Produção industrial no Brasil surpreende com maior alta em um ano e meio em janeiro
A produção industrial no Brasil registrou alta acima do esperado em janeiro, iniciando 2026 com o crescimento mais forte em cerca de um ano e meio depois de ter apresentado fraqueza ao longo do ano passado, embora o resultado ainda não seja visto como uma mudança de trajetória.
Em janeiro, a indústria teve alta de 1,8% sobre o mês anterior, resultado que ficou bem acima da expectativa em pesquisa da Reuters de ganho de 0,7% e marcou o maior avanço desde junho de 2024 (+4,4%).
Os dados divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram ainda que, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, houve aumento de 0,2% na produção industrial, interrompendo três meses seguidos de queda, contra expectativa de retração de 0,7%.
"O cenário para nós não muda: o saldo negativo permanece, temos excedentes de estoques, seguem os efeitos negativos da política monetária", disse André Macedo, gerente da pesquisa no IBGE. "O crescimento de 1,8% não pode ser considerado de forma isolada. Basta olhar para meses anteriores e se vê que não é uma mudança de trajetória da indústria."
Segundo ele, o resultado de janeiro pode ser parcialmente explicado pelo comportamento do setor em dezembro, quando a produção teve queda de 1,9%, a mais forte desde março de 2021, devido a férias coletivas.
"Com a retomada das atividades produtivas no início do ano, ocorre uma recuperação de parte dessa perda", disse ele.
A indústria está 15,3% abaixo do nível recorde alcançado em maio de 2011.
De acordo com os dados do Produto Interno Bruto divulgados nesta semana, a indústria teve crescimento de 1,4% em 2025, enfraquecendo depois de ter avançado 3,1% em 2024, em um ano marcado principalmente pela política monetária restritiva.
Com a taxa básica de juros Selic em 15%, a expectativa para 2026 é de cortes, começando na reunião de 17 e 18 de março, o que pode ajudar o setor industrial em meio a uma inflação mais baixa e a um mercado de trabalho forte. No entanto, a guerra no Oriente Médio agora afeta as perspectivas.
"Mesmo com o provável início do ciclo de cortes da Selic em março, os juros ainda permanecerão em patamar restritivo, pesando sobre a indústria. Apesar do bom desempenho em janeiro, a perspectiva para os próximos meses é de desaceleração, puxada principalmente pela indústria de transformação", disse Heliezer Jacob, economista do C6 Bank.
Em janeiro, 19 das 25 atividades industriais pesquisadas tiveram resultados positivos na comparação com dezembro, um espalhamento que, segundo o IBGE, não era visto desde junho de 2024, quando 23 das atividades avançaram.
As principais influências positivas foram dadas pelos setores de produtos químicos (6,2%), veículos automotores, reboques e carrocerias (6,3%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (2,0%).
Entre os produtos químicos, os que mais impulsionaram o resultado foram adubos e fertilizantes, herbicidas e fungicidas, todos ligados ao setor agrícola, que tradicionalmente ganha impulso no início do ano.
Entre os resultados negativos, destacam-se máquinas e equipamentos (-6,7%), influenciadas por bens de capital para fins industriais e também para fins agrícolas. "Lembrando que o comportamento negativo do setor guarda relação com o movimento de aumento de taxas de juros", explicou Macedo.
Em relação às categorias econômicas, todas apresentaram altas em janeiro na comparação com o mês anterior -- bens de consumo duráveis (6,3%), bens de capital (2,0%), bens intermediários (1,7%) e bens de consumo semi e não duráveis (1,2%).