Quarenta anos depois, o gol da "Mão de Deus" de Maradona ainda é celebrado. Mas deveria?
Um filósofo do esporte conduz os leitores por uma reflexão sobre a ética do gol mais famoso de Diego Maradona — e também o mais polêmico
No futebol, gols memoráveis geralmente estão ligados aos jogadores que os marcaram. Poucos conseguem ser lembrados sem mencionar o atleta — ou até mesmo a equipe — envolvida.
No entanto, dois gols marcados em uma mesma partida há 40 anos alcançaram esse status. Um é conhecido universalmente como a 'Mão de Deus', e o outro é amplamente reconhecido como o 'Gol do Século'. Ambos foram marcados pelo craque argentino Diego Maradona contra a seleção da Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo da FIFA 1986, no México, no Estádio Azteca, em 22 de junho de 1986.
Um cartaz retratando o gol daAntonio Balasco/Kontrolab/LightRocket via Getty ImagesOs gols, marcados com apenas alguns minutos de diferença, estão entre os poucos que continuam sendo imediatamente reconhecidos décadas depois — e têm um significado especial na Argentina. Sua importância era tão grande que, em 2012, quando a então presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner inaugurou a "Galeria dos Ídolos Populares" na Casa Rosada, sede da presidência do país, a exposição incluiu fotos de ambos os gols.
Mas foi a 'Mão de Deus' que mais se destacou. A imagem icônica de Maradona com o braço estendido, socando a bola por cima do goleiro inglês Peter Shilton, foi colocada em destaque, chamando a atenção dos visitantes.
Um ano após a inauguração da Galeria dos Ídolos Populares, visitei-a com um grupo de estudantes universitários internacionais que participavam de um programa de intercâmbio coordenado por minha esposa. Sabendo que eu era filósofo do esporte, alguns integrantes do grupo me fizeram uma pergunta ética: por que um gol marcado de forma ilegal - que deveria ter sido anulado por um toque de mão evidente - recebeu tanto destaque no palácio presidencial? A mesma pergunta pode ser feita sobre o lugar que esse lance ocupa hoje no imaginário argentino, com sua imagem aparecendo com frequência em murais, camisetas e canções.
Como expliquei aos alunos, para entender por que aquele jogo e aqueles gols de Maradona - dos 34 que ele marcou pela seleção - se tornaram tão marcantes no imaginário argentino, é necessário refletir sobre a complexa história das relações anglo-argentinas.
Relações anglo-argentinas
Desde o final do século XVI, a Grã-Bretanha buscou expandir seu império para a América do Sul, principalmente para ampliar os mercados de seus produtos em outras regiões.
Após tentativas fracassadas de invadir Buenos Aires em 1806 e 1807, a Grã-Bretanha desempenhou um papel importante na independência da Argentina em relação à Espanha alguns anos depois. Durante o restante do século XIX e o início do século XX, os britânicos tiveram uma presença marcante na economia argentina. Os investimentos eram tão expressivos e a comunidade de expatriados britânicos tão numerosa que a Argentina chegou a ser descrita como o 'Sexto Domínio' da Grã-Bretanha. O futebol, trazido por essa comunidade, também se tornou uma paixão dos argentinos.
Ainda assim, a relação entre os dois países foi, em alguns momentos, marcada por antagonismos. Um dos principais pontos de disputa envolvia um grupo de ilhas localizado a cerca de 300 milhas da costa sul-americana, conhecido como Falkland Islands no Reino Unido e como Islas Malvinas na Argentina.
A Grã-Bretanha ocupa as ilhas desde 1833, enquanto a Argentina as reivindica como suas desde então. O aumento das tensões culminou em uma guerra em 1982, quando a Argentina, que na época estava sob uma ditadura militar brutal, enviou uma expedição militar para as ilhas.
A resposta decisiva da Grã-Bretanha derrotou a incursão argentina. A perda da guerra foi uma experiência traumática para a Argentina, mas também representou um passo importante para o retorno do país à democracia no ano seguinte.
A Copa do Mundo de Maradona
As relações entre os dois países ainda eram tensas quando Argentina e Inglaterra se enfrentaram durante a Copa do Mundo da FIFA 1986. As relações diplomáticas ainda não haviam sido restabelecidas, e muitos argentinos viam o jogo como uma oportunidade de homenagear os soldados conscritos que morreram na guerra e lembrar ao mundo a reivindicação do país sobre as ilhas Malvinas/Falklands.
Era um jogo carregado de complexas conotações políticas e históricas. E a Argentina entrou em campo contando com o maior jogador daquela época: Diego Maradona.
Como Eduardo Galeano, conhecido como "poeta laureado global do futebol", escreveu em 1995: o México '86 "foi a Copa do Mundo de Maradona".
"Com dois gols de canhota contra a Inglaterra, Maradona vingou a ferida causada ao orgulho de seu país pela Guerra das Malvinas/Falklands: o primeiro foi marcado com a mão esquerda … e o outro com o pé esquerdo, depois de deixar os defensores ingleses pelo caminho."
Em apenas cinco minutos, Maradona elevou o ânimo de sua nação e foi elevado ao status de ídolo entre os ídolos. Após a partida, enquanto a polêmica em torno do primeiro gol se espalhava, Maradona, seguindo a sugestão de um jornalista, concordou que o lance havia sido marcado pela "Mão de Deus".
Embora o segundo gol tenha sido a encarnação da beleza do futebol, o imaginário associado ao primeiro tornou-o igualmente - ou até mais - icônico.
O fato de a Argentina ter conquistado o título mundial apenas reforçou a reputação eterna de Diego Maradona, independentemente do que ele fizesse. Sua morte, em 25 de novembro de 2020, provocou uma onda de luto na Argentina e em todo o mundo.
Tudo que é bom no jogo
De volta ao palácio presidencial, os estudantes me pressionaram sobre como eu e outras pessoas deveríamos nos sentir em relação a "Mão de Deus". Minha resposta, ecoando argumentos filosóficos que apresentei em um capítulo que escrevi para um livro coeditado com o filósofo Daniel G. Campos, foi a seguinte:
O contexto é importante para compreender o significado que muitos na Argentina atribuíram àquele gol. Apesar disso, o contexto não pode justificá-lo.
O futebol é uma prática social regulada por regras e pelo que os filósofos chamam de "bens internos" - recompensas intrínsecas que surgem da participação em uma atividade. Esses bens internos não apenas definem o futebol, mas também representam a base de seus padrões de excelência. Eles englobam aquilo que se conhece como habilidades "constitutivas" e "restaurativas", que o esporte pretende testar.
As habilidades constitutivas são aquelas empregadas durante o jogo e incluem driblar, passar, chutar a bola e criar espaços. Já as habilidades restaurativas são empregadas quando a partida é interrompida e incluem a habilidade de cobrar pênaltis e escanteios, entre outras.
Por causa de sua estrutura, no futebol esses conjuntos de habilidades estão claramente relacionados a diferentes maneiras de controlar e chutar a bola com os pés.
Um gênio do futebol… e um caso de trapaça
Marcar gols com a mão não é nem uma habilidade constitutiva nem restaurativa do futebol. Em vez disso, é uma "habilidade extra-lúdica" — isto é, uma habilidade que não deveria ser testada e que, portanto, não pertence legitimamente ao jogo.
Na verdade, marcar um gol com as mãos contradiz e desonra os bens internos que definem o futebol e seus padrões de excelência. Nesse sentido, a 'Mão de Deus' diminui o valor da competência pela qual os jogadores se distinguem.
Além disso, trata-se de um caso inequívoco de trapaça. Maradona violou intencionalmente e sorrateiramente uma regra do esporte para obter uma vantagem que não teria obtido de outra maneira - isso distorce o jogo, prejudica o resultado e desrespeita a equipe adversária.
Não deveria, como tal, ser incentivado nem celebrado. Pelo contrário, deveria ser condenado.
Pior ainda, ele desvia a atenção do tipo de futebol que Maradona - que sofreu faltas repetidas dos jogadores ingleses durante toda a partida - demonstrou no segundo gol. De fato, o futebol é honrado e floresce com esse tipo de jogada.
Ao longo de uma corrida de cerca de 55 metros, Maradona driblou os adversários, escapou de tentativas de desarme e deixou os defensores ingleses indefesos antes de superar o goleiro com uma finalização precisa. O jornalista Brian Glanville descreveu o lance, em 1993, como "surpreendente, um gol tão incomum, quase romântico". E acrescentou: "Ele dificilmente se encaixaria a uma era aparentemente tão racional e racionalizada como a nossa."
Esse gol é, sem dúvida, o mais celebrado da história das Copas do Mundo.
Quarenta anos depois daquela partida histórica entre Argentina e Inglaterra, eu sugiro que a Argentina e o mundo do futebol façam duas coisas ao mesmo tempo: condenem o escandaloso gol da 'Mão de Deus' e celebrem o sublime 'Gol do Século', sem jamais esquecer o contexto em que ambos aconteceram.
Tradução por Ana Carolina Guimarães Nogueira
César R. Torres também é Professor Emérito Distinto de Cinesiologia, Estudos Esportivos e Educação Física na Faculdade de Brockport, da Universidade Estadual de Nova York
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