Por que países europeus estão tirando reservas de ouro dos EUA
Diante da instabilidade geopolítica global e da crescente desconfiança em relação às políticas imprevisíveis do governo Donald Trump nos EUA, países como Holanda e França repatriaram ou transferiram suas reservas de ouro do território americano para a Europa. A medida visa assegurar acesso rápido e liquidez aos ativos estratégicos em cenários de crise e eventuais sanções, movimento que também ganha apoio político na Alemanha e na Itália, apesar da custódia americana ainda ser expressiva.
Holanda e França transferiram suas reservas de ouro dos cofres americanos para a Europa. Cresce a preocupação com a atual instabilidade geopolítica e confiabilidade do governo Trump.Fort Knox, o complexo fortificado no estado do Kentucky onde está armazenada cerca de metade das reservas de ouro do governo dos Estados Unidos, chega a ser um sinônimo de segurança extrema por sua inviolabilidade e estrutura imponente. Mas nem mesmo esse ícone americano tem segurado a debandada de ouro do país, alimentada por uma desconfiança crescente no governo de Donald Trump.
A decisão do banco central da Holanda de transferir recentemente cerca de 86 toneladas de ouro de Nova York para Londres evidenciou as crescentes preocupações de alguns governos com o armazenamento de ativos estratégicos nos EUA e com a possibilidade de acessá-los rapidamente em uma crise.
O banco central holandês (DNB) citou a "instabilidade geopolítica" e afirmou que distribuir suas reservas de ouro entre diferentes jurisdições aumentaria sua "preparação para crises". Mas o país não é o único nesse movimento.
A França também retirou sua reserva remanescente em ouro do Federal Reserve de Nova York entre julho de 2025 e janeiro de 2026, embora o presidente do Banco da França, François Villeroy de Galhau, tenha afirmado à época que a decisão não teve motivação política.
Vários políticos da Alemanha e da Itália, que possuem respectivamente a segunda e a terceira maiores reservas de ouro do mundo, defenderam que o ouro de seus países também seja retirado dos EUA. Eles alegam preocupações com a imprevisibilidade das políticas do governo americano e sua crescente hostilidade em relação à União Europeia, incluindo ameaças de anexar parte da Groenlândia.
A corrida do ouro
Segundo Sebastien Tillett, analista da Oxford Economics, a apreensão direta de ativos é um "risco extremamente remoto" para os bancos centrais europeus. No entanto, acrescentou, há preocupações crescentes com a facilidade de acesso aos ativos em uma era de incerteza geopolítica.
"A preocupação mais relevante é que ativos mantidos em outra jurisdição possam se tornar temporariamente inacessíveis em um cenário extremo de sanções, disputas legais ou tensões geopolíticas", afirmou.
De modo geral, segundo Krishnan Gopaul, do Conselho Mundial do Ouro, os bancos centrais ao redor do mundo vêm comprando mais ouro desde a crise financeira global de 2008 e estão cada vez mais atentos a onde e como armazenam suas reservas. Como resultado, os preços do ouro atingiram níveis recordes.
Uma pesquisa recente do Conselho Mundial do Ouro constatou que os bancos centrais acumularam, em média, 1.000 toneladas de ouro nos últimos quatro anos, acima da média de 500 toneladas observada na década anterior.
Segundo Gopaul, como a crise financeira global de 2008 foi seguida pela crise da dívida soberana da zona do euro e depois por uma série de crises políticas, uma pandemia e um período prolongado de conflitos e instabilidade geopolítica, o ouro passou a ganhar ainda mais destaque como ativo de proteção.
"Ao longo das últimas duas décadas, surgiram dúvidas e preocupações em torno do sistema financeiro global e do cenário geopolítico sob diferentes formas", disse.
As decisões da Holanda e da França de transferirem suas reservas de ouro dos Estados Unidos para a Europa ressaltam a nova atenção dada ao local exato onde o metal está armazenado, para que ele possa ser utilizado de forma rápida e fácil em caso de uma nova crise.
Processo complexo
Bancos centrais, governos e fundos soberanos mantêm ouro físico em diferentes localidades. Transferi-lo pode ser extremamente complexo, arriscado e caro, enquanto a facilidade para vendê-lo ou trocá-lo por moedas e outros ativos depende de sua localização.
"Os bancos centrais estão prestando mais atenção ao local onde mantêm suas reservas, assim como aos ativos que possuem, principalmente para maximizar a resiliência e a flexibilidade dessas reservas", disse Tillett.
Gopaul afirmou que a gestão de reservas tornou-se "incrivelmente importante" e que, embora pareça natural concentrar-se nos possíveis riscos associados a uma determinada jurisdição, como os EUA, parte da lógica dessas decisões é garantir que o ouro esteja o mais próximo possível de casa e em um centro financeiro com alta liquidez.
Ele destaca o fato de que o banco central holandês transferiu suas reservas para Londres, e não para a Holanda, porque o Reino Unido é "um dos centros de negociação mais líquidos do mercado de ouro".
"A ideia é que, em caso de crise, em períodos de estresse, esse ouro possa ser mobilizado", afirmou. "Londres é praticamente o coração do mercado de ouro. Há tanta atividade ali e o mercado é tão líquido que, em uma crise, é lá que você deseja ter o seu ouro."
O Banco da Inglaterra é um dos principais detentores e custodiante de ouro do mundo. Estima-se que mantenha cerca de 400 mil barras de ouro, avaliadas em aproximadamente 270 bilhões de dólares (cerca de R$ 1,3 trilhão).
A questão americana
Embora transferir ouro para um local como Londres tenha seus próprios atrativos para entidades europeias, é evidente que as dúvidas sobre a confiabilidade dos EUA na era Trump e sobre o sistema financeiro americano como um todo estão influenciando essas decisões.
Na semana passada, o gestor do gigantesco fundo soberano da Noruega, avaliado em 2,3 trilhões de dólares (R$ 11,7 trilhões), afirmou que o fundo precisa reduzir significativamente sua exposição aos títulos do Tesouro americano.
A decisão parece ser motivada por preocupações com o mercado de títulos públicos dos EUA, onde a inflação elevada e o aumento da dívida governamental vêm pressionando os custos de financiamento e assustando investidores.
Tillett afirmou que o ouro continua sensível às decisões do Federal Reserve e que a preocupação generalizada com os mercados financeiros americanos tem levado detentores do metal a considerar a transferência de seus ativos.
Além dessas preocupações específicas com os mercados financeiros, a retórica de Trump sobre a Groenlândia e as contínuas ameaças veladas à União Europeia reforçaram os motivos para que instituições europeias redistribuam seus ativos.
Ainda assim, os Estados Unidos, e especialmente o Federal Reserve de Nova York, em Manhattan, continuam sendo um importante custodiante de boa parte do ouro europeu, em particular o da Alemanha. Embora o Banco Central alemão tenha transferido cerca de 300 toneladas de ouro dos Estados Unidos para a Alemanha entre 2013 e 2017, ainda mantém bem mais de 1.000 toneladas em território americano.
No ano passado, o banco declarou em comunicado: "Não temos qualquer dúvida de que o Fed de Nova York é um parceiro confiável e seguro para a custódia de nossas reservas de ouro."
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