Se não pode vencê-los... Como a GM se alia à China para produzir elétricos e híbridos no Brasil
Companhia projeta fazer até 50 mil carros por ano na linha de produção da Pace (CE), incluindo a Captiva híbrida e o aguardado Celta elétrico, a partir de kits importados do país asiático
Para conter o avanço das marcas chinesas, a GM investe R$ 10,5 bilhões no Brasil e aposta em parcerias com a China para produzir modelos elétricos e híbridos no Ceará, como o Captiva plug-in e um compacto apelidado de "Celta elétrico". A estratégia inclui versões híbridas de seus SUVs, forte foco em exportações e negociações com Brasília para validar normas técnicas dos EUA, visando importar modelos de luxo, apoiando-se em sua ampla rede de pós-venda para manter a competitividade local.
Ao ver a rápida aceleração das marcas chinesas no Brasil, a veterana General Motors colocou em prática a máxima "se não pode vencê-los, junte-se a eles". A empresa planeja estreitar cada vez mais a estratégia para o mercado brasileiro com as operações e parcerias que mantém na China. Uma guinada asiática, mas ao seu próprio modo, com a visão de quem conhece bem o mercado consumidor local.
Há 101 anos no País, a empresa tem R$ 10,5 bilhões em investimentos em curso até 2028. Com esse aporte, foi a primeira a montar carros na Pace (Planta Automotiva Cearense), uma fábrica multimarcas instalada em Horizonte (CE). Ao longo de 2026, passou a fazer ali veículos com novas tecnologias de propulsão, como os elétricos Chevrolet Spark EUV e Captiva EV.
Primeiro Chevrolet híbrido está a caminho
O terceiro produto citado pelo executivo é o primeiro carro híbrido da Chevrolet a ser oferecido no Brasil: a versão plug-in da Captiva, que entra em linha ainda neste ano. O modelo é simbólico. Mostra a inflexão da companhia após defender, nos últimos anos, que a eletrificação deveria acontecer com transição direta dos carros a combustão para os puramente elétricos, sem passar pelos híbridos. Mais uma vez, a concorrência indicou que valia a pena "se juntar a eles".
"O que entendemos é que essa transição não vai acontecer da mesma forma nem na mesma velocidade em todos os mercados. Na América do Sul, precisamos considerar a realidade de cada país, a infraestrutura disponível e, principalmente, o que nossos clientes precisam", afirma Owsianski.
Celta elétrico vem aí e Sonic traz novas tecnologias
Em maio deste ano, a General Motors lançou o aguardado Sonic, SUV para competir no concorrido segmento subcompacto. O carro chegou apenas em versão a combustão e, por enquanto, mantém volume de vendas modesto. Em setembro, ficou na 31ª posição entre os automóveis mais vendidos, com 2,7 mil unidades.
Mas a companhia tem planos mais ambiciosos para o modelo. No começo de 2027, o carro deve passar a contar com uma configuração híbrida leve. "Ainda não vamos antecipar detalhes, mas o Sonic faz parte de uma ofensiva importante de produto e tecnologia que está só começando", promete Owsianski.
Em outra frente, a GM estuda montar na fábrica cearense um hatch compacto elétrico inédito — projeto baseado no Wuling Bingo Pro e apelidado pelo mercado de "Celta elétrico" pela proposta urbana que lembra o ícone dos anos 2000. O modelo é fruto da joint venture da companhia com as chinesas Saic Motor e Guangxi Automobile Group.
O presidente da GM para a América do Sul não confirma os detalhes, mas indica a movimentação: "Avaliamos o projeto de um hatch compacto inédito da Chevrolet, que pode ampliar nossa linha de veículos elétricos na região. A produção no Brasil também está entre as possibilidades", diz.
Mudança nas regras para trazer Escalade e GMC
Enquanto busca velocidade e escala com a China, a GM também trabalha nos bastidores de Brasília para destravar a vinda de modelos de topo de linha da sua matriz norte-americana. A montadora negocia com o governo federal o reconhecimento mútuo dos padrões de segurança automotiva dos EUA (as normas FMVSS) nos processos de homologação brasileiros. A medida é o passaporte necessário para abrir as portas à importação modelos de luxo como o Cadillac Escalade e as picapes pesadas da GMC.
"Para ampliar no Brasil a oferta do nosso portfólio global, é importante avançarmos no reconhecimento dos padrões de segurança norte-americanos. São regras robustas e esse reconhecimento pode abrir espaço para novos produtos por aqui. Estamos avançando nas discussões com o governo e os órgãos reguladores", explica Owsianski.
Um olho na concorrência, outro nas exportações
Se, de um lado, a GM oxigena a gama de produtos com novas tecnologias e projetos vindos da Ásia e dos EUA, de outro, Owsianski entende que a companhia tem bons ativos para enfrentar a nova concorrência. "Este é um dos ambientes mais competitivos que vi em mais de 30 anos de indústria automotiva. Entrar em um mercado é uma coisa; construir uma relação de longo prazo é outra", avalia.
O executivo lembra que a empresa tem cerca de 1.000 concessionárias na América do Sul e, assim, segundo ele, conta com a estrutura necessária de pós-venda. Além disso, entende que é preciso olhar além do volume bruto de vendas. "Não estamos buscando volume a qualquer custo. Queremos crescer com qualidade e rentabilidade."
Nessa toada, a GM fortaleceu outra frente em 2026: as exportações a partir do Brasil, que cresceram 15,5% para países vizinhos. Para 2027, o plano é dar outro salto de 20%. Tudo isso sem tirar os olhos do mercado interno e da transformação rápida nas lojas — e nas ruas.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.