Premiê canadense exalta aproximação com UE apesar das ameaças de Trump
O premiê canadense, Mark Carney, defendeu uma aliança estratégica com a União Europeia, que avalia conceder ao Canadá o inédito status de "membro associado". A proposta visa ampliar a cooperação em defesa, energia e tecnologia para garantir resiliência e soberania comercial. A iniciativa ocorre em meio a tensões com os Estados Unidos, após Donald Trump classificar o plano como hostil e ameaçar retaliar a Europa com tarifas pesadas e o corte das relações comerciais com o bloco.
"Ninguém nos vai dizer com quem podemos assinar acordos" disse Mark Carney no Parlamento Europeu. Presidente dos EUA criticou proposta da UE de conceder status especial ao Canadá e ameaçou cortar o comércio com a Europa.O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, minimizou nesta quinta-feira (17/09) uma ameaça de retaliação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao propor uma nova aliança com a União Europeia (UE) como forma de resistir a pressões externas.
"Ninguém nos vai dizer em que língua temos de falar nem com quem podemos assinar acordos internacionais", afirmou Carney durante uma coletiva de imprensa, após discursar no Parlamento Europeu em Estrasburgo, na França.
O discurso de Carney ocorreu após a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sugerir nesta quarta-feira, em pronunciamento aos legisladores da UE, que o Canadá poderia se tornar o primeiro "membro associado" do bloco das 27 nações.
Trump reagiu à proposta de von der Leyen, que classificou como "ridícula", e afirmou a jornalistas que "se eu a considerar um ato hostil, imporei tarifas muito elevadas ou interromperei todo o comércio com a Europa".
"A Europa e o Canadá são mais fortes juntos", disse o líder canadense em seu discurso, aplaudido de pé pelos parlamentares. Ele afirmou que seu país vê com bons olhos a proposta da UE e deseja uma cooperação mais profunda em questões que vão da inteligência artificial (IA) até defesa e energia.
Carney tem buscado laços mais estreitos com a Europa à medida que seu país é cada vez mais arrastado para uma guerra comercial com os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, as relações entre a UE e os EUA também têm sido fortemente tensionadas por tarifas e ameaças territoriais.
"Buscamos resiliência para que ninguém - ninguém - possa controlar nossos mercados abertos, prejudicar nossa soberania, ameaçar nossa integridade territorial ou minar nossas liberdades, nossas democracias e nosso Estado de direito", disse Carney em Estrasburgo.
Parceria "não constitui um ataque a ninguém"
A chefe do Executivo da UE enfatizou que a parceria "não é contra ninguém". Em seu discurso anual sobre o Estado da União Europeia nesta quarta-feira, von der Leyen mencionou a criação de uma aliança tecnológica com o Canadá, a integração das bases industriais de defesa e a transformação do Árticoem um "projeto conjunto emblemático".
Carney, da mesma forma, buscou assegurar a Washington que a aliança não seria antagônica, mas sim uma iniciativa positiva. "Um Canadá mais forte e resiliente será um parceiro mais eficaz para os Estados Unidos", afirmou o premiê a jornalistas.
Ele sublinhou que seu país tem o direito soberano de ampliar a sua rede comercial e garantiu que a parceria com a UE não constitui um ataque a ninguém, mas sim um meio de duplicar o acesso do Canadá aos mercados globais e passar a atingir três bilhões de consumidores.
O Canadá poderia ajudar a Europa a garantir o fornecimento de matérias-primas críticas e contribuir para suas necessidades energéticas com gás natural liquefeito (GNL) e hidrogênio, disse o líder canadense. Ele também ofereceu parcerias nas áreas de IA, computação, pesquisa espacial e sistemas de pagamentos.
As duas partes deveriam avançar em direção a um "comércio digital fluido" e permitir que os jovens trabalhem e estudem em ambos os lados do Atlântico, enfatizou.
O primeiro-ministro disse que continua aberto a negociar acordos com os EUA, mas sublinhou que qualquer negociação deve ser feita com base no respeito mútuo pela soberania e pelas instituições de cada país.
A visita de Carney a Estrasburgo ocorre em antecipação à cúpula UE-Canadá, que ocorrerá em Montreal no próximo mês.
O que significa a condição de "membro associado"?
Atualmente, não existe um status de "membro associado" previsto nos tratados da União Europeia, embora diferentes modelos de associação tenham sido discutidos no bloco ao longo dos anos.
Mais recentemente, a Alemanha sugeriu que a Ucrânia se tornasse um membro associado como uma etapa intermediária para a adesão plena. O país, em guerra com a Rússia, teria permissão para participar das cúpulas do bloco e contar com um representante na Comissão Europeia, além de se beneficiar de partes do orçamento da UE, mas sem direito a voto pleno.
A proposta, porém, não avançou devido à resistência de alguns Estados-membros do bloco europeu. A própria Ucrânia considerou injusta a proposta da Alemanha de "adesão associada", uma vez que Kiev não teria direito a voto.
"Ainda não sabemos exatamente o que isso significa", disse Tobias Cremer, eurodeputado alemão de centro-esquerda e principal proponente de uma resolução que incentiva uma cooperação mais estreita entre a UE e o Canadá, após a fala de von der Leyen sobre o status de "membro associado".
Ele, no entanto, entende que uma aliança mais próxima faria sentido, "não apenas porque compartilhamos valores e história, mas porque possuímos interesses comuns e uma visão estratégica", afirmou Cremer.
Acordo comercial em vigor
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, apoiou a iniciativa, publicando nas redes sociais a imagem de uma folha de bordo vermelha - símbolo nacional do Canadá - posicionada ao lado do círculo de estrelas douradas da bandeira da UE.
O ministro do Exterior da França, Jean-Noël Barrot, disse que seu país apoia "laços cada vez mais estreitos com o Canadá", mas que o plano teria de ser "debatido, examinado e analisado".
Bruxelas e Ottawa já possuem o Acordo de Livre-Comércio e Investimentos entre a UE e o Canadá (Ceta, na sigla em inglês). Entretanto, mais de uma década após a celebração do pacto e nove anos desde a sua entrada em vigor provisória, vários países do bloco europeu ainda não o ratificaram.
Ainda assim, atribui-se ao Ceta o aumento de mais de 80% no comércio de bens e serviços desde 2016. Além disso, neste ano, o Canadá se tornou o primeiro país de fora do bloco europeu a aderir ao programa de empréstimos para defesa Safe da UE, orçado em 150 bilhões de euros, permitindo que empresas canadenses participem de compras conjuntas em um momento em que a Europa busca aumentar sua capacidade de defesa.
rc/md (EFE, AFP, Reuters)
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