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Sarajevo sempre foi a esquina do mundo

Os Balcãs sempre foram um caldo de confusão

4 fev 2024 - 06h20
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Foto: Pedro Silva

Salve, salve!!! Salve-se quem puder. 

Em setembro de 2005 estive em Sarajevo com um casal de amigos. Era um feriado prolongado em Viena de onde partimos de ônibus para uma longa viagem de 15 horas até a capital da Bósnia-Herzegovina.

Um povo feliz e simpático, cidade com comida e cerveja boas, muita história, cultura, guerras e religião na chamada esquina do mundo.

A trilha sonora não será com Pavarotti e Bono Vox cantando Miss Sarajevo. Pouparei vossos ouvidos de tamanho ruído. Criei a playlist Balkan Express especialmente para este artigo. Os artistas são Revolt e Helem Nejse (Bósnia), nipplepeople (Croácia), Zeta Retícula, Magnífico, Laibach e Valentino Kanzyani (Eslovênia) além do magnífico Béla Bartók que nasceu na Romênia.

Aproveite a viagem!

Sarajevo, onde todas religiões se convergem

Separadas por apenas 200 metros numa das principais ruas da cidade vemos uma igreja católica, uma outra ortodoxa, uma sinagoga e no final da rua, já na pracinha, uma mesquita muçulmana, claro.

Isso explica por que Sarajevo é chamada de Esquina do Mundo. Uma cidade única onde várias crenças religiosas aparentemente sempre conviveram em paz e harmonia. Onde o Ocidente se encontra com o Oriente, numa fronteira que durante centenas de anos delimitava dois grandes impérios, o Austro-húngaro e o Otomano. Mundos Cristão e Islâmico juntos.

Em 2005 a cidade ainda se recuperava da recente guerra encerrada em 1995. Muitos prédios com buracos de balas e em escombros dividiam nossos olhares com o cotidiano das pessoas.

Feiras ao ar livre, pequenos cafés e lojinhas de bugigangas, uns poucos turistas, crianças indo à escola, adultos trabalhando com o que dava pra fazer e uma certa paz e tranquilidade raras nos últimos tempos.

Almoçamos numa cervejaria e a piva local era muito boa, por sinal. À noite, após o jantar, caimos na night life bósnia com direito a disco numa gandaia de respeito cheia de jovens muito animados.

Impressiona a quantidade de cemitérios nas colinas das cidades. Sarajevo fica num vale cortado pelo belo rio Miljacka e é rodeada por colinas. Subimos até uma delas pra conferir. As datas nas lápides indicavam a imensa maioria das mortes ocorridas entre 1992 e 1995, quase todos homens entre 18 e 50 anos. O massacre de uma geração.

Primeira Guerra Mundial

Foi justo numa ponte sobre o rio Miljacka onde ocorreu a tentativa de atentado contra o arquiduque austríaco Franz Ferdinand, filho do Kaiser Franz Joseph, vulgo Francisco José, e sua esposa. Um jovem terrorista partisano sérvio e sua trupe colocaram bombas na ponte que seriam detonadas durante a passagem do comboio imperial. Um erro de cálculo fez tudo explodir após os carros passarem. Alguns atabalhoados terroristas pularam da ponte. O arquiduque e sua turma fugiram assustados, mas ao invés de se mandarem da cidade o mais rápido possível, resolveram passar na prefeitura da cidade para se acalmar e deixar a poeira baixar.

Foto: Pedro Silva

As tensões entre a Sérvia, a Rússia, a Alemanha e os Habsburgo da Áustria estavam em alta na época. Desde o início essa viagem foi considerada uma temeridade. A visita seria uma tentativa do Império Austro-húngaro de demonstrar força e coesão na capital bósnia.

Após o frustrado atentado, Gavrilo Princip, um dos terroristas de 19 anos, estava tranquilo e sereno num bar saboreando um café bósnio, similar ao turco, comendo um burek e se lamentando pelo atentado frustrado quando viu o carro do arquiduque entrando numa rua sem saída. Ao engatar a ré e tentar retornar o carro ficou ali, na frente do bar e do terrorista, que dessa vez não titubeou. Largou a xícara e o lanche pela metade, e disparou dois tiros certeiros, um em Franz Ferdinand e outro em sua esposa, Sofia Chotek, matando ambos.

Após o assassinato duplo, os Habsburgo declararam guerra à Sérvia arrastando um a um os países europeus para o conflito. Foi iniciada a Primeira Guerra Mundial que durou quatro anos, entre 1914 e 1918.

Voltando a 2005 e à guerra de 1992-95, durante sua luta pela independência a Bósnia não teve o mesmo destino pacífico da Eslovênia, como relatado em meu último artigo que você pode ler aqui.

A Sérvia, com o apoio e conivência da Croácia, estava interessada em dividir o país e em promover uma limpeza étnica. A Bósnia tinha acabado de declarar independência da Iugoslávia e ainda não tinha um exército. A cidade foi defendida por civis, a maioria sem armas. Os muçlumanos sofreram mais, foram caçados e massacrados.

O cerco de Sarajevo é um dos mais longos da história moderna, começando em 5 de abril de 1992 até 29 de fevereiro de 1996. Durou três vezes mais que o cerco de Stalingrado e um ano a mais que o de Leningrado, hoje São Petersburgo. Foram 1.425 dias de agonia e desesperança.

Foto: Pedro Silva

O massacre mais célebre e cruel foi em Srebrenica, na época considerado um espaço seguro pela ONU. No começo de julho de 1995, mais de 8 mil homens e meninos mulçumanos foram feitos prisioneiros e assassinados brutalmente pelos soldados sérvios da Bósnia comandados pelo general Ratko Mladic.

Estupros em massa foram cometidos e os sobreviventes expulsos. Foi o maior crime de guerra na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Os sérvios negam até hoje o genocídio e tentam reescrever a história glorificando criminosos de guerra. Já os bósnios querem o reconhecimento do massacre.

E pensar que no Brasil mais de 50 mil pessoas são assassinadas todo ano. Mais de seis vezes os mortos de Srebrenica. Todo ano!

Mas parece estar tudo normal, sob controle.

Pra ver e ler

FILME: Underground (1995) – Emir Kusturica. Loucura coletiva e humor negro durante a Guerra da Bósnia.

"Underground" pode ser resumido na história da ex-Iugoslávia no século 20 transformada em comédia de humor negro. O filme deu ao diretor bósnio nascido em Sarajevo, Emir Kusturica, sua segunda Palma de Ouro em Cannes. A primeira veio em 1985 com "Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios".

As primeiras cenas revelam o estilo selvagem do diretor: em Belgrado, ao raiar do dia de um domingo em 1941, dois barulhentos boêmios, Crni (Lazar Ristovski) e Marko (Miki Manojlovic), voltam da gandaia atirando para o alto, seguidos por uma ruidosa banda.

A loucura coletiva de "Underground" vai aumentando quando um bombardeio nazista atinge o zoológico da cidade. Alguns animais morrem, outros fogem e saem às ruas. O diretor evidencia sempre em seus filmes o contraponto entre homens e feras realçando o que há de animal no comportamento e conduta humana.

Qualquer tipo de moral ou boas maneiras vai pro espaço. Sexo, bebedeiras homéricas, brigas de bar, vingancas e traições, tudo é possível pra essa turba enlouquecida que vive como se não houvesse uma guerra e seus dias estivessem contados. Como se fossem ciganos vivendo sem saber o que fariam no dia seguinte, sem se importar.

As quase três horas de filme mostram que, durante a ocupação nazista do país, Marko e Crni, comunistas aproveitadores, criam um esconderijo no submundo da cidade com vários de companheiros onde guardam e fabricam armas.

A partir daí, Marko ascende na hierarquia do Partido Comunista, vira assessor do temido marechal Tito. A guerra acaba com Tito conquistando o poder. Marko decide manter seus amigos no subterrâneo, na ignorância e alheios aos acontecimentos, como se o conflito continuasse.

O filme é baseado numa peça de teatro de Dusan Kovacevic. Kusturica quer mostrar que, sob pressão, o ser humano mostra seu pior lado, independente de sua origem étnica ou geográfica.

Preciso rever essa pérola. Leia essa longa e interessante entrevista com o diretor.

Quando perguntado “Porque se dedicou ao cinema?” ele responde:

"Para não ser um criminoso. Eu teria feito qualquer coisa para não cair no ambiente de crime que me rodeava. Todas as pessoas com quem cresci em Sarajevo tornaram-se criminosos. Também vivi fora da lei algumas vezes, mas sabia quando tinha que parar. Eu sabia qual o limite dessa linha e que se a cruzasse, tudo iria pelos ares."

LIVRO: Maybe Airlines – Fernando Costa Netto (Dandao)

Talvez você consiga voar, é o que nos conta o livro do jornalista Fernando Costa Netto com fotos e histórias de sua cobertura in loco do cerco a Sarajevo durante a Guerra na Bósnia. Dandão, como é conhecido, é um dos fundadores da revista Trip e ex-editor chefe do Notícias Populares.

O título do livro, algo como “Talvez linhas aéreas”, mostra como era precária a situação em Sarajevo. Como ele mesmo relata: “Para chegar lá, você tinha de pegar ‘carona’ em um avião da ONU, que partia de Split na Croácia ou de Ancona na Itália. Além de funcionários da instituição, havia itens de ajuda humanitária. O embarque para jornalistas e fotógrafos não era garantido.”

A sinopse da editora:

No verão de 1993, o fotojornalista Fernando Costa Netto desembarcou em Sarajevo com 400 dólares no bolso e sem qualquer tipo de retaguarda. Andava a pé e passava as noites no sofá de uma casa de família. Mas foi esse contato direto com a população que deu a ele uma perspectiva única: a da cidade fora da bolha da imprensa, castigada pelas bombas dos chetniks.

Vinte e cinco anos depois do fim do cerco de Sarajevo, as imagens continuam impactantes – e motivaram a edição deste livro, que contém, além de fotografias e relatos de Costa Netto, um posfácio assinado por Leão Serva, que alerta para a fragilidade das instituições nos Bálcãs e mostra como Sarajevo pode estar próxima de encarar de novo a máquina de morte que jamais deixou de assombrá-la.

SITE: Sniper Alley Project, tristes registros de uma guerra.

O objetivo deste projeto é encontrar, identificar e arquivar fotos tiradas em Sarajevo durante o cerco que durou 1425 dias, o mais longo da história moderna.

Durante esse período, os cidadãos de Sarajevo viviam no "modo de sobrevivência". Conseguir água, comida e qualquer outro item básico era uma tarefa perigosa, pois assim que você saísse de seu abrigo, se tornava alvo de atiradores e granadas.

O Sniper Alley ou “Beco do Atirador de Elite" era o nome informal das ruas Zmaja od Bosne e Meša Selimović Boulevard, a avenida principal de Sarajevo que durante a guerra da Bósnia estava repleta de postos de atiradores e se tornou famoso como um lugar perigoso para civis atravessarem.

A avenida conecta a parte industrial da cidade e suas áreas residenciais aos locais históricos e culturais da Cidade Velha. O bulevar tem muitos prédios altos dando aos atiradores de elite extensos campos de visão e fogo.

As fotos são de cortar o coração. Estão no Instagram também.

(*) Pedro Silva é engenheiro mecânico, PhD em Materiais, vive em Viena na Áustria, prometeu voltar a Sarajevo para ver o progresso da cidade e escreve semanalmente a newsletter Alea Iacta Est.

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