fonte: Portal Terra
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